China busca traçar mito sobre raízes e trajetória de futuro líder

Autoridades tentam fazer do vilarejo de Liangjiahe, onde o vice e provável futuro presidente Xi Jinping foi acolhido, uma lenda

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A caverna é escura, estreita e cheia de mofo. Uma cama coberta com uma esteira de palha fica perto da porta. Uma mochila de lona verde e uma lanterna estão penduradas em dois pregos enferrujados na parede – bens supostamente deixados para trás por um garoto franzino de Pequim que viveu em Liangjiahe há quatro décadas para fazer trabalhar no campo.

"Ele gostava de ler livros", disse Lu Nengzhong, 80 anos, um fazendeiro que abrigou o menino, Xi Jinping, durante três anos. "Eram livros grossos, mas eu não sei o que eles diziam. Ele lia até cair no sono”.

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Fazendeiro busca água para beber no vilarejo de Liangjiahe, na China
Atualmente, os materiais de leitura de Xi são discursos e documentos de planejamento do governo – o vice-presidente da China, de 57 anos, deve assumir o lugar de Hu Jintao no próximo ano como líder máximo da nação. Sua biografia oficial está sendo cuidadosamente maquiada. As autoridades do vilarejo aqui têm recebido ordens para impedir os jornalistas de visitar a antiga casa de Xi.

Liangjiahe é a fundação de um mito criado e há muito cultivado por Xi. Em um ensaio para um livro de 2003, Xi disse que sete anos neste local o levaram a passar por uma transformação de vida. Usando uma linguagem marxista-leninista-maoísta padrão, ele escreveu sobre como aprendeu a servir o povo.

"Não devemos ficar muito acima das massas, nem considerar as massas como o nosso peixe e carne", disse ele. "A vida dura do povo pode cultivar a vontade. Com esse tipo de experiência, eu sou agora totalmente capaz de enfrentar todas as dificuldade que me afligirem no futuro, com coragem para enfrentar qualquer desafio, acreditar no impossível e vencer os obstáculos, sem pânico”.

Base revolucionária

A aldeia fica em um vale estreito a cerca de 70 quilômetros de Yan'an, cidade no norte da província de Shaanxi, que serviu de base revolucionária do Partido Comunista há 12 anos durante a guerra civil chinesa. O pai de Xi, Xi Zhongxun, um nativo de Shaanxi, ajudou a construir a base e se tornou um venerado líder do partido. Ele foi removido durante a Revolução Cultural, e seu filho foi enviado para Liangjiahe aos 15 anos para trabalhar ao lado dos camponeses em uma brigada.

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Wang Zhihui e a mulher Shi Cailian em sua casa dentro de caverna no vilarejo chinês de Liangjiahe
A aldeia é agora uma coleção de 100 famílias, duas vezes maior que na época de Xi. As casas do povo são cavernas construídas nas encostas secas. Os idosos trabalham em campos de milho, abóbora e batata, os jovens foram para as cidades à procura de trabalho. Uma planta amarelada cobre a paisagem, marcando o Planalto de Loess. Xi uma vez escreveu que ele é " filho da terra amarela".

Carroças puxadas por burros descem a estrada. Mulheres seguem para casa com feixes de madeira amarrados nas costas. Filho de um herói revolucionário, Xi caiu de paraquedas na região depois de viver uma vida de aristocracia em Pequim. Ele foi um dos cerca de uma dúzia de jovens enviados da capital para a região.

"Ele era muito diferente de nós", disse Lu, agora um homem curvado que veste um terno azul de Mao e usa óculos de aro preto. "Seu olhar era diferente e seu discurso era diferente. Nós não conseguíamos entender o sotaque de Pequim, e ele não conseguia nos entender".

Agricultura

A agricultura não estava no sangue de Xi. Mesmo depois de um ano aqui, ele lutava para equilibrar dois baldes de água em uma vara de bambu em seus ombros, disse Lu. "Ele escorregava pelas colinas sentado em vez de descer em pé. Ele era muito cuidadoso, muito cauteloso", disse.

"Ele me disse: 'Vocês de Shaanxi são realmente algo. Vocês conseguem detectar pedras nos campos que eu não consigo'", contou Lu. "E eu disse: 'Você não olha para as pedras, tateia por elas'”.

Muitos dos outros jovens enviados para Liangjiahe vieram de famílias de militares, e Xi fez amizade com eles. Mas a maioria se juntou ao Exército depois de apenas um semestre. "Eu me senti muito solitário", escreveu Xi. "Mas depois me acostumei com a vida local, especialmente depois que passei a fazer parte da população local e senti a felicidade na vida".

Xi viveu em várias casas da caverna. Durante seus três anos sob os cuidados de Lu, Xi se aproximou do filho dele, Lu Housheng. Mais tarde, depois que Xi tornou-se governador da província de Fujian, ele enviou dinheiro para o amigo para ajudar com uma operação de sua perna ruim – ele foi operado em Fujian. Na parede de Lu há uma foto de seu filho em pé ao lado de Xi, em um escritório.

"Ele era como um membro da família", disse Lu. "Nós todos vivemos juntos. Quando tinha problemas, ele falava comigo”.

Mas também havia divisão entre Xi e os aldeões. Como muitos outros jovens enviados para o campo, a Xi havia sido atribuído uma ração de farinha de milho. Os moradores comiam cascas de milho. Xi cozinhava em sua caverna e comia sozinho.

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Vilarejo de Liangjiahe abrigou o vice-presidente Xi Jinping, ainda garoto nos anos 80
Os moradores, muitas vezes passavam por sua caverna. "Mais e mais pessoas começaram a visitar a minha caverna, que gradualmente se tornou o centro da nossa aldeia", escreveu Xi. "Todas as noites, pessoas de todas as idades batiam à minha porta. Nós conversávamos sobre quase tudo. Até mesmo o secretário local do partido veio me pedir conselhos. Ele disse que os jovens haviam visto o mundo e sabiam mais do que ele”.

Pai

Alguns analistas políticos dizem que não foi por acaso que Xi acabou em uma brigada de trabalho na área onde seu pai havia conquistado grande respeito durante os dias do Partido Comunista em Yan'an. "Quando o filho de Xi Zhongxun foi enviado para cá, ele foi bem recebido, embora seu pai tivesse sido derrubado do poder", disse Tan Huwa, historiador da Universidade de Yan'an. "As pessoas aqui parabenizavam Xi Jinping por causa do tempo de seu pai aqui".

Xi disse que se inscreveu 10 vezes para entrar no Partido Comunista. Ele foi finalmente aprovado em janeiro de 1974. Logo depois, foi nomeado pelos moradores para ser o secretário do partido da aldeia, o primeiro entre os 29 mil jovens enviados de Pequim para Shaanxi.

"Ele não falava muito, mas quando falava as outras pessoas não conseguiam interrompê-lo", disse Lu. "Ele era um orador muito bom, muito convincente".

Xi dirigiu os moradores na construção de pequenas barragens ao longo de um rio para prevenir inundações e irrigar as lavouras. Ele deixou Liangjiahe em 1975 para estudar na Universidade de Tsinghua, em Pequim, uma incubadora de líderes políticos. O dia em que partiu, disse Lu, alguns aldeões o levaram em um carrinho de mão até o município vizinho.

Xi voltou uma vez, décadas mais tarde, quando era secretário do partido da província costeira de Zhejiang, que estava crescendo. Ele trouxe relógios para distribuir. "Ele ficou chocado com o quão pobre a aldeia estava", disse Lu. Xi tinha a intenção de permanecer por três dias, disse Lu. Mas foi embora depois de uma hora.

*Por Edward Wong

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