China atrasa lançamento de Harry Potter para promover épico patriótico

Público de cidades como Pequim, Xangai e Guangzhou criticam seleção e qualidade dos filmes para exibição escolhidos por governo

The New York Times |

O verão tem sido cruel para o público chinês fã de cinema. As últimas versões dos grandes filmes de Hollywood, como Transformers e foram adiadas e outros filmes americanos provavelmente nunca chegarão aos cinemas locais. Enquanto isso, os espectadores têm sido levados aos cinemas como parte de uma campanha do governo para promover um grandioso épico sobre o Partido Comunista chinês.

"Eu fiquei confuso ao longo do filme inteiro", disse Liu Yang, estudante do segundo ano da Escola de Medicina da Universidade Tsinghua, disse depois de assistir O Início do Grande Renascimento, que foi lançado no mês passado para coincidir com o 90 º aniversário do partido. "Ele traz muito romance com Mao".

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Governo chinês adiou lançamento de filmes americanos como Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
Mesmo conforme a receita de bilheteria do país aumenta, assim como a construção de novos cinemas - 313 foram construídos no ano passado chegando a total de 6,2 mil salas - audiências cada vez mais sofisticadas, de cidades como Pequim, Xangai e Guangzhou criticam a seleção e a qualidade dos filmes.

Regulamentações governamentais efetivamente limitam o total de filmes estrangeiros a 20 títulos por ano, aproximadamente o mesmo número de lançamentos mensais nacionais. Apesar de uma decisão da Organização Mundial do Comércio que visa eliminar as cotas, a Administração Estatal Chinesa de Rádio, Cinema e Televisão continua a proteger a indústria cinematográfica nacional contra a concorrência estrangeira.

A bilheteria chinesa totalizou US$1,57 bilhões no ano passado, um aumento de 64% em relação a 2009. Mesmo com seus números relativamente pequenos, os filmes estrangeiros geraram 44% de todas as receitas e foram 4 dos top 10 filmes do ano passado.

"Você pode controlar o sistema e todos os incentivos para que as pessoas assistam filmes, mas no fim do dia elas verão o que querem ver", disse Kevin Lee, vice-presidente de programação da Generate Films, distribuidora de filmes independentes na China, a maioria dos quais nunca é vista em teatros do continente.

O governo também controla as produções nacionais e as importações, mexe nos roteiros e censura conteúdo, chegando a proibir gêneros inteiros. Regulamentos recentes incluem a proibição de cenas em que se bebe e fuma em excesso e cenas que denigrem heróis revolucionários e oficiais do governo. Outra diretriz alertou produtores de televisão para evitar dramas que envolvam viagens no tempo. Tais programas, segundo o governo, "casualmente compõem mitos, têm tramas monstruosas e estranhas, usam táticas absurdas, e até mesmo promover o feudalismo, a superstição fatalista e a reencarnação".

Em algumas entrevistas feitas recentemente em cinemas de toda a capital, algumas pessoas disseram estar satisfeitas que os filmes nacionais estejam começando a adotar valores de produção de Hollywood. Mas os espectadores mais jovens, especialmente aqueles que cresceram baixando series e filmes americanos - quase todos de forma ilícita - exigem cada vez mais a magia técnica e complexidade narrativa que dizem ser muitas vezes inexistentes nas produções estatais.

Estrangeiros

"Ao contrário dos filmes nacionais, os estrangeiros têm diversas tramas", Wang Tong, 14 anos, disse no início desta semana, enquanto esperava para ver o drama de Hong Kong "Ilha Misteriosa" em um cinema não muito longe da Praça da Paz Celestial.

Isso não deve sugerir que os cineastas chineses não têm criatividade. Uma série de recentes sucessos de bilheteria, como Deixe as Balas Voarem, uma comédia de ação que se passa na década de 20, e Cidade da Vida e da Morte, um drama de época sobre as atrocidades japonesas de guerra em Nanjing, também foram bem recebidos criticamente. E um número crescente de dramas e documentários domésticos sofisticados foram feitos sem apoio do governo, embora esses filmes muitas vezes sejam proibidos nos cinemas chineses e raramente passem fora do circuito de festivais internacionais.

Depois, há filmes como O Início do Grande Renascimento, um espetáculo estatal que inclui mais de 100 atores, mas tem sido criticado por muitos daqueles que o viram. A produção faturou US$ 46 milhões durante suas primeiras três semanas, de acordo com a agência de notícias estatal Xinhua. Mas com as empresas estatais comprando grandes blocos de bilhetes, a popularidade do filme tem sido questionada.

Apesar do codiretor, Huang Jianxin, ter desmentido, muitas audiências parecem acreditar em um rumor predominante: o de que os grandes filmes estrangeiros serão adiados até que O Início do Grande Renascimento fature mais de US$ 120 milhões. Tais suspeitas são reforçadas por algumas verdades inegáveis. Transformers: Dark of the Moon não chegará à China até quinta-feira, três semanas depois da estreia dos Estados Unidos, enquanto Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 não está programado para chegar no país até 4 de agosto.

*Por Shao Heng e Andrew Jacobs

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