China acusa estrangeiros de tentar fomentar tumultos

Desconfiado, governo chinês cancelou pelo menos 60 atividades organizadas pela Embaixada Americana em Pequim desde fevereiro

The New York Times |

Oficiais da China e dos Estados Unidos estão concluindo o roteiro de um ritual que deve se desdobrar em Washington. Durante uma reunião conhecida como Diálogo Estratégico e Econômico, na segunda e terça-feira, eles irão sorrir em mesas de reunião e falar sobre cooperação em uma série de questões: comércio, moeda, Coreia do Norte.

Mas esse tipo de teatro parece mais distante dos acontecimentos na China do que em qualquer momento nos últimos anos. Nos últimos três meses, alguns grupos estrangeiros têm sido submetidos a pressões cada vez maiores das autoridades, refletindo os crescentes temores em Pequim sobre a influência dos estrangeiros e das ideias liberais do Ocidente.

AFP
Vice-premiê chinês, Wang Qishan (C), e o conselheiro Daí Bingguo (E) ouvem discurso de secretária de Estado Hillary Clinton, em reunião em Washington
A boa vontade entre os Estados Unidos e a China é escassa. Nas reuniões, os americanos devem falar abertamente sobre direitos humanos, enquanto o governo chinês já aumentou as suas críticas ao Ocidente, com alguns oficiais dizendo aos diplomatas estrangeiros que acreditam que os Estados Unidos estão fomentando uma revolução em seu país.

Pelo menos 60 atividades organizadas pela Embaixada dos Estados Unidos em Pequim – incluindo fóruns culturais, programas escolares, visitas de embaixadores – foram canceladas entre fevereiro e abril, devido à interferência das autoridades chinesas. Algumas missões europeias têm sido igualmente pressionadas.

Contra democracia

Várias conferências universitárias que envolvem estrangeiros foram canceladas e o Ministério da Educação está intensificando os avisos aos estudiosos chineses que deixam o país momentaneamente que não tomem parte em atividades "anti-China" ou se envolvam com grupos que promovem a democracia.

O escrutínio também tem sido aplicado a alguns grupos sem fins lucrativos, com diversos deles – especialmente aqueles que recebem financiamento do governo dos Estados Unidos ou da União Europeia – sendo visitados com mais frequência por oficiais do governo local.

Ao mesmo tempo, a China empreendeu a sua mais dura repressão contra o discurso liberal dos últimos anos: centenas de chineses foram detidos, presos, espancados, interrogados ou colocados sob prisão domiciliar.

O governo já vem se protegendo contra as influências ocidentais há muitos anos, incluindo o bloqueio de sites como Twitter e Facebook, mas essas restrições se intensificaram desde que revoltas começaram a varrer o Oriente Médio e a África.

A repressão está concentrada nos grupos estrangeiros ou atividades que têm laços significativos com governos estrangeiros, realizam programas de divulgação de destaque, incentivam a liberdade de expressão ou promovem a liberdade na internet.

Mundo Árabe

Oficiais chineses de alto escalão parecem acreditar que os Estados Unidos, em particular, ajudaram a deflagrar e sustentar as insurreições que derrubaram ditadores no mundo árabe. Em meados de fevereiro, mensagens apareceram na internet chinesa convocando as pessoas a protestos semelhantes em todo o país. Algumas das pessoas que espalham a palavra da chamada Revolução Jasmim são chineses que vivem no exterior.

Uma mensagem convocando os chineses a protestar no dia 20 de fevereiro diante de uma loja do McDonald's na Wangfujing, popular rua comercial de Pequim, e o governo ficou preocupado quando Jon M. Huntsman Jr., que era então o embaixador dos Estados Unidos para a China, apareceu no local.

Os funcionários da embaixada disseram que Huntsman, que deixou seu trabalho no fim de abril, não estava ciente das convocações para um protesto, mas o governo chinês começou rapidamente a cancelar as ações sociais patrocinadas pela Embaixada dos Estados Unidos. Entre elas a visita de Huntsman a cidades chinesas e programas de educação em que autoridades dos Estados Unidos se reunem com estudantes chineses, de acordo com entrevistas com estrangeiros e chineses.

"Nós expressamos nossas objeções a essas medidas a oficiais chineses de alto escalão em várias ocasiões", disse Richard Buangan, porta-voz da embaixada.

Embora alguns programas da embaixada tenham sido retomados, poucos esperam que a atitude do governo mude em breve. "Eu acho que esse é um novo 'normal'", disse Sara Davis, diretora executiva da Asia Catalyst, um grupo sem fins lucrativos de Nova York, que trabalha com cerca de uma dezena de organizações populares chinesas em questões relativas ao HIV. "Eu não acho que a China tenha nenhum motivo para afrouxar as restrições. Eles estão jogando uma rede maior e tentando pegar qualquer pessoa disposta a falar o que pensa", acrescentou.

*Por Edward Wong e Jonathan Ansfield

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