Chelsea Clinton decide fazer jus ao nome de sua família

Com programa na TV, filha de Bill e Hillary Clinton sai dos bastidores e finalmente aceita o status de celebridade

The New York Times |

Durante uma série de jantares informais em restaurantes perto de seu apartamento em Manhattan, Chelsea Clinton começou a conversar com um casal de amigos de longa data sobre algo que durante muito tempo tinha sido uma espécie de tabu: ela queria parar de fingir que não é Chelsea Clinton.

Foi uma afirmação e tanto vinda de alguém que, apesar do perfil público da família - o pai é o ex-presidente Bill Clinton e a mãe é atual secretária de Estado, Hillary Clinton -, viveu a maior parte de seus 31 anos distante dos holofotes. Sim, Chelsea foi vista ao longo dos anos, enquanto crescia e passava de desengonçada adolescente de cabelos encaracolados para mulher elegante que circula pela cidade de Nova York. E, sim, o casamento dela com Marc Mezvinsky saiu na capa da revista People - e depois na sessão de celebridades do The New York Times, quando circularam rumores de crise entre o casal.

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Chelsea Clinton participa de evento da fundação de seus pais em hotel de Nova York (21/11)

Mas na maior parte do tempo Chelsea pareceu determinada a manter sua vida estritamente privada, recusando-se a falar com a imprensa e pedindo o mesmo a seu círculo de amigos.
Agora, no entanto, ela parece ter entendido que já que precisa enfrentar o lado negativo de ser a filha de Bill e Hillary Clinton, ou seja, estar sob o constante escrutínio da mídia, por que não aproveitar o lado positivo disso?

Assim, nos últimos 12 meses, ela entrou para o conselho da InterActiveCorp, da Barry Internet Diller, tem conversado com doadores para organizações como a amfAR, adotado um papel cada vez mais público na Global Clinton Iniciative (chegando a apresentar um prêmio a sua mãe no evento Diane Von Furstenberg no Dia Internacional da Mulher) e foi a anfitriã do aniversário de 65 anos de seu pai em um evento beneficente em Hollywood para a Fundação Clinton, com convidados como Lady Gaga e Bono. Ela até criou uma página no Facebook.

E em seu ato de mais alta exposição até agora, ela aceitou um trabalho como correspondente especial da NBC News, contribuindo para o segmento da emissora chamado "Making a Diference" (Fazendo a Diferença, em tradução literal). No dia 12 de dezembro, Clinton fará sua primeira aparição no horário nobre no programa "Rock Center with Brian Williams", com um segmento que ela desenvolveu em uma organização sem fins lucrativos em Pine Bluff, Arkansas. Essa foi uma estratégia profissional que ela colocou em prática com a ajuda de seus conselheiros, agendando entrevistas com executivos de alto escalão da rede de televisão e até mesmo chegando a conversar com a agência Creative Artists.

"Por inúmeras razões, ela decidiu que é o momento certo para aceitar publicamente a responsabilidade que sente de servir em benefício das pessoas", disse Bari Lurie, um ex-estagiário da Casa Branca durante o governo de Bill Clinton, a quem Hillary Clinton nomeou como seu chefe de equipe em setembro.

"Espero fazer uma contribuição positiva e produtiva, por mais brega que isso possa parecer", escreveu Chelsea, em entrevista por email. "Durante a maior parte do tempo, levei uma vida privada."

Mas depois de participar da campanha para a candidatura presidencial de sua mãe em 2008, Chelsea percebeu que gostava de falar publicamente sobre questões no qual acredita. Sua avó, Dorothy Rodham, deu-lhe alguns conselhos. "Ela me disse que ser Chelsea Clinton foi algo que aconteceu comigo e é algo que vai além do meu trabalho e das campanhas que fiz para a minha mãe. Eu não estava fazendo o suficiente para ajudar o mundo".

Essas conversas continuaram ao longo de dois anos - muitas vezes "quando Marc e eu estávamos sendo perseguidos pelos paparazzi por qualquer bobagem" - até Dorothy Rodham falecer em novembro. "Levei o que ela disse a sério - que eu tinha vivido fora dos holofotes por muito tempo e talvez fosse a hora de começar a levar uma vida pública que tivesse algum significado".

Em uma noite fria de fevereiro, Clinton participou da festa de gala anual da fundação de pesquisa contra Aids conhecida como amfAR, um evento beneficente que deu início à Semana de Moda de Nova York. Lá, ela cumprimentou o cantor Elton John e o ator Richard Gere e deu um beijo na bochecha do produtor Harvey Weinstein, um amigo da família, ao subir ao pódio para entregar um prêmio a seu pai.

"Cresci em uma casa onde ouvia o nome Mathilde Krim com mais frequência do que eu ouvia sobre os atores que Harvey colocava em seus filmes", Clinton disse, referindo-se ao médico e ativista que fundou a amfAR.

Diller também apresentou um dos prêmios da noite. Não muito tempo depois do evento de gala, Diller recomendou Chelsea ao comitê de indicação do conselho de administração da InterActive, juntamente com Michael Eisner e Edgar Bronfman Jr., entre outros. Ela compareceu à primeira reunião do conselho na semana passada.

Como sempre, a desvantagem de ser a filha dos Clinton não estava muito distante dela. Sua posição no comitê da IAC, que lhe paga US$ 50 mil dólares anuais além de uma doação de US$ 250 mil de ações restritas, estimulou os críticos a dizerem que Chelsea conseguiu a posição apenas por ter pais famosos - eles a descreveram como uma típica socialite e disseram que sua posição na IAC e seu segmento na NBC News poderiam ser comparados a ter uma linha de bolsas de grife. Críticas semelhantes foram feitas quando Jenna Bush Hager, filha do presidente George W. Bush, foi contratada como correspondente do programa "Today" em 2009.

Por mais inacreditável que possa parecer vindo de alguém que tinha evitado a mídia de forma agressiva - em 2007, quando saiu em campanha para sua mãe na cidade de Cedar Rapids, Iowa, Chelsea disse a uma "repórter mirim" de 9 anos da Scholastic News que ela não falaria com a imprensa, "apesar de achar que você é fofa" - o trabalho na NBC não surpreendeu os assessores que acompanharam Chelsea de perto na época da campanha.

Eles a descreveram como alguém que, em questão de semanas, passou de conversar com uma dúzia de pessoas em um café para responder a perguntas de multidões.

"As pessoas estavam interessadas em vir para ouvi-la e vê-la porque elas acompanharam seu crescimento e sua vida de longe. De repente, perceberam que ela tinha algo a dizer", disse Howard Wolfson, estrategista sênior da campanha presidencial de Hillary Clinton que agora trabalha para o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg.

Essa experiência convenceu Chelsea a assumir um papel público maior e, em particular, o trabalho na TV, disse Steve Capus, presidente da NBC News. "Ela falou sobre as histórias inspiradoras que ouviu durante a campanha e disse que gostaria de voltar e visitar algumas das pessoas que havia conhecido", disse.

Em junho, Alan Berger, um agente da Creative Artists que representa a apresentadora Katie Couric, marcou uma reunião entre Chelsea e Capus em um sala de conferência em um hotel de Manhattan para discutir o programa "Fazendo a Diferença ". Antes dessa reunião, a equipe de Chelsea também organizou sessões com outras redes de televisão.

"Ela é uma mulher de 31 anos que teve algumas mudanças de carreira e decidiu pesar qual seria o seu próximo passo", disse Capus.

Durante semanas, a NBC News usou um pseudônimo para planejar as reuniões para que ninguém soubesse que Clinton iria se juntar à equipe. Brian Williams descreveu sua primeira reunião extremamente discreta com Clinton - em uma mesa tranquila no fundo de um restaurante italiano no centro de Manhattan - como “uma cena de ‘O Poderoso Chefão’ sem a arma escondida no banheiro".

Na semana passada, Chelsea cumprimentava a todos ao caminhar pelos corredores da NBC News no Rockefeller Center, onde ela agora tem um escritório temporário. "Oi, eu sou a Chelsea", ela repetia, com o charme de seu pai e o sorriso de sua mãe. Em certo momento, cumprimentou Howard Dean, que esperava na sala verde.

Em uma sessão de debates sobre uma mídia responsável, apresentada pela Common Sense Media, perguntei a Clinton se as falsas declarações que foram feitas sobre ela nos meios de comunicação a motivaram a trabalhar na NBC News. Ela respondeu: "Sem dúvida alguma".

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Chelsea participa com os pais de evento em Nova York (22/11)

Há 20 anos, Chelsea Clinton parecia nem existir para muitos eleitores. Durante a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, Chelsea, que na época tinha 12 anos de idade, foi tão protegida da mídia que as pesquisas mostraram que muitos eleitores não sabiam que os Clinton tinham uma filha. Então, a família prontamente sentou-se para dar uma entrevista à revista People.

Seis anos depois, durante o escândalo de Monica Lewinsky, Chelsea foi fotografada andando de mãos dadas com seus pais. A adolescente tentava manter a família unida enquanto caminhava tristemente pelo gramado da Casa Branca.

"A coisa mais importante que Bill e Hillary fizeram foi ter criado Chelsea ", disse James Steyer, da Common Sense Media, que tem acompanhado a jovem desde que ela foi sua aluna na Universidade de Stanford.

Mas ser a coisa mais importante feita pelo casal Clinton também significa grandes responsabilidades. Como filha única, ela passou a maior parte de sua vida protegida das multidões que parecem dar força política a seu pai. Os constantes lembretes da Casa Branca de que Chelsea não estava ao alcance da mídia faziam suas poucas aparições em público - um grito de apoio em uma convenção, uma dança no baile da posse - parecerem encenados. Mesmo sua transformação parisiense em 2002 (com a ajuda de Madonna e Gwyneth Paltrow) pareceu forçada.

Em público, ela sempre pareceu como sua mãe, mantendo uma postura reservada, como se a política fosse o preço a se pagar por fazer parte do serviço público. Privadamente, segundo amigos, Chelsea se parece mais com o pai - argumentativa, calorosa, com um senso de humor afiado e um talento especial para se lembrar de fatos misteriosos.

Durante o debate sobre mídia responsável, Chelsea pegou o microfone da mão de Steyer. Ela falou sobre estatísticas da obesidade infantil e do impacto dos videogames violentos. Como seu pai, ela sabia exatamente quando inserir alguns detalhes sobre sua experiência pessoal no assunto.

"Estou muito grata por ter crescido em uma casa em que a informação sobre a mídia era considerada uma necessidade de sobrevivência", disse ela, tirando algumas risadas da pequena multidão presente em uma casa noturna de Nova York.

Apesar de Chelsea ser mais parecida com seu pai e parecer compartilhar seu amor pelo debate público, ela também forjou seu próprio caminho em alguns questões cruciais, especialmente o casamento gay.

Em maio, Chelsea esteve na boate Lavo, em Manhattan, para participar de uma festa beneficente para o Friendfactor, um grupo de direitos homossexuais. Lá, cumprimentou Andy Cohen, o executivo da rede de televisão Bravo responsável pelo seriado "Real Housewives", e a atriz Kristen Bell, antes de abraçar Brian Elliot, o fundador e diretor-executivo da organização.

"Certamente acredito que todos os meus amigos devem ter o direito de se casar, como Marc e eu fizemos", disse, mais tarde, para a multidão. "Certamente acredito que os heterossexuais não devem deixar de participar dessa causa.”

Elliot disse que conheceu Chelsea um ano atrás, quando um amigo em comum sugeriu que ela se envolvesse com a organização. "Ela deixou claro que a igualdade no casamento não é uma questão política. Trata-se de seus amigos", afirmou, em uma entrevista.

Quando Bill Clinton era presidente, assinou o Ato de Defesa do Casamento, dizendo que embora "não apoie a discriminação de qualquer espécie, incluindo a discriminação contra gays e lésbicas", ele também "se opõe à aprovação governamental para casamentos do mesmo sexo."

Em maio, reconhecendo ter sido influenciado pelo ponto de vista de sua filha, ele mudou de opinião, anunciando que apoia a aprovação de uma lei pelo casamento gay, que seria debatida pelo legislativo de Nova York.

"Por mais de um século, a nossa Estátua da Liberdade tem recebido todos os tipos de pessoas de todo o mundo que desejam ser livres", disse ele antes da lei ser aprovada. "No século 21, acredito que Nova York deve receber de braços abertos a igualdade no casamento.”

Uma integrante da família, no entanto, não cedeu: Hillary Clinton, que se opôs ao casamento gay durante sua campanha presidencial, disse recentemente que seu posicionamento sobre o assunto não mudou.

Parte do fascínio pela vida de Chelsea é o fato de que, ao contrário de outros filhos de famosos, ela nunca foi fotografada bêbada tropeçando ao sair de casa noturna ou flagrada usando uma identidade falsa. Segundo sua amiga Nicole Davison, que deu entrevista para a Fox, não é que ela tenha evitado essas situações – ela simplesmente não é desse tipo.

"Se você nos conhecesse na época do colegial, teria nos achado umas nerds", disse Nicole. As duas se conheceram em uma aula de ciências da oitava série da Escola Sidwell Friends e ainda vivem no mesmo prédio. Nicole foi madrinha de casamento de Chelsea no verão de 2010.

Mezvinsky, seu marido, é um ex-banqueiro da Goldman Sachs. O apartamento, dividido com um Yorkshire terrier miniatura chamado Soren, nome que vem do filósofo Soren Kierkegaard, é repleto de livros.

Em 2009, Chelsea mergulhou em seu trabalho acadêmico, obtendo um mestrado em saúde pública na Universidade de Columbia. Um ano depois, aceitou um emprego como assistente do vice-reitor da Faculdade Global da Universidade de Nova York, um programa que visa interligar estudantes de todo o mundo. Na universidade, Clinton também implementou iniciativas interuniversitárias para unir alunos muçulmanos e judeus, um trabalho que, segundo amigos, foi motivado por ela ter se casado com Mezvinsky, que é judeu. Clinton faz parte da igreja Metodista.

Mas ela queria adicionar um componente público ao seu trabalho acadêmico. "Como sempre, falei com minha avó sobre isso, e ela disse o que sempre dizia - que a vida não é o que acontece com você, mas sim o que você faz com o que acontece com você", disse.

"(Antes de fechar contrato com a NBC) Conversei com muitas pessoas, pedindo seus conselhos e ideias", afirmou Chelsea. "Quero deixá-la orgulhosa do meu trabalho na TV, do meu trabalho acadêmico e de tudo o que faço", disse ela sobre aavó.

Conforme a campanha do presidente Barack Obama à reeleição começa a ganhar força, Chelsea provavelmente vai precisar diminuir suas responsabilidades com a televisão para ajudar a arrecadar dinheiro. Um assessor disse que ela irá ajudar Obama "100%" com sua campanha. Capus disse que a NBC News irá discutir antecipadamente qualquer atividade política de Chelsea, como faz com todos os seus colaboradores. Ela tem um contrato de experiência de três meses com a NBC, após o qual ambas as partes irão decidir se desejam continuar.

Outro fator que conta nas escolhas de Cheksea é a saúde de seu pai. Bill Clinton tem um histórico de problemas cardíacos - ele chegou a fazer uma cirurgia de revascularização do miocárdio em 2004 e teve complicações relacionadas com o coração. Filha única, ela deve considerar a possibilidade de continuar com o legado de seu pai. "Ninguém quer pensar sobre isso, mas ela é a próxima a assumir algum cargo público na família e com isso vem uma certa responsabilidade", disse um conselheiro de longa data.

No próximo ano, quando Hillary Clinton deixar o Departamento de Estado, pela primeira vez Chelsea não terá nenhum dos pais exercendo cargos públicos. Alguns democratas já estão pensando em sua candidatura.

Em outubro, o Talk of the Sound, um blog de New Rochelle, Nova York, relatou que Chelsea iria tentar se candidatar para a cadeira de Nita M. Lowey no Congresso de Nova York. Um porta-voz disse que ela não tem interesse em qualquer cargo público.

"Será que o partido Democrata precisa de alguém como Chelsea Clinton?", questionou Sheinkopf. "Ela é inteligente, ela é encantadora e ela tem sobrenome."

Por Amy Chozick

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