Chegada de migrantes sobrecarrega cidades indianas

Segundo relatório, infraestrutura do país não acompanha ritmo de mudança; 590 milhões de indianos viverão em cidades até 2030

The New York Times |

Mahitosh Sarkar veio de uma distante cidade em Bengala Ocidental há 12 anos em busca de uma vida melhor e a encontrou. Sarkar deixou para trás uma existência miserável como pescador para se tornar vendedor de verduras na cidade grande. Sua mulher encontrou trabalho como empregada doméstica e os quatro filhos do casal passaram a frequentar a escola. Seu pequeno lar, um dilapidado apartamento de um quarto suficiente apenas para protegê-los do clima, tinha uma televisão e antena parabólica.

Mas atualmente Sarkar está contabilizando as perdas e não as bençãos. O seu filho de 10 anos de idade morreu, juntamente com outras 70 pessoas, quando o prédio desabou no dia 15 de novembro. Sua mulher encontra-se hospitalizada com uma perna quebrada. A família perdeu tudo o que tinha, incluindo a televisão a cores.

The New York Times
Migrantes e parentes de vítimas de desabamento de prédio em Nova Délhi, na Índia
Os escombros do prédio ilegal no qual a família Sarkar vivia em um bairro na zona leste de Nova Délhi tornou-se um símbolo do fracasso da Índia em lidar com o crescimento explosivo de seus centros urbanos.

Após passar décadas como uma nação formada primordialmente por agricultores, a Índia vê o seu interior esvaziar-se enquanto milhões de pessoas abandonam as suas pequenas vilas estagnadas e rumam para as cidades. Mas a infraestrutura urbana do país não acompanhou o ritmo dessa mudança e isso ameaça minar a capacidade da Índia de tirar vastas grande parte de sua população da pobreza em que se encontra e dividir os frutos do seu crescimento de forma mais ampla.

Um relatório do Instituto Global McKinsey divulgado recentemente estima que até 2030, 70% dos empregos da Índia serão criados nas cidades grandes e cerca de 590 milhões de indianos viverão nas zonas urbanas. Para providenciar moradias e espaços comerciais suficiente para tanta gente a Índia terá de construir o equivalente a uma Chicago por ano, diz o relatório.

Mas o país não têm planos para isso e as cidades já estão enfrentando graves problemas com a chegada dos migrantes. De Bombaim a Bangalore, de Nova Délhi a Chennai, as estradas encontram-se engarrafadas o tempo todo. Esgoto, água encanada e energia elétrica não existem para a maioria. E talvez o mais importante seja o fato de haver um grande déficit de habitação, especialmente para os recém-chegados migrantes pobres, o que faz com que a Índia tenha mais favelados do que qualquer outro país do mundo.

Implementação

“Nós exigimos uma reavaliação radical do desenvolvimento urbano”, diz K.T. Ravindran, professor de planejamento urbano que trabalha junto ao governo nas questões urbanas. “As ideias existem, mas não há uma boa implementação dessas ideias”.

Assim como várias cidades indianas, as leis de zoneamento e construção de Nova Délhi foram feitas para uma cidade muito menor em uma época muito diferente, com políticas que desencorajam o crescimento.

Os prédios na maioria dos bairros têm um limite máximo de cinco andares e em muitas áreas o número de andares permitido é ainda menor. O governo controla os terrenos e é difícil obter aprovação para novos projetos de construção, mesmo para habitações para as classes média e alta. Assim, os pobres encontram-se praticamente ignorados pelo sistema.

O estado de ruína em que se encontram as cidades indianas acontece principalmente por causa dos projetos governamentais. Durante décadas, os governos indianos procuraram desencorajar a migração para os centros urbanos tornando a vida nas cidades cara demais e difícil para os novos migrantes.

Essas políticas foram guiadas em parte por uma crença "ghandiana" de que a Índia deveria ser uma nação rural. Mas os moradores das regiões rurais do país votaram contra essa ideologia.

Demanda

As habitações de aluguel barato nas favelas, como o quarto em que morava a família Sarkar, são quase impossíveis de se encontrar porque sua construção de maneira legal é muito difícil. “Se eu quisesse construir casas para os pobres, as leis não permitiriam que eu fizesse isso de maneira rentável”, diz Sanjeev Sanyal, especialista em urbanização e economista. “Há uma demanda que não está sendo atendida e desrespeitar a lei é a única forma de atendê-la”.

O dono do prédio que desmoronou, Amrit Singh, prosperou desrespeitando a lei. Há mais de 25 processos criminais pendentes contra ele, segundo a polícia de Nova Délhi. De acordo com a mídia local, ele também se gabava de ter pago propinas a inspetores para evitar as multas por construir novos andares nos seus prédios.

Os moradores da região afirmam que o prédio que desmoronou era famoso pela péssima qualidade de sua construção e Singh é conhecido por ignorar as regras relativas a isso.

“O governo se omitiu”, acusa Ratan Haldar, um assistente social que ajuda os migrantes do bairro. “Eles criam leis, mas jamais as implementam. As autoridades recebem propinas e ignoram as regras. Como resultado disso, pessoas morrem”.

The New York Times
Desabamento de prédio de cinco anos tornou-se símbolo da incapacidade da Índia em lidar com o boom urbano
No entanto, nenhum dos moradores do edifício ousou reclamar, já que as habitações são tão escassas em Nova Délhi que eles sabem que acabariam morando na rua ou em uma favela. Foi exatamente isso que aconteceu com os moradores de um outro prédio de Singh que foi evacuado após o desmoronamento.

Estrutura

Por mais miseráveis que possam ser as condições de vida na cidade, elas são muito melhores do que aquelas que os migrantes deixaram para trás. Por pior que seja a infraestrutura urbana, um relatório do governo informa que 65% dos camponeses não contam com privadas, enquanto apenas 11% dos moradores das cidades encontram-se na mesma situação. Nas cidades eles têm também muito melhor acesso a água encanada e redes de esgoto.

No necrotério municipal, frágeis caixões de madeira eram preparados para aqueles que morreram no desabamento do prédio. Os caixões com os corpos serão enviados de volta às vilas e aldeias de onde vieram. Os corpos de Shahen Shah, 27 anos, de Bengala Ocidental, e de Iftikhar, 13 anos, de Bihar, foram enviados por trens que seguiram para o leste. Mas poucos daqueles que sobreviveram pretendem fazer essa jornada de volta. Até mesmo a mais precária moradia na nova Índia é preciosa demais para ser trocada pela vida antiga.

“Agora a nossa vida é aqui”, diz Manoj Sarkar, 20 anos, filho de Mahitosh Sarkar. “Nós não podemos morar em nenhum outro lugar”.

*Por Lydia Polgreen

    Leia tudo sobre: índiainfraestruturamigrantestrabalhadorescidades

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG