Chávez tenta recriar história com exumação dos ossos de Bolívar

Presidente da Venezuela quer esclarecer se herói da independência foi assassinado há quase dois séculos

The New York Times |

Reuters
Imagem de vídeo mostra cerimônia na qual os ossos de Bolívar foram exumados
O relógio marcava meia-noite. A maior parte do país estava dormindo. Mas isso não impediu o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de anunciar, na madrugada de 16 de julho, que a última fase da Revolução Bolivariana tinha sido colocada em andamento.

Marchando ao som do hino nacional, uma equipe se reuniu em torno do sarcófago de Simón Bolívar, o aristocrata do século 19 que libertou grande parte da América do Sul do domínio da Espanha. Eles abriram os parafusos do caixão, tiraram a tampa e uma bandeira venezuelana que cobria os restos mortais. Insones acompanharam de boca aberta a cobertura ao vivo da exumação de Bolívar pela televisão estatal, com narração do ministro do Interior, Tareck El Aissami.

Mesmo venezuelanos acostumados com o teatro político de Chávez se surpreenderam com a exumação. Os venezuelanos tem debatido nas últimas semanas quais são os possíveis motivos para a retirada dos restos mortais de Bolívar do Panteão Nacional.

O presidente Chávez ofereceu a sua própria explicação: a necessidade urgente de fazer testes para determinar se Bolívar morreu de envenenamento por arsênico em Santa Marta, na Colômbia, em vez de tuberculose em 1830, como os historiadores têm afirmado.

Uma comissão montada por Chávez tem estudado esta teoria nos últimos três anos.

Seu trabalho é baseado em alegações de alguns Bolivarianologos, como são chamados os especialistas na história de Bolívar, de que uma carta de Bolívar há muito perdida revela como ele foi traído pela aristocracia da Colômbia.

The New York Times
Imagem de Bolívar é usada em pôster do governo para promover o bicentenário da Venezuela em Caracas

Resultados apresentados em uma conferência médica deste ano nos Estados Unidos incentivaram ainda mais a empreitada de Chávez. Na conferência, Paul Auwaerter, especialista em doenças infecciosas da Universidade Johns Hopkins, disse que Bolívar provavelmente morreu de ingestão de arsênico, uma afirmação aproveitada pelos meios de comunicação estatais locais para apoiar a alegação de que Bolívar foi assassinado.

Pouco importa que Auwaerter diga que sua pesquisa foi mal interpretada, uma vez que a ingestão de arsênico pode não ter sido intencional e sim através de medicamentos que na época continham o material ou água contaminada.

Chávez, através da remoção de dentes e fragmentos de ossos do esqueleto de Bolívar para testes de DNA, pode estar levando a apropriação dos mortos a novos níveis. As autoridades têm ignorado os pedidos de descendentes da família de Bolívar para que deixem os restos mortais em paz.

A próxima exumação, explicou o vice-presidente Elias Jaua, será a da irmã de Bolívar, Maria Antonia Bolívar, cujos restos mortais repousam na Catedral de Caracas. Jaua disse que testes de DNA serão realizados em seu esqueleto para determinar se os ossos encontrados na tumba de Bolívar são realmente de Bolívar.

"Uma vez que estivermos certos de que estes são os restos do Libertador", disse Jaua, "vamos preparar um documentário a fim de relatar o testemunho da história".

Por Simon Romero

    Leia tudo sobre: venezuelahugo chávezsimón bolívar

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG