Charme da cachaça brasileira chega aos Estados Unidos

BARRA MANSA, Brasil - No interior do Rio de Janeiro, depois que os biquínis de Copacabana dão lugar às favelas, subúrbios industriais e, finalmente, verdes vales, dezenas de barris de carvalho de nove mil litros são mantidos vazios em uma nova adega fora de uma fazenda colonial portuguesa do século 18 rodeada por mais de 1500 acres de floresta, pasto e colheitas de cana.

New York Times |

Antônio Rocha espera que esses barris, e outros 17 mantidos em uma outra adega, satisfaçam a crescente demanda norte-americana por cachaça envelhecida, uma versão mais macia e doce do destilado que sua família produz na fazenda há quatro gerações.

A forma mais fácil de se conhecer a cachaça é misturada a limão e açúcar na famosa caipirinha, mas ali se usa uma variação mais bruta e industrializada da bebida.

Na fazenda de Rocha eles colhem sua própria cana-de-açúcar, passam por um moinho de água, fermentam o suco com levedura natural e destilam tudo usando a energia gerada pela combustão dos restos da polpa da colheita.

Para envelhecer sua cachaça de cinco anos, ele usa barris de cerejeira. As versões de 12 e 25 anos são envelhecidas em carvalho francês. Os barris na nova adega são parte da expansão dos negócios. Durante anos sua família vendeu sua cachaça para outras empresas do Estado. Sua própria marca, Rochinha, surgiu em 1990.

"Até 1990 a cachaça não tinha nenhum valor", afirma Rocha. "As cachaças que vendiam eram as que tinham dinheiro para propaganda; as cachaças de qualidade não faziam propaganda. Tudo se propagava no boca a boca".

Há quatro anos ele começou a vender suas cachaças de 5 e 12 anos nos Estados Unidos, em lojas de bebidas como Astor Place Wine & Spirits em Manhattan e, por conveniência, na Churrascaria Plataforma, no centro da cidade.

Cachaças envelhecidas, que geralmente passam anos em barris são uma pequena fração do mercado para a bebida nos Estados Unidos, que pode atingir mil barris de nove mil litros ao ano, segundo Olie Berlic, que importa a Rochinha. Mas a demanda está crescendo.

A importação da cachaça nos Estados Unidos aumentou consideravelmente na última década: 647 mil litros em 2007, em comparação a 213 mil litros em 2002 e menos de 100 mil em 1998, de acordo com o governo brasileiro.

As duas marcas que dominam o mercado - Pitú e 51 - são industrializadas e custam cinco vezes mais do que seu preço nos mercados brasileiros, onde seu valor é quase o mesmo de uma garrafa d'água. Esse tipo de cachaça industrial é feito em enormes destiladores de metal, enquanto as marcas menores optam por pequenos alambiques de cobre.

Leblon, que chegou ao mercado em 2005 e está em terceiro lugar, é mais pura, frutada e consegue boas críticas. Ela e outras marcas que almejam o mercado internacional, como Água Louca e Beleza Pura, podem ser consumidas puras, mas são anunciadas para uso na caipirinha.

Cachaças mais artesanais pegam carona na demanda e, como a Rochinha, são produzidas por famílias e trazem a cor e os aromas das madeiras em que são armazenadas.

Berlic, antigo sommelier do Gotham Bar & Grill em Greenwich Village, também importa muitas delas. Além da Rochinha, tem a GRM do principal Estado produtor da bebida, Minas Gerais, e Armazém Vieira, de Santa Catarina.

"Você está acompanhando os primórdios de uma categoria", afirma Berlic, que viajou o Brasil experimentando mais de 800 cachaças para escolher as marcas que iria importar. "O que a cachaça pode mostrar ao mundo é uma variação de sabores impossível de se obter em qualquer outra bebida".

Segundo ele, cerca de 20 tipos de madeiras são usadas no processo de envelhecimento, incluindo o carvalho, que gera um sabor de baunilha tostada, e árvores brasileiras como o jequitibá rosa, que dá à bebida uma nota apimentada como a canela.

E quase todas as cachaças proporcionam o tom adocicado da cana-de-açúcar.

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