Ceticismo e número de partidos crescem antes de eleição no Egito

Conforme votação se aproxima, aumentam questionamentos sobre formação de um novo Parlamento capaz de desafiar militares

The New York Times |

No comício que deu início à sua campanha ao Parlamento, Basem Kamel, membro do conselho jovem que ajudou a impulsionar o fim do governo do ex-presidente Hosni Mubarak, lutou com seu discurso padrão que pedia um governo civil.

"Não queremos voltar ao Islã da Idade Média", disse Kamel, com sua cabeça raspada e terno branco fazendo com que ele chamasse a atenção mo monótono Sharabiyya, um bairro pobre do norte do Cairo, seu distrito de campanha. "Não quero o Islã que prega que eu estou certo e todos os outros são infiéis".

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Basem Kamel, candidato nas eleições egípcias, faz evento de campanha em distrito do Cairo (04/11)

A campanha oficial para a primeira eleição parlamentar do Egito desde que Mubarak foi derrubado em fevereiro começou lentamente, coincidindo com uma pausa de uma semana que marca o principal feriado muçulmano.

Mas as questões da campanha são conhecidas há meses, sendo a principal delas sobre como diversos novos partidos liberais irão desafiar o rolo compressor bem organizado da Irmandade Muçulmana, bem como restos da máquina política do antigo governo. A pergunta que faz sombra à eleição é se um Parlamento robusto o suficiente vai emergir deste processo para cumprir uma meta distante da revolução: desafiar a permanência dos militares no poder, que já dura 60 anos.

Considerando que os jovens organizadores que convocaram os manifestantes a tomar a Praça Tahrir conseguiram algo quase milagroso – perseguir e derrubar em 18 dias um presidente que estava no cargo há quase 30 anos – eles deveriam desempenhar um papel preponderante no que acontecerá a seguir.

No entanto, a realidade tem se mostrado diferente. Inicialmente, o Conselho Supremo das Forças Armadas responsável pelo governo interino pareceu interessado em consultar a coalizão da juventude. Mas os jovens abandonaram as reuniões depois de uma repressão violenta contra manifestantes em abril.

"Decidimos que era melhor tentar nos estabelecer na rua do que falar com o conselho militar", disse Shady el-Ghazaly Harb, um cirurgião de 32 anos de idade que criou seu próprio partido liberal, o Partido da Consciência, e optou por não participar desta eleição.

"Os militares nos queriam para decoração", disse ele. "Eles nos usaram como fonte de informação, um indicador do sentimento que prevalecia nas ruas, de como os jovens iriam reagir – mas não foi uma experiência interativa."

Embora ainda se encontrem, os cerca de 17 membros do núcleo da Coalizão da Juventude pela Revolução se fragmentaram em facções muito parecidas com o espectro político egípcio. Alguns, incluindo os jovens membros da Irmandade Muçulmana, começaram seus próprios grupos. Alguns foram absorvidos por grupos mais antigos conforme partidos políticos mumificados lutavam a seus pés. Alguns prosperaram como estrelas da mídia.

"Eles todos eram mendigos antes da revolução", disse Mohamed Salah, um colunista do jornal pan-árabe Al-Hayat, resumindo uma percepção comum no país. "Agora, metade deles são apresentadores de programas de tevê e a outra metade aparece em seus shows como convidados pagos enquanto o resto da população não consegue encontrar dinheiro para comprar comida."

Cerca de seis dos membros originais esperam traduzir o seu papel em uma cadeira parlamentar na eleição de três etapas que começa em 28 de novembro e acontece até 10 de janeiro. Mas eles enfrentam um ceticismo evidente.

"Não nos importamos com eles, que são como Mubarak: tudo que querem é dinheiro", reclamou com desprezo uma mulher sob véus pesados, pouco antes de Kamel subir ao palco para falar.

O comício aconteceu sob uma tenda de lona aberta espremida entre um prédio de apartamentos caindo aos pedaços e um muro alto que protege a ferrovia. Sua principal preocupação era a sensação de instabilidade que permeia o país: "Nós só queremos que as coisas voltem a ser como eram."

Kamel está concorrendo pelo Partido Social Democrata egípcio, um dos grupos liberais mais fortes com sua mistura de muçulmanos e cristãos, que defende seriamente que o Egito pode copiar a Suécia. O comício apostou na nostalgia por dias melhores por não começar com o hino nacional atual, mas uma versão mais romântica da década de 1920 com versos como "Eu sou um egípcio construído por aqueles que construíram as eternas pirâmides."

Kamel observou em uma entrevista que ele não poderia concorrer como um revolucionário. O arquiteto de 42 anos de idade apostou na juventude, já que Mubarak tinha 82 anos e as pessoas com metade da sua idade podem ser consideradas jovens.

"Eles sabem que de alguma forma fomos pioneiros, mas agora não é o momento de dizer isso", explicou. "Tenho que falar sobre a nova Constituição, sobre educação, saúde e meio ambiente."

Ainda assim, seu discurso fez referência a dias mais tranquilos. "Na praça éramos a revolução e ninguém nos perguntava se orávamos ou se éramos fiéis", disse Kamel. "O regime atual quer nos dividir para que sejamos fracos e possamos ser facilmente dominados."

Ele repetia a necessidade de um estado "civil", ou "Madani" em árabe, porque os religiosos retratam a palavra "Almani" ou "secular" como algo ocidental e imoral.

Após o comício, potenciais eleitores disseram que Kamel pareceu mais sincero do que elétrico e afirmaram que gostariam que ele tivesse oferecido propostas específicas para resolver os complicados problemas sociais e econômicos desta nação.

A matemática eleitoral básica do Egito funciona assim: entre cerca de 50 milhões de eleitores, entre 20% a 30% devem ser partidários comprometidos com a Irmandade Muçulmana ou outras facções islâmicas e certamente irão votar. Menos de 20%, a elite e a minoria cristã, devem se comprometer com o governo civil e também estão ansiosos para votar.

Assim, o desafio é conquistar os outros 50% que estão indecisos – além de convencê-los a votar. Tentativas para formar chapas unificadas não funcionaram, com 14 organizações liberais e oito partidos islâmicos promovendo candidatos. Destacar-se entre mais de seis mil nomes para 498 cadeiras é difícil. "A única diferença entre os liberais é que um tem cabelo preto encaracolado e o outro é careca", brincou Salah.

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Egípcios participam de evento do Partido Social Democrata no Cairo (04/11)

Apesar da fragmentação dos partidos islamitas em facções, os analistas estimam que a Irmandade Muçulmana ainda comande cerca de 70% ou mais dos votos islâmicos. Dada a sua penetração generalizada e organização em cada bairro através de clínicas e serviços sociais, o grupo provavelmente vai se sair bem, principalmente se a participação for baixa. Em Túnis, no mês passado, a principal facção islâmica conseguiu mais de 40% dos votos, enquanto o grupo liberal mais forte obteve 30%.

O esforço para convencer os eleitores de que os riscos são altos tem sido prejudicado pelo fato de que os poderes deste próximo Parlamento permanecem cada vez mais vagos, já que o conselho militar disse que planeja preservar a autoridade final por pelo menos mais um ano.

Quase todo o espectro político ficou indignado novamente na semana passada por propostas feitas pelo governo interino destinadas a orientar o processo de elaboração de uma nova Constituição. Era esperado que o novo Parlamento escolhesse o próximo gabinete e um conselho de 100 membros para elaborar uma nova Constituição, abrindo caminho para uma eleição presidencial em um ano.

Mas a decisão do conselho militar parece determinada a diluir isso. Primeiro, nada o obriga a escolher os próximos ministros dentre os vencedores. Em segundo lugar, as diretrizes constitucionais propostas sugerem que os generais vão escolher 80 membros do conselho, deixando apenas 20 do novo Parlamento e colocando os militares fora da supervisão civil.

A Irmandade Muçulmana reclamou, acusando os militares de tentar impedir o esperado forte papel da organização na formação da próxima Constituição.

Em seus ataques ao conselho militar, tanto a Irmandade quanto os candidatos liberais como Kamel tentam criar uma linha entre os generais no poder e as próprias Forças Armadas, que continuam a ser amplamente populares como o último pilar do Egito estável.

"O regime ainda não mudou, a revolução ainda não está completa", afirmou Kamel em seu discurso. "Todo egípcio tem o seu papel agora. Pode ser pequeno ou grande, mas mesmo assim é um papel e cada egípcio deve assumi-lo."

Por Neil Macfarquhar

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