Centro de compras é mostra de determinação da Faixa de Gaza

Novo shopping tem valor simbólico para Hamas e para investidores locais, mas atraiu críticas dos entusiastas defensores de Israel

The New York Times |

Perfumes de Hugo Boss, Dunhill e Givenchy nas prateleiras da loja de cosméticos. Uma das duas lojas de roupas para mulheres possui um manequim na janela vestido com uma camiseta rosa e jeans de cintura baixa. No freezer do supermercado há sorvete Nestlé e, nas suas prateleiras, salgadinhos que as classes mais altas da sociedades consumem com avidez.

O território palestino da Faixa Gaza, famoso por sua miséria, tem um shopping center. Ele foi inaugurado há um mês sob considerável fanfarra, com câmeras de televisão acompanhando membros do governo palestino do Hamas enquanto caminhavam orgulhosamente pelos corredores cheios de lojas de produtos importados.

AP
Luzem se refletem em véus de palestinas enquanto caminham em shopping recém-aberto na Cidade de Gaza, no território palestino (17/07/2010)
Para o Hamas, e para o grupo de investidores por trás do empreendimento que tem elos com o grupo islâmico, o shopping de dois andares, com ar-condicionado central e estacionamento no subsolo, tem um valor profundamente simbólico. Esse estabelecimento é a prova de que, apesar do esforço de Israel e do Egito para isolar essa faixa litoral palestina, eles podem se desenvolver e prosperar. Que a mensagem se espalhe: Não vamos ser derrotados.

Mas símbolos são um negócio arriscado, e os defensores mais ferozes de Israel têm usado o shopping para seus próprios fins. Empunhando fotografias das novas lojas, eles perguntam: Será essa a terra de privação de que ouvimos falar? Como eles construíram um shopping center se não é permitida a entrada em Gaza de materiais de construção? Quão ruim pode ser um lugar onde acaba de ser inaugurado um shopping de luxo? Aquelas flotilhas de ajuda humanitária estavam navegando para o lugar errado, dizem.

Os proprietários do prédio de dez lojas escolheram o nome Gaza Mall na esperança de evocar os grandes centros de consumo do mundo desenvolvido. Tais lugares são enormes estabelecimentos com diversas lojas e salas de cinema, seus pisos interligados por escadas rolantes, rodeados por altos chafarizes, a variedade de opções em sua praça de alimentação igualada apenas pela mistura sedutora de grandes lojas e boutiques.

O Gaza Mall pode tentar evocar tais lugares, mas não é um deles. Com 1 mil metros quadrados, é do tamanho de um lote residencial no subúrbio dos EUA e se encaixa na sua totalidade em um canto qualquer da loja de departamentos JC Penney. As escadas não se movem. A música ambiente é islâmica. Não existem aparelhos eletrônicos à venda, não há cinemas e a opção alimentar se resume a um restaurante. Seu primeiro andar é quase totalmente ocupado por um supermercado, uma raridade em Gaza. “Somos do tamanho de uma loja americana de porte médio”, disse Salahadin Abu Abdu, gerente do shopping, timidamente.

Para os comentaristas que nunca estiveram aqui, alguns pontos precisam ser esclarecidos. Para aqueles que sustentam que o shopping é a prova de que Gaza tem materiais de construção: o edifício tem 20 anos. Para aqueles que o descrevem como “gigantesco” e “futurista”: na verdade ele é pequeno e um pouco antiquado. Para Danny Ayalon, vice-ministro de Assuntos Exteriores de Israel, que escreveu que o shopping “não estaria fora do lugar, em qualquer capital da Europa”: sim, ele estaria.

Mas o principal argumento de muitos desses críticos – de que a pobreza de Gaza é frequentemente mal interpretada, intencional ou inadvertidamente – está correto. O desespero local não é como o do Haiti ou da Somália. É uma miséria de dependência, imobilidade e falta de esperança, não de uma necessidade opressiva. A flotilha não se tratava de ajuda material , mas da liberdade dos palestinos e do desafio ao poder de Israel.

“Gaza não é pobre como as pessoas de fora pensam”, disse Nida Wishah, estudante de tecnologia da informação de 22 anos que estava no shopping em uma tarde recente. “Você não pode comparar a nossa pobreza com a da África.”

Modesto que seja, o shopping é um complexo agradável e alegre, especialmente para Gaza. Dezenas de milhares de pessoas passaram por ele, aproveitando o ar-condicionado, as vitrines e a chegada recente de muitas marcas de Israel. O governo israelense manteve os produtos fora de Gaza por três anos para pressionar o Hamas, os governantes islâmicos locais que rejeitam sua existência.

Mas, alguns meses atrás, quando uma flotilha de seis barcos desafiou o bloqueio , comandos israelenses a pararam e, diante da resistência, mataram nove pessoas a bordo de um dos navios, causando indignação internacional e uma mudança na política .

Nas últimas semanas, muitos bens israelenses estavam disponíveis , mas a economia continua em dificuldades, e apenas uma fina fatia da população pode se dar ao luxo de comprar os itens mais extravagantes. “Isto é para a elite”, disse Abu Abdu. “O dinheiro que você vê aqui pertence a poucas pessoas.”

Ainda assim, é um pouco desconcertante ver no novo supermercado grandes baldes de humus e frascos de mel israelenses. O humus está disponível em todos os cantos de Gaza, que também é famosa por seu mel. Um gerente do supermercado explica: os produtos israelenses contêm conservantes e duram mais nos frequentes blecautes de energia elétrica. Ele falou diante de um comercial de papelão da batata Pringles.

Quanto aos moradores de Gaza, mesmo aqueles que podem se dar ao luxo de comprar aqui têm um certo orgulho disso. “Aqui parece civilizado”, disse Othman Turkman, de 26 anos, que trabalha na resolução de conflitos e estava fazendo compras. “Não é para todos, é claro. Muitos em Gaza são pobres e não podem desfrutar do shopping. Mas eles têm mantido os preços no mesmo valor que em outras lojas, o que é bom.”

Inas Al-Hayak, que trabalhava atrás do balcão de uma loja de roupas femininas lendo o Alcorão como os muçulmanos fazem durante o mês sagrado do Ramadã , disse que considerava o shopping “uma honra para Gaza”. Vestida com a modéstia muçulmana em uma loja de produtos mais ousados, ela acrescentou: “Com a abertura do shopping, rompemos o cerco. E vamos continuar desafiando Israel de outras maneiras. Somos um povo forte.”

* Por Ethan Bronner

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