Centenas são abduzidos em retaliação a tumultos em Xinjiang

URUMQI - Os dois meninos foram abduzidos enquanto comiam pão na calçada de uma padaria local. O motorista de libré saiu para comprar uma água e não voltou para casa.

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Homem segura foto de seus dois filhos detidos por autoridades chinesas

Tuer Shunjal, um vendedor de vegetais, foi capturado com quatro de seus vizinhos quando cometeu o erro de olhar pela janela de um banheiro no corredor quando a polícia passou pelo edifício no qual estava. "Eles jogaram uma camisa sobre sua cabeça e o conduziram sem dizer uma palavra", disse a esposa dele, Resuangul.

Nas duas semanas desde que revoltas étnicas atingiram Urumqi, capital regional de Xinjiang, matando mais de 190 pessoas e ferindo outras 1.700, forças de segurança têm detido centenas das pessoas, muitas delas homens uigures a quem as autoridades culpam pela matança.

O governo chinês prometeu castigo severo a quem teve participação na violência, que estourou no dia cinco de julho, depois de um comício de uigures irritados com o assassinato de dois trabalhadores de uma fábrica de uma província distante. Primeiro vieram as multidões de jovens uigures, então as turbas de etnia han em busca de vingança.

"Aqueles que cometeram crimes cruéis serão executados", disse Li Zhi,  líder do Partido Comunista em Urumqi, no dia 8 de julho.

A promessa, divulgada repetidamente, gerou medo em Xiangyang Po, um bairro pobre da cidade de maioria uigure, muçulmanos de língua turca que têm uma relação difícil com a maioria de etnia han. Os uigures são o maior grupo étnico de Xinjiang, mas em Urumqi, os han compõem mais que 70% dos 2,3 milhões de moradores.

Foi aqui nas ruas de Xiangyang Po, em meio a moradias densamente populadas e barracas que vendem macarrão grosso e churrasquinho de cordeiro, que muitos chineses han foram mortos. Conforme jovens homens uigures pilhavam pelas ruas, os moradores se fecharam dentro de suas casas ou lojas, contam eles. Outros dizem ter dado refúgio a vizinhos da etnia han.

"Foi horrível para todo mundo", disse Leitipa Yusufajan, 40, que passou a noite escondida na parte de trás de seu supermercado com sua filha de 10 anos. "Os manifestantes não eram daqui. Nosso povo não se comportariam de maneira tão brutal."

Mas para oficiais de segurança, o bairro há muito tempo abriga aqueles com tendência à violência em Xinjiang, uma região noroeste da China. No ano passado, durante a invasão a um apartamento, as autoridades atiraram fatalmente em dois homens que disseram fazer parte de um grupo terrorista responsável pela fabricação de explosivos caseiros. Na última segunda-feira, policiais mataram dois homens e feriram um terceiro depois que os homens tentaram atacar agentes da lei em serviço.

"Aqui não é um lugar seguro", disse Mao Daqing, chefe de polícia local.

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Palachi, esquerda, cujo marido foi levado pela polícia por suspeita
de envolvimento nos tumultos, apesar de ela jurar sua inocência 

Os moradores locais discordam, dizendo que o bairro é composto por pessoas pobres mas obedientes à lei, na maioria trabalhadores rurais que vieram a Urumqi em busca de uma fatia da prosperidade da cidade. Entrevistas com dezenas de pessoas revelam condenação veemente aos manifestantes. "Essas pessoas não são nada além de lixo humano", um homem disse, cuspindo no chão.

Ainda assim, a resposta policial tem sido indiscriminada, eles disseram. Nurmen Met, 54, disse que seus dois filhos, 19 e 21, foram detidos quando as autoridades entraram no balneário público pertencente a sua família. "Eles nem estavam fora no dia dos tumultos", ele disse, segurando fotografias dos filhos. "Eles são bons meninos, honestos."

Muitas pessoas disseram temer que seus familiares sejam engolidos por um sistema penal que é ampla e notoriamente turvo. No ano passado, nos meses que antecederam os Jogos Olímpicos de Pequim, as autoridades prenderam e julgaram mais de 1,100 pessoas em Xinjiang em uma campanha contra o que eles chamaram de "extremistas religiosos separatistas" . Pouco depois das apreensões, Wang Lequan, secretário do Partido Comunista da região, descreveu as ações como uma uma luta de "vida e morte".

Grupos uigures exilados e defensores dos direitos humanos dizem que o governo às vezes usa tais acusações para silenciar aqueles que pedem maior liberdade religiosa e política. Os julgamentos, segundo eles, são geralmente superficiais. "A justiça é muito dura em Xinjiang", disse James Seymour, pesquisador da Universidade Chinesa de Hong Kong.


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