Censo dos EUA usa telenovela para atingir hispânicos

MIAMI ¿ Perla Beltran, uma jovem de uma área pobre de Nova York, sofreu uma grande perda recentemente ¿ seu marido, um ladrão, foi assassinado e ela tem de conviver com sua exclusão social. Mas a garota acha que encontrou uma solução: ser recruta do Censo dos EUA.

The New York Times |

NYT

Michelle Vargas (direita) durante gravação de "Mas Sabe el Diablo",
novela em que interpreta personagem Perla

Beltran, personagem da popular novela de língua espanhola Mas Sabe El Diablo, O Diabo Sabe Mais, representa apenas um dos elementos dos esforços do governo, que já dura um ano, para conquistar a confiança dos hispânicos, grupo étnico que historicamente se manteve cauteloso quanto ao processo decenal de recenseamento.

Além dos típicos anúncios e propagandas do serviço público, o Censo está ajudando a compor a impressionante história de vida da personagem da telenovela Perla Beltran, em meio a escândalos sexuais, doenças terríveis e vilãos inverossímeis, comuns em narrativas do gênero. Essa deve ser a primeira trama de novela a agradar o governo dos EUA.

É o veículo perfeito para uma estratégia de posicionamento de produto, disse Patricia Gaitan, consultora de comunicação da agência, enquanto assistia a gravação na semana passada. Ela rapidamente deu um novo nome à técnica: estratégia de posicionamento de pessoa.

A colaboração entre o Censo e os produtores do Diablo da rede de televisão Telemundo também é considerada por alguns como uma intrusão do governo. Apesar de um membro da equipe da agência ter se reunido com o escritor de Diablo e fornecido suporte para a produção, o presidente da rede, Don Browne, ter mantido total independência de criatividade.

Muitos americanos não estão familiarizados com telenovelas como Diablo, e a maioria dos esforços para introduzi-la para o público de língua inglesa foi um fracasso. Mas entre os telespectadores de língua espanhola, os dramas, que passam cinco vezes por semana, são muito populares, o que o torna uma excelente forma de encorajar os hispânicos a entrarem para o censo do ano que vem.

Estamos evangelizando, disse Browne a Gaitan e outros visitantes, entre as tomadas no estúdio, na semana passada. Com sorte, conseguiremos passar a mensagem para todos sem ficar repetindo na cabeça do público.

A mensagem é a mesma que funcionários do Censo vêm tentando enfatizar em quase todos os turnos: não tenha medo de se incluir no censo.

No censo do próximo ano, espera-se que haja um aumento substancial na população hispânica, que já é o grupo que mais cresce nos EUA. O governo estimou que, em maio, 46,9 milhões de hispânicos viviam nos EUA no ano passado, mais do que os 33 milhões registrados no último censo, em 2000. Os números do censo são analisados para repartir os distritos do Congresso e distribuir cerca de US$ 400 bilhões em dinheiro federal a cada ano.

Mas o censo é um assunto delicado para as minorias, inclusive os hispânicos. As barreiras lingüísticas e o medo de preencher os formulários para o governo limitavam a participação em contagens anteriores.

Funcionários do censo afirmam que os hispânicos tiveram uma contagem menor do que a real em cerca de 0,7%, em 2000, ou seja, quase 250 mil pessoas. Outros estudos científicos mostram que aproximadamente 1,3 milhões não foram contados.

Com o enredo do Censo, estamos tentando lutar contra o medo, disse Aurélio Valcarcel, produtor-executivo da Telemundo Studios.

A campanha não é apenas pela participação cívica. A contagem do próximo ano provavelmente significará mais receita de publicidade para a Telemundo, uma unidade da NBC Universal, e com o tempo para outras redes de língua espanhola. O sistema Nielsen Ratings de medição da audiência doméstica está diretamente ligada aos resultados do censo.

É muito bom para o nosso negócio, disse Browne em uma entrevista, dado que os números do censo devem colaborar para justificar o crescimento da audiência.

Por causa dos eternos debates sobre imigração, algumas pessoas têm medo de dar o nome, endereço e informações sobre sua família ao governo. Em alguns casos eles tentam se esconder, disse Stacy Gimbel, porta-voz do Censo, que observava a gravação. Estamos tentando convencê-los de que a informação dada está em segurança.

No próximo ano, pela primeira vez, cerca de 13 milhões de famílias receberão questionários do censo em inglês e espanhol. Mas outros assuntos compõem o desafio da agência em tentar conseguir uma contagem abrangente.

Alguns defensores advertem que a recessão forçou mais famílias a dividir uma única residência, muitas vezes violando o código de habitação ou arrendamento. Algumas famílias podem ficar relutantes em fornecer informação, disse Arturo Vargas, diretor-executivo da National Association of Latino Elected and Appointed Officials.

Alguns líderes religiosos hispânicos estão pedindo a suas congregações para boicotar a contagem, que começará na próxima primavera do hemisfério norte, como forma de forçar o Congresso a atuar na reforma da imigração. A maioria dos grupos de apoio aos hispânicos se opõe a essa medida.

A Telemundo está tomando uma posição a favor do censo, apesar de dizer que também mostra outros pontos de vista em seus programas de notícias. Vargas disse que a Telemundo e a Univision, rede de língua espanhol dominante no país que está conduzindo a campanha de serviço público por conta própria, estão sendo apenas boas cidadãs corporativas.


Por BRIAN STELTER



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