Cenas de Teerã: usar o Google? Não aqui

TEERÃ - Antes das eleições e do pandemônio que se seguiu, alguns jornalistas pararam para almoçar em uma lanchonete no centro de Teerã, um lugar enfeitado com imagens de Shakespeare e Samuel Beckett onde geralmente haveria a inflexível face do Aiatolá Khomeini e cuja música de fundo era o jazz americano.

The New York Times |

Que disco é esse?, pergunta um novato ao dono do local. Ele mostra a caixa do CD do ótimo John Lee Hooker. Verdade? O cantor conhecido como Boogie Man tocava jazz? "Hooooker!", ele insistiu.

Bem, nunca se sabe. Vale a pena conferir. Mas de volta ao hotel, uma busca no Google resultou em um triângulo amarelo com um ponto de exclamação e o alerta: O acesso a este site é proibido.

O quê? Ah, claro. "Hooker" (que em inglês também significa prostituta).
Bem-vindo à República Islâmica, onde nós o protegemos de você mesmo. Você tem muito que aprender. Escolha uma teoria
Os iranianos são geralmente unidos na concepção de que a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad para outros quatro anos de mandato é um milagre.

Alguns acreditam nisso de forma literal por causa das palavras do líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, quando ele disse que "a miraculosa mão de Deus" agiu.

Outros acreditam nisso simplesmente porque não veem explicação terrena para o homem que presidiu a piora da inflação, do desemprego e do isolamento do país tenha conseguido mais de 7 milhões de votos a mais do que em sua primeira eleição.

Iranianos cosmopolitas têm muitas teorias para explicar porque muitos de seus compatriotas aguentam (e gostam) do paternalismo de sua quase teocracia.

De um engenheiro elétrico: "Os iranianos são monarquistas". A Revolução Islâmica de 1979 não derrubou o xá, este homem afirma. Ela o substituiu pelo líder supremo (um aiatolá cuja palavra é quase literalmente a lei e que é raramente questionado em público). Mesmo os manifestantes que tomam as ruas aos gritos de "Morte ao ditado" não mencionam o homem que é o clérigo no poder há 20 anos, Khamenei.

De uma escritora: "Nós somos como crianças sexualmente molestadas". Violadas por aqueles que deveriam protegê-las, ela disse, elas acham que o abuso é sua culpa e que mereceram aquilo. Elas não falam sobre isso, porque têm vergonha.

Um estrangeiro pode ser tentado a usar uma teoria mais mundana e dizer que os iranianos usam as ruas para expressar sua liberdade.
Os iranianos dirigem rápido e com proximidade. Eles ultrapassam faróis, desafiam uns aos outros e jogam motoqueiros para as calçadas, além de fazer uso extremo da marcha ré.

Dois amigos que viveram nos Estados Unidos conversavam recentemente. "Eu sinto falta da liberdade", disse um deles. "Sim", respondeu o outro, "mas nos Estados Unidos não se pode dar ré na autoestrada".

Deste ponto de vista, será que é relevante que Ahmadinejad ("Dr. Ahmadinejad", como é chamado por seus apoiadores) tenha Ph.D. em engenharia de tráfego?

Culpe o mensageiro

Teorias da conspiração parecem florescer em governos autoritários sigilosos, talvez porque tais sistemas são essencialmente conspiradores por si mesmos. No Irã, isso é verdade para o público geral - muitas pessoas levaram suas próprias canetas às urnas por medo que aquelas oferecidas pelo governo contivessem tinta que desapareceria.
Mas isso também é verdade para seus governantes.

A lista de Ahmadinejad dos países que estão atrás do Irã inclui a maior parte da ordem pós-Segunda Guerra Mundial, mas no momento ele se concentra na mídia ocidental, sem cuja interferência, ele sugere, o povo iraniano estaria felizmente unido e aceitando sua vitória. Nenhum problema. No domingo, o vice-comandante de polícia, Ahmadreza Radan, deu à mídia local uma atualização sobre as prisões de manifestantes e garantiu ao público que "nos interrogatórios, planejamos descobrir um elo entre os rebeldes e a mídia estrangeira".
A esta altura, mensagens de texto, websites, telefones celulares, serviços de rede social e outras possíveis formas de comunicação que trazem a agitação externa eram de difícil acesso por causa da intervenção governamental.

Na terça-feira, o habilmente intitulado Ministério da Orientação anunciou que credenciais de trabalho de jornalistas não residentes do país haviam sido revogadas e que as autoridades "não seriam responsáveis" por qualquer coisa que aconteça aos repórteres que continuem a cobrir a resistência diária. Os vistos expiram rapidamente e não são renovados.

Muito pior em outros lugares

Para se ter uma ideia do que pode acontecer com os descontentes do Irã quando não houver ninguém por perto para reportar os fatos, considere a noite de segunda-feira em Isfahan, a terceira maior cidade do Irã que fica a cinco horas da câmera de TV estrangeira mais próxima.

Como em Teerã, grande parte da cidade (as praças e boulevards) foi tomada por fumaça e chamas, gás lacrimejante, pedras e vidros estilhaçados, além de inúmeras cabeças e ensanguentadas.
O levante parecia mais orgânico do que organizado - grupos de dezenas se uniam a outros de centenas, indo parar diante diante da tropa de choque, cantando "Morte ao ditador!"

Mas a resposta policial foi muito pior em Isfahan. A certa altura, uma caminhonete branca que vinha por trás dos manifestantes atropelou alguns deles antes de buscar proteção atrás da barreira da polícia.
Grupos de Basiji, vigilantes à paisana autorizados sob motos e portando cacetetes, saíram pela cidade causando medo muito além da região do confronto. Muitos usavam lenços verdes da oposição - possivelmente como camuflagem ou para confundir os manifestantes.

A certa altura algumas pessoas que observavam a situação (inclusive um jornalista com o dom para estar no lugar errado) foram encurralados na antiga ponte Si-o-Seh e tiveram que optar entre pancadas na cabeça ou a queda no leito do rio Zayandeh seco 20 metros abaixo.
No último momento, os brutamontes foram distraídos por outras presas.
Às 10h, como em Teerã, uma forma de protesto mais lírica tomou conta da cidade: manifestantes cantavam dos telhados de suas casas, "Deus é grande! Morte ao ditador!" Em algumas partes de Isfahan, segundo os moradores, vigilantes à paisana foram de casa em casa, quebrando janelas e, muitas vezes, jogando gás lacrimejante nos lares...



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