Causas de mortes em tumulto no Camboja continuam sem resposta

Cambojanos pedem explicação sobre tragédia com centenas de mortos, vista como a pior desde a era do Khmer Vermelho

The New York Times |

Dias depois de centenas de pessoas morrerem em uma multidão abarrotada na última noite do tradicional Festival de Água, no Camboja, tanto as causas quanto o número de mortos ainda permanecem incertos.

A maioria das vítimas ficou presa em uma pequena ponte. Em vez de serem pisoteados, muitos foram sufocados ou esmagados até a morte por uma multidão densa que não se mexiam e qual algumas pessoas ficaram presas por horas.

Vários oficiais informaram números diferentes do total de mortos, que podem não incluir as vítimas que morreram afogadas ou foram retiradas do local. Na quinta-feira, autoridades revisaram o número de mortos de 456 para 347, afirmando também que a tragédia deixou 395 feridos. 

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Em Phnom Penh, orações por vítimas de acidente em festival (25/11/2010)
Conforme o pesar e o choque se transformam em pedidos de explicação, as perguntas sobre a causa do tumulto, sobre a resposta da polícia e sobre a capacidade da cidade em lidar com um fluxo de até 3 milhões de peregrinos continuam a aumentar.

Uma investigação preliminar do governo relatou que a maioria das pessoas presentes no festival, de origem rural, entrou em pânico quando a ponte suspensa começou a balançar um pouco sob o peso da multidão. Isso confirma um relatório de um investigador da polícia militar, Sawannara Chendamirie, que disse na manhã após o desastre que os sobreviventes afirmaram ter ouvido de outros que a ponte estava caindo.

Também há dúvidas sobre algumas pessoas terem sido eletrocutadas, possivelmente por fiações elétricas usadas na ornamentação da ponte. Relatórios sobre isso começaram a ser elaborados logo após o desastre, com alguns dizendo que a polícia disparou mangueiras de água contra a multidão, o que pode ter contribuído para o problema.

Médicos do principal hospital da cidade, o Calmette, não descartaram a possibilidade mas disseram não ter visto nenhum sinal de choque elétrico, tanto entre feridos quanto entre mortos. Eles disseram, no entanto, que a maioria dos feridos sofreu com o aperto da multidão. Alguns pacientes do hospital disseram ter sido incapazes de respirar e acabaram desmaiando.

A polícia foi criticada por sua falha em manejar a multidão e por uma resposta inadequada e incompetente ao desastre. Um oficial disse que apenas metade do número reportado oficialmente de policiais foi realmente utilizada. Sobreviventes gravemente feridos relataram ser despejados em veículos juntamente com os mortos.

Ajuda a parentes

O governo conseguiu mobilizar rapidamente a ajuda aos parentes das vítimas, muitos dos quais viajaram de províncias distantes para reivindicar os mortos. Tabelas foram criadas perto de um necrotério improvisado para confirmar as identidades. Caminhões militares ofereceram transporte do caixão e dos familiares para casa. O necrotério ficou quase vazio em um dia, embora algumas pessoas vagassem pelo hospital, segurando fotos de parentes desaparecidos.

A Comissão Asiática de Direitos Humanos, sediada em Hong Kong, publicou um relatório que documentou perguntas e críticas. "Embora a causa exata do tumulto ainda não esteja clara, com relatos contraditórios indicando que ele pode ter sido provocado por uma multidão descontrolada ou por má construção da ponte que leva à ilha de Koh Pitch, o fracasso do Estado em controlar a multidão e limitar os danos do tumulto é claro", disse o relatório.

O documento sublinhou ainda que Phnom Penh não estava preparada para uma catástrofe de grande escala. "As respostas dadas por policiais e militares não ajudaram e podem até mesmo ter contribuído para o tumulto, enquanto os hospitais ficaram superlotados. Equipes de emergência e pessoal médico recorreram ao empilhamento de corpos, cobrindo-os com esteiras ou folhas".

*Por Seth Mydans

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