Casos de abuso deixam britânicos horrorizados e abalam o serviço social

LONDON ¿ Em um caso, um executivo de Sheffield desempregado e com 56 anos foi condenado por espancar e estuprar várias vezes suas duas filhas durante as últimas três décadas, tendo com elas nove filhos. No outro, uma mulher de Londres, de 27 anos, e duas outras pessoas foram condenadas por humilhar seu filho de 17 meses e finalmente espancá-lo até a morte.

The New York Times |

Os dois casos, que vieram a público nas últimas semanas, deixaram a opinião pública britânica horrorizada e levantou questões perturbadoras sobre a efetividade do vasto sistema de serviço social britânico.

Ambas as famílias tiveram vários contatos com o grupo de pessoas do serviço social, médicos, funcionários de hospitais e oficiais da polícia, e ambas as famílias continuaram com o problema, mesmo com as evidências de maus tratos.

Por que, as pessoas se perguntam, eles falharam em intervir quando os sinais de aviso pareciam tão óbvios?

As pessoas irão querer saber como tal abuso aconteceu por tanto tempo sem que as autoridades e o amplo serviço público descobrisse e tomasse uma atitude, disse o primeiro-ministro Gordon Brown no Parlamento, nesta semana, falando sobre o caso no qual a mulher foi abusada. Se há uma mudança que precisa ser feita no sistema e se ele falhou, iremos mudá-lo.

Sistema ineficiente

Ao mesmo tempo, os casos também mostraram as dificuldades em um sistema que, segundo críticos, é cruelmente insuficiente e burocrático demais. Falando sobre o caso do bebê, Ian Johnston, executivo-chefe da British Association of Social Workers (Associação de Servidores Sociais Britânicos), avisou que o governo não deveria procurar por bodes expiatórios.

Ao invés disso, disse, a investigação deveria focar nas questões cruciais envolta da grande reviravolta na equipe de proteção de serviço social da criança, excesso de casos arquivados, confiança demais nos funcionários da agência, ausência de supervisão de pessoas inexperientes e temporárias e uma obsessão sistemática quanto à entrada de informações na base de dados custando o tempo que deveria ser gastado com crianças em risco.

As leis britânicas estabelecem restrições severas na liberação de relatórios detalhados em casos judiciais de família. Como resultado, fica muito mais difícil conseguir tais detalhes do que em casos como o de Josef Fritzl, austríaco que manteve sua filha trancada em um porão de sua casa por 24 anos, engravidando-a de sete crianças.

Mas o testemunho em ambos os julgamentos tem revelado não apenas um abuso horrível, mas um aparente colapso na segurança das redes que deveriam proteger as crianças vulneráveis.

Tortura e morte

O público primeiro ouviu sobre o caso do bebê de 17 meses, identificado pelo tribunal como P., quando sua mãe, o namorado dela e um inquilino da casa onde moravam, em Haringey, no norte de Londres, foram ao tribunal neste mês por seu assassinato.

Tem-se que o bebê P. teve contato com servidores sociais, médicos, policiais e agências do bem-estar da criança ao menos 60 vezes em um período de oito meses nos quais ele sofreu ao menos 50 ferimentos. Ele foi posicionado em um registro no qual seria monitorado como um caso de alto risco.

A mãe do bebê detida e questionada muitas vezes pela polícia depois que os médicos descobriram ferimentos, inchações e arranhões suspeitos em seu corpo. Em uma visita, ela enganou uma pessoa do serviço-social encobrindo os ferimentos da criança com chocolate.

Em certo ponto, uma servidora social recomendou que ele fosse colocado para adoção. Mas a lei britânica da família defende que todo esforço deve ser feito para que a criança permaneça com amigos ou parentes, e o bebê P. foi mandado para uma família conhecida por cinco semanas, para depois então retornar a sua casa.

Ele foi encontrado morto em seu berço encharcado de sangue em agosto de 2007. Um patologista que o examinou posteriormente descobriu que seu dorso e oito de suas costelas estavam quebradas; que ele havia engolido um dente após ser espancado violentamente na cabeça e que algumas de suas unhas estavam faltando. Ele disse que nunca viu tantos ferimentos feitos a uma criança.

Abuso familiar

O outro caso veio à tona quando duas mulheres reclamaram formalmente em junho, após 30 anos de abuso. Elas disseram que o pai de ambas começou a espancá-las, estuprá-las e ameaçá-las quanto eram crianças.

Abandonadas pela mãe, que também havia sido abusada, elas engravidaram várias vezes, 19 gravidezes no total. Algumas vezes elas abortavam espontaneamente ou não, após descobrirem anormalidades nos exames pré-natais. Dois dos bebês morreram no parto.

Por SARAH LYALL

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