Caso complexo coloca médico no rastro da loucura

Na década de 1980, neurologista de Medelim investigava doença conhecida como "La Bobera"

The New York Times |

Em 1982, o Dr. Francisco Lopera, neurologista de Medelim, ficou intrigado quando um paciente de 47 anos começou a perder a memória - como havia acontecido com seu pai, avô e sete outros parentes antes dele.

Outros casos semelhantes apareceram na região. Lopera pediu que um paciente de 45 anos desenhasse novamente uma imagem que havia feito anos antes; os resultados deformados já mostravam significativos danos neurológicos.

As famílias dos pacientes diziam que esta "loucura", conhecida como La Bobera, tinha origens superticiosas - magia, uma árvore amaldiçoada, uma estátua espanhola, um sacerdote irritado por ter sido roubado.

Lopera queria ajudar. Seu avô teve demência nos últimos anos de sua vida e veio da mesma violenta região da maioria dos pacientes, Antioquia.

Lopera passou anos pesquisando a demência com dois assistentes, Lucia Madrigal e Liliana Cadavid. Eles analisaram listas de registros das paróquias relacionando testamentos, nascimentos, mortes, batismos e casamentos.

Construindo uma detalhada genealogia que revelou que 25 famílias da região eram ligadas por intermédio de um casal espanhol: Javier San Pedro Gomez, nascido por volta de 1745, e Maria Luisa Chavarriaga Mejia.

Mesmo assim, determinar o que era a La Bobera exigia a dissecação de um cérebro, algo que as pessoas locais acreditavam que deixaria alguém "completamente desfigurado", disse Lopera.

Então, em 1995, Líbia Rosa Pineda faleceu aos 56 anos na aldeia de Angostura. Lopera falou com sua família: "podemos examinar o cérebro?". Não.

Ele falou com o prefeito, o padre e o diretor do hospital de Angostura. Não.

Ele enviou um patologista à região, participou do funeral e implorou aos 14 filhos de Pineda. Todos aprovaram, menos um - um policial com ligação com os narcotraficantes da região.

Por fim, poucos minutos antes do cérebro se tornar cientificamente inútil, a família apareceu, o irmão, bêbado, pediu 20 milhões de pesos mexicanos, dizendo: "você vai vender o corpo para os gringos".

Lopera recusou. Mas o irmão foi finalmente convencido, o patologista retirou o cérebro, disse Lopera, e "deixamos a cidade".

O cérebro, mantido em formaldeído na bagagem de mão do patologista, seguiu para Massachusetts, lar do neurocientista Dr. Kenneth S. Kosik. E ali foram encontradas as intrigantes placas de Alzheimer.

Agora o cérebro se encontra em um conjunto de outros que foram extraídos por Lopera para determinar a doença que afligia a região.

Dr. Lopera continua a ajudar pacientes e familiares de pessoas que têm Alzheimer. Quando ficou sabendo de um homem na Austrália que tinha um parente doente na Colômbia, que vivia sem teto, Dr. Lopera varreu as ruas de Medelim e encontrou o homem, cuja família o havia expulsado cinco anos antes.

"A pessoa que sofre de Alzheimer pode sair um dia e voltar normalmente", disse o Dr. Lopera. "Mas muitas vezes elas se perdem para sempre".

Por Pam Belluck

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