Casamento real alimenta especulações sobre futuro de Camilla

Ex-amante e atual mulher do príncipe Charles tenta conquistar simpatia do público que prefere Kate Middleton como próxima rainha

The New York Times |

Quando os 1.900 convidados tomarem seus cobiçados lugares na Abadia de Westminster nesta sexta-feira para o casamento do príncipe William e Kate Middleton, a posição mais desconfortável na igreja gótica do século 13 será ocupada por Camilla, a Duquesa da Cornualha, antiga amante do príncipe Charles e, desde seu casamento com o herdeiro ao trono em 2005, madrasta do noivo.

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Camilla, Duquesa da Cornualha, visita Rabat, no Marrocos (04/04/2011)
Um dos temas mais interessantes do casamento do dia 29 de abril será o par de "possíveis rainhas" formado por Kate e Camilla. Embora elas tenham mais de 30 anos de diferença de idade, ambas chegaram a seus casamentos como plebeias e estão, ao lado de seus maridos, na linha de ascensão ao trono – Camilla primeiro e Kate depois –, o que lhes conferiria a posição de mulher de maior importância no país.

As semelhanças terminam aí. Kate, glamourosa e jovem - aos 29 anos, é cinco meses mais velha que o príncipe William – é vista por muitos na Grã-Bretanha, junto com seu futuro marido, como os possíveis salvadores da monarquia, cujo brilho foi maculado nos últimos 30 anos.

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Kate Middleton visita faculdade em Belfast, na Irlanda do Norte (08/03/2011)
Apesar de todos os elogios do público à rainha Elizabeth 2ª - que completou 85 anos nesta semana e comemora seu aniversário de 60 anos como monarca em 2012 -, a história dos outros membros da família real tem sido de divórcios, indiscrições, extravagâncias, gastos às custas dos contribuintes e transações financeiras suspeitas que alimentaram a mídia sensacionalista dos tabloides britânicos.

Camilla, antes retratada pelos tablóides como a mulher mais odiada do país por seu papel no fracasso do casamento do Príncipe Charles com Diana, a Princesa de Gales, tem feito o possível para se redimir nos últimos anos.

A julgar pelas pesquisas, ela conseguiu reduzir drasticamente seu nível de rejeição. Ela foi aceita pelos dois filhos de Diana, William e Harry, que já disseram publicamente que a amam pela felicidade que ela trouxe a seu pai.

A sensação de que ela faz parte da família, pelo menos entre a geração mais jovem, aumentou quando ela foi fotografada saindo de um almoço com Kate em um restaurante de Londres. Em meio a risadas, ela teria pedido à noiva que seguisse a tradição real – e o precedente de Diana – e usasse uma tiara de pedras preciosas no casamento, algo que Middleton aparentemente achava ser muito antiquado para o seu gosto.

Mas o processo de reabilitação parece não ter sido o suficiente – pelo menos por enquanto – para Camilla, 63, conseguir superar as pesquisas de opinião que têm mostrado uma oposição generalizada à sua proclamação oficial como rainha se e quando Charles, 62, tornar-se rei.

Durante anos as pesquisas têm mostrado que entre 50% e 60% dos pesquisados são a favor de pular uma geração na sucessão, relegando Charles e Camilla a uma aposentadoria precoce e chegando direto a William e Kate enquanto eles ainda são relativamente jovens.

Em parte, as pesquisas refletem uma preocupação de que Charles pode ser muito velho para se tornar rei - em seus 70, talvez até 80 anos – se a sua mãe viver tanto quanto a mãe dela, a Rainha Mãe, que morreu aos 101 anos em 2002. Ele já é visto como antiquado, com sua paixão por casacos de abotoamento duplo em ocasiões que clamam por algo mais casual, e um porte pessoal inábil que pode parecer pomposo e paternalista.

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Kate e Camilla são vistos em cartas de baralho exibidas em museu de Londres (15/04/2011)

Mas o problema não é apenas Charles. Uma pesquisa que mostra que a maioria favorece sua renúncia em favor de William revela também que poucos – 14%, de acordo com o levantamento realizado em novembro – concordariam com a proclamação de Camilla como rainha mesmo que Charles chegue a suceder a mãe.

Neste contexto – e com as sugestões de uma possível crise constitucional – o casamento de William e Kate surgiu em parte como uma espécie de reconciliação, um palco para a família real mostrar o quanto eles progrediram em curar as feridas do passado.

Que demonstração poderia ser mais impressionante do que Camilla sentada na abadia a poucas cadeiras de distância da rainha Elizabeth, que no auge dos problemas entre Charles e Diana a descreveu como "aquela mulher perversa"?

Amigos de Camila entrevistados para esta reportagem dizem que a resistência do público é injusta para uma mulher que não fez nada de errado desde seu casamento com Charles.

Desde o início, dizem eles, ela e Charles sabiam que conquistar a aceitação do público seria um longo processo - "o exercício de uma aquiescência gradual", como colocou um amigo do casal. Um sinal disso veio de Camilla aceitar seus títulos de Duquesa da Cornualha, na Inglaterra, e Duquesa de Rothesay, na Escócia, de direitos menores de Charles, em vez de Princesa de Gales, o título normal para a mulher do primeiro na linha de sucessão ao trono.

Outro sinal foi o anúncio do Palácio de Buckingham (por ocasião do casamento do casal em 2005) de que Camilla levaria o título de princesa consorte, e não de rainha, se Charles assumir o trono.

Os amigos dizem que um dos pontos fortes de Camilla é o estoicismo com que ela tem suportado as farpas atiradas por uma mídia hostil que, como grande parte do público, continua apegada a uma imagem icônica de Diana, apesar de algumas das revelações que não fazem jus a essa ideia terem surgido desde sua morte em um acidente de carro em Paris em 1997.

O jornal "The Observer" já descreveu Camilla como "uma mulher mais velha com nenhum estilo para se vestir e cabelo que mais parece um ninho de pássaro", enquanto os críticos de outro jornal disseram que ela "tem a força estilística de um Pudim de Yorkshire" e a descreveram como “caldeira velha”, “truta velha", "face de machadinha" e "careta".

Sua resistência tem sido mantida com um humor autodeprecativo. Ela zombou do amargurado apelido que Diana deu para ela, atendendo o telefone em sua casa dizendo: “Rottweiler falando!"

Ela nunca disfarçou sua predileção por bebidas, mas desistiu do hábito de fumar 30 cigarros por dia por insistência de Charles. Após seu primeiro e adiado encontro com o príncipe William, em 1998, ela supostamente ligou para um amigo dizendo: "Eu realmente preciso de gin e tônica".

Os amigos afirmam que embora ela seja conhecida por ter opiniões fortes e muitas vezes fora de moda, além de impacientes, arrogantes e pretensiosas, ela tem sido extraordinariamente bem-sucedida em não revelar essas opiniões em público.

Acima de tudo, segundo amigos, ela tem resistido à tentação de oferecer réplica pública ou até mesmo a mais suave autodefesa contra seus detractores, como Charles e Diana fizeram ao confiar em biógrafos e repórteres de televisão quando seu casamento acabou.

Em um país que tem um desprezo particular por reclamões – aqueles inclinados a protestos constantes, um defeito que muitos veem no Príncipe Charles – ela foi elogiada pelo que uma de suas biógrafas, Rebecca Tyrrel, descreve como uma atitude de lidar com os problemas e seguir em frente.

Essa visão encontra amplo apoio. "Ela fez muito sem alarde", disse William Shawcross, escritor e jornalista amigo de infância de Camilla. "Ela cresceu em seu papel de maneira firme e sábia".

Na prática, a ideia de que Charles ceda a sucessão ao seu filho ou suba ao trono sem ter Camilla como sua rainha parece colidir com a realidade política e constitucional.

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Postais com imagens de integrantes da família real são vendidos em Londres (15/04/2011)

Por um lado, a família real tem aversão à idéia de abdicação. A decisão do Rei Edward 8º de deixar o trono em 1936 para se casar com Wallis Simpson continua a ser uma sombra sinistra na memória real, especialmente para a rainha Elizabeth, que permanece assombrada pelo trauma de seu pai, o rei George 6º, que sofreu quando foi forçado a assumir o trono.

Para Richard Drayton, professor de História na King's College, de Londres, pular Charles levaria a obstáculos como um ato do Parlamento e, provavelmente, uma decisão do próprio príncipe a abdicar.

Especialistas constitucionais têm dito que nada na tradição constitucional da Grã-Bretanha ou na legislação comum prevê que a esposa do rei não se torne rainha e que Camilla teria, na prática, que ser a rainha da Grã-Bretanha, seja qual for o título que ela carregue.

Não se sabe o quanto Camilla está preocupada com isso. Alguns de seus amigos acreditam que sua preocupação é principalmente em relação a Charles, que sempre viu como seu destino se tornar rei e que tem trabalhado incansavelmente para esse fim, com uma programação de funções públicas que ultrapassam de longe qualquer outro membro da família real, incluindo sua mãe.

Outros dizem que Camilla não é tão casual quanto por vezes sugeriu a amigos e que sonha com o dia em que estará na abadia, sentada ao lado de Charles, tendo a coroa colocada sobre sua cabeça.

Duas vezes nos últimos meses o casal deu a entender que continuam esperançosos de virar a opinião pública a seu favor sobre a questão de Camilla se tornar rainha. Em uma entrevista em novembro a Brian Williams, da NBC, Charles respondeu com determinada esperança sobre a possibilidade de Camilla se tornar rainha.

"Você sabe, eu quero dizer, vamos ver", respondeu ele, como se emboscado pela pergunta. "Isso pode acontecer”.

Em fevereiro, foi a vez de Camilla.

"Você vai ser rainha um dia?" uma menina lhe perguntou em uma visita a um centro infantil na cidade de Wiltshire Chippenham.

"Nunca se sabe", Camilla respondeu, sorrindo.

Por John F. Burns

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