Ao anunciar na segunda-feira que sua filha http://ultimosegundo.ig.com.br/new_york_times/2008/09/02/gravidez_de_filha_adolescente_de_palin_abala_roteiro_da_convencao_nacional_republicana_1613518.html target=_topBristol estava grávida de cinco meses, Sarah Palin, a escolha de John McCain para a vice-presidência, adicionou uma qualificação que deveria ter, em outra era, eliminado o potencial constrangimento: a garota de 17 anos está para casar com o pai de 18 anos do bebê.

Reuters

Bristol Palin, acompanhada do futuro
marido, Levi, durante a Convenção Republicana

Ele é o cavalheiro, ela é a dama, e, com o forte apoio da família, eles farão o que é esperado deles. Isso é, claro, consistente com as visões de Palin, mãe de cinco filhos (incluindo um com síndrome de Down) que se opõe ao aborto.  

O casamento iminente de Bristol com Levi Johnston (nenhuma data foi fornecida) não provoca nem de longe o mesmo tumulto que a revelação da gravidez, anúncio feito às vésperas da Convenção Republicana. Mas é o casamento entre adolescentes, e não a gravidez na adolescência, que é uma raridade. E, estatísticas mostram, o casamento adolescente tende a não durar.

Casamento e juventude

O drama de Bristol Palin, algo de uma história especial depois da escola que ocorreu paralelamente a nomeação de Sarah Palin para a chapa de McCain, fez com que muitos sociólogos e psicólogos discutissem a juventude e o estado do casamento. 

A idade média das mulheres que se casavam nos anos 1950 era de 19 anos, de acordo com David Popenoe, co-diretor do Projeto Nacional sobre Casamento da Rutgers University e professor emérito de sociologia na universidade. Mas o casamento aos 19 anos ¿ ou mesmo os 17 e 18 ¿ não era descrito na época como casamento entre adolescente, disse o professor. Era tão rotineiro que não tinha um rótulo especial.

Não há como saber quantas dessas uniões foram provocadas pela gravidez ¿ um fenômeno que caiu severamente nas últimas décadas na medida em que o número de casamentos também caiu, dizem os sociólogos.   

Estudos mostram que hoje o casamento entre jovens são duas ou três vezes mais propensos a terminar em divórcio que o casamento entre pessoas de 25 anos ou mais. O mais abrangente estudo sobre casamento e idade que os sociólogos citam foi publicando pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção em 2001, com dados de 1995, e concluiu que 48% daqueles que se casaram antes dos 18 estão propensos a se divorciarem em 10 anos, comparado com 24% das pessoas que se casam depois dos 25.

A maioria das jovens não sabe muito bem o que é criar uma família enquanto se é adolescente, e as poucas que se casam, têm casamentos de vida muito curta, disse Bill Albert, presidente do programa pela Campanha Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência e Indesejada. Eu conheço e respeito muitas garotas de 17 anos, mas não acredito que muitas delas estejam preparadas para casar e assumir a tarefa de uma vida inteira de criar uma criança.  

Os dados do censo sobre casamento na adolescência, de 1998, mostraram que apenas 1% dos jovens entre 15 e 17 anos já foi casado. Mas o número é maior entre os de 18 anos ¿ 6,5% entre as mulheres brancas e 13,4% entre as hispânicas ¿ e varia conforme a região, com os maiores índices no sul dos EUA e os mais baixos no nordeste. Especialistas dizem que o casamento entre adolescentes tende a ser mais comum em famílias religiosas e imigrantes, particularmente entre os hispânicos, e mais comuns em nos chamados Estados vermelhos (republicanos) como o Alasca.  

Imaturidade

Sociólogos dizem que o que gera o fracasso dos casamentos entre pessoas muito jovens ¿ e muitos dizem que o boom dos casamentos no período pós-guerra gerou o boom de divórcio nos anos 1970 ¿ é a complexa condição de serem adultos ainda em formação.

Talvez eles não saibam ainda o que querem de um parceiro para a vida toda, alegou Popenoe. Eles geralmente têm anos de estudo ainda pela frente, assim como a busca por um emprego estável. Essas duas coisas devem transformar consideravelmente a visão que eles têm da vida.  

Mas mesmo os que reconhecem que a união na adolescência é um risco, dizem que é uma escolha mais saudável para a mãe e para a criança que uma educação sem pais presentes, mesmo aos 17 anos.

Uma adolescente que casa e permanece assim aumenta a chance de ambas, ela e a criança, se saírem bem em quesitos como riqueza e bem-estar físico, disse W. Bradford Wilcox, professor de sociologia da University of Virginia, reduzindo as chances de seu filho terminar na cadeia e de sua filha ser expulsa do colégio.

Adolescência em crise

O tema do casamento na adolescência ilumina outro debate, o do significado de ser adolescente na idade moderna. Alguns especialistas dizem que os adolescentes de duas ou três gerações atrás esperavam assumir mais responsabilidades quando jovens, e os pais de hoje em dia presumem muitas vezes que seus filhos não são capazes.

Nós temos essa idéia complicada sobre o que significa ser adolescente, disse Karen Sternheimer, professora de sociologia da University of Southern California. Nós definimos a adolescência como uma extensão da infância, enquanto deveria ser uma precursora da vida adulta.

Sternheimer e Wilcox disseram que o debate sobre o se os adolescentes estão preparados para o casamento foi moldado pelas lentes da classe média, para quem casar antes de estar apto a beber legalmente agora pode parecer estranho, ou uma atitude típica dos moradores do interior.

De fato, disseram, com 18 anos, a classe trabalhadora e as famílias imigrantes em particular já carregam muitas responsabilidades de adulto, incluindo lutar na guerra do Iraque, sustentar a família e criar as crianças. 

Nós gostamos de infantilizar os adolescentes, ou focar no mau comportamento deles, mesmo que alguns deles sejam funcionalmente adultos, apontou Sternheimer. Nós temos essa imagem que é popular na imprensa.

Nos últimos 35 anos, a idade média para o primeiro casamento nos EUA aumentou drasticamente, de 23 para os homens e 21 para mulheres em 1970, para 27,5 para os homens e 25,5 para as mulheres, de acordo com William A. Galston, membro dos estudos governamentais na Brookings Institution.

Galston disse que acredita que a média deve continuar crescendo, espelhando-se nos países europeus, onde a idade para o primeiro casamento é maior e a atitude para com o casamento na adolescência pode ser mais negativo. Eu acredito que a tendência, assim como o papel da mulher na sociedade e a mudança do papel da educação e o treinamento em determinados aspectos da vida, criou a idéia na classe média e profissional de que o casamento entre jovens é uma coisa ruim, disse. 

Mas Galston adicionou que é possível abordar essa questão por outro ponto de vista, um que seja mais ligado aos deveres, à obrigação moral, à fidelidade à comunidade e a fé na família. Nessas circunstâncias, se casar com 17 anos, se você está grávida, pode parecer uma opção claramente preferível.   

Por SARAH KERSHAW

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