Casa Branca esconde um excêntrico museu com vida

Sem exposição especial e com admissão do público gratuita, residência de presidente americano possui curadoria própria

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Reduzida a suas particularidades básicas, a Casa Branca pode soar como um dos mais estranhos museus do mundo. Ele não possui nenhuma exposições especial. Ele não tem local próprio. A admissão do público é gratuita, mas pode demorar até seis meses - mas aqueles que conseguem entrar podem ver tesouros de John Singer Sargent, Asher B. Durand e Jacob Lawrence.

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O curador William Allman, no Salão Verde da Casa Branca
Ainda assim, as obras de dois dos mais famosos artistas da coleção – Cézanne e Monet – são mantidas fora do alcance do público. E durante alguns anos, a pintura da solitária avó Moses foi vista quase que exclusivamente por uma menina pré-adolescente da Geórgia, chamada Amy, e suas amigas.

Adicione a tudo isso a longa tradição que dita que seus privilegiados hóspedes têm permissão para usar alguns dos artefatos históricos como mesas e comer com outros, e esse pode ser o pesadelo de um curador. Mas cuidar do acervo do museu de 210 anos que um de seus residentes, Thomas Jefferson, descreveu como palaciano o suficiente para "dois imperadores, um papa e o Grande Lama", e o qual o posterior Harry S. Truman lamentou ser "uma grande cadeia branca” nunca é entediante.

"É um museu, mas também é a Casa Branca, e por isso é um local de trabalho", disse William G. Allman, que trabalha no escritório do curador local há 35 anos e é curador-chefe desde 2002. "Há momentos em que você quer sair correndo e gritando: ‘Você não pode colocar luzes quentes contra o retrato de Washington!’ Você se preocupa com alguém derramando um copo com algo. Às vezes, alguém quebra uma peça de mobiliário. Mas isso é natural. É um lugar onde moram pessoas".

Para enfatizar essa ideia, Bo, o cão da família Obama, podia ser visto através da janela correndo pelo gramado sul no momento, não representando uma ameaça à arte da casa que se tornou seu lar.

Reprodução
Site da Associação Histórica da Casa Branca fala sobre aniversário de 50 anos
Como a maioria de seus seis predecessores, desde que o cargo de curador da Casa Branca foi criado por Jacqueline Kennedy, em 1961, Allman trabalha duro para permanecer nas sombras enquanto faz a supervisão dos 50 mil objetos que são catalogados como parte da coleção permanente da casa, desde os garfos de peixe do serviço de prata do Estado até o piano de cauda Steinway de 1938, com águias decorativas folheadas a ouro nas pernas. "O pessoal da residência aqui se orgulha de estar atrás das cortinas", disse ele.

Fim do anonimato

Este ano é o 50º aniversário tanto do escritório do curador quanto da Associação Histórica da Casa Branca, organização sem fins lucrativos que apoia a aquisição e conservação de arte e artefatos para a moradia presidencial. Por isso, Allman foi recentemente persuadido por assessores de Obama a sair do relativo anonimato de seu escritório – em um quarto sem janelas no antigo restaurante dos empregados, perto da pista de boliche da Casa Branca, no piso térreo – para falar sobre o papel que ele desempenhou na coleção da arte e decoração da casa através de sete governos (o que explica como ele se lembra da cena pastoral pintada pela avó Moses, intitulada Quatro de Julho, ter enfeitado o quarto de Amy Carter).

Em uma tarde ensolarada recente ele mostrou as alas desertas e silenciosas do térreo e primeiro andar da casa, através das salas públicas históricas – Azul, Verde, Vermelho, Oriente – que são um patrimônio nacional e a principal responsabilidade do curador.

O segundo e terceiro andares, a residência da primeira família, são menos de seu domínio, embora ele aconselhe na sua arte e decoração. E, especialmente desde 2009, quando o casal Obama ganhou as manchetes por pedir emprestadas peças de artistas contemporâneos – Ed Ruscha, Glenn Ligon, Susan Rothenberg – que nunca haviam sido vistas antes na Casa Branca, o diálogo entre os níveis superior e inferior da casa começaram a mudar pressupostos estéticos de uma forma que Allman disse que nunca ter experimentado antes.

Esse diálogo levou, por exemplo, a uma profunda modernização da lista de objetos para compra futura mantida pela Associação Histórica da Casa Branca e pelo escritório do curador – juntamente com o Comitê para a Preservação da Casa Branca, indicado pelo presidente – para orientar suas compras de obras de artistas americanos ainda não representados na coleção permanente da casa.

Antes do governo Obama a lista ainda não continha o Expressionismo Abstrato, por exemplo. Ela inclui Edward Hopper, Grant Wood, Thomas Hart Benton e outros realistas do século 20, e na obra de Arthur Dove mergulha timidamente na abstração. Mas não há obras puramente abstratas na coleção de agora, embora um Georgia O'Keeffe tenha sido doado em 1998.

"Nós percebemos que estávamos em um governo que tem mais afeto para com a arte abstrata e que realmente precisávamos atualizar nossa lista", disse Allman. Então, agora a lista é mais longa e inclui cerca de 50 artistas – nomes da Escola de Nova York, como Willem de Kooning, Jackson Pollock e Franz Kline, juntamente com outros como Robert Rauschenberg, Alexander Calder e Nevelson Louise.

A mudança levou Allman, 58 anos, cujas especialidades são prata e mobiliário, a avaliar os quadros dos séculos 18 e 19 pendurados nas paredes da casa e pela primeira vez tentar imaginar um Franz Kline pendurado a seu lado.

"Nós provavelmente não achamos que essas coisas fiquem bem juntas", disse. "Mas o interessante sobre esse lugar, é que um dia isso pode acontecer”.

*Por Randy Kennedy

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