Cartão-postal da China, Cidade Proibida se vê em meio a escândalos

Gafes com homônimos em mandarim, roubo de artefatos e promoções de clube de luxo fazem parte das humilhações envolvendo edifício mais sagrado do país

The New York Times |

Durante 600 anos, a Cidade Proibida, com suas paredes vermelhas, corredores labirínticos e telhados inclinados, esteve no coração de Pequim como o símbolo supremo do poder, o santuário de onde a autoridade emana por sobre um vasto território.

Ela é, talvez, o último lugar que se poderia imaginar como base para a queda do Partido Comunista chinês.

No entanto, algumas fotografias que têm circulado na internet nos últimos dias parecem sugerir exatamente isso. Na sexta-feira passada, oficiais encarregados de administrar a Cidade Proibida entregaram duas faixas cerimoniais a policiais locais para felicitá-los por prender um suspeito do roubo de objetos preciosos antigos de uma exposição no Museu do Palácio este mês. A frase em uma das faixas dizia: "Para agitar a grande força e prosperidade da pátria e para salvaguardar a estabilidade da capital".

A frase que soa como traição instantaneamente agitou os internautas chineses, espalhando-se tão rapidamente quanto fofoca de corte.

AP
Vista da Cidade Proibida, no coração de Pequim
Salvo a possibilidade de uma cabala secreta revolucionária no interior do palácio, o problema parece ter sido originado de uma dor de cabeça comum em chinês mandarim: os homônimos. A pronúncia da palavra que significa "agitar" – han, com um tom grave – é exatamente a mesma que a de "guardar", embora os caracteres sejam escritos de maneira diferente. Em outras palavras, a primeira frase aparentemente deveria dizer "guardar" em vez de "agitar".

Nenhum oficial na cerimônia pareceu notar o erro. Ji Tianbin, vice-diretor da Cidade Proibida, entregou a faixa, e Fu Zhenghua, chefe da polícia de Pequim, estava presente.

Na segunda-feira, fotos da cerimônia já atraíam escárnio em toda a internet. Muitos chineses zombaram do nível de alfabetização da pessoa que projetou a faixa, e organizações de notícias chinesas exigiam uma explicação.

O escritório de gestão da Cidade Proibida emitiu um breve pedido de desculpas em seu microblog na segunda-feira: “Os banners foram projetados pelo departamento de segurança e nenhum oficial examinou a frase devido à falta de tempo”, disse. Ele acrescentou que o departamento de segurança havia defendido o erro e se recusado a pedir desculpas. Os oficiais "investigaram o incidente, criticaram e educaram o departamento de segurança", disseram os gestores.

A declaração pareceu uma avaliação mais honesta da situação do que a resposta de um oficial de sobrenome Liu ao Legal Mirror, um jornal de Pequim. Liu disse que no fim de semana que não foram cometidos erros e que um "especialista" havia analisado o texto. Sua defesa foi ridicularizado em dezenas de milhares de publicações online.

Humilhações

O episódio da faixa foi a última de uma série de humilhações este mês envolvendo o edifício mais sagrado em toda a China. O primeiro foi o caso que levou os policiais de Pequim a serem agradecidos com as faixas. No dia 8 de maio um ladrão roubou artefatos raros e incrustados de joias do início do século 20 que faziam parte de uma exposição de objetos de um museu privado em Hong Kong.

O roubo ocorreu apesar de a Cidade Proibida estar equipada com, no mínimo, 1,6 mil alarmes antifurto e 3,7 mil câmeras depois do local ser fechado para o público às 5h, relatou o jornal Legal Mirror.

Chang Lingxing, porta-voz da Cidade Proibida, disse em uma entrevista por telefone na terça-feira que o escritório de gestão havia contratado uma empresa privada, a Desenvolvimento Cultural da Cidade Proibida, para organizar palestras e eventos. Em vez disso, a empresa começou a distribuir "formulários de adesão". O escritório de gestão pediu que parassem, de acordo com uma declaração escrita.

Ainda mais escandalosas foram as promoções para um clube privado de luxo no Pavilhão Jianfu, uma parte da Cidade Proibida, que foi restaurado por meio de dinheiro de um fundo de preservação de Hong Kong. A associação ao clube, supostamente limitado a 500 pessoas, custaria US$ 154 mil por pessoa, de acordo com uma publicação de Rui Chenggang, uma âncora para a Televisão Central da China, em um microblog na semana passada.

Oficiais na Cidade Proibida rapidamente negaram a existência desse clube, mas a emissora Beijing News informou no domingo que uma cerimônia de abertura já havia sido realizada.

Uma publicação em um site de microblog explica sucintamente as humilhações: "A Cidade Proibida: a empresa vendeu associações sem a permissão dos oficiais; o departamento de segurança imprimiu as faixas sem a aprovação dos oficiai; o ladrão roubou os artefatos sem a aprovação dos oficiais!"

Mas talvez não se deva subestimar a natureza permanente do prédio. Geremie R. Barme, australiano que é um proeminente estudioso da China, escreveu isso em seu livro sobre a história da Cidade Proibida: "Embora os seus prédios tenham sido sujeitos à decadência e à mudança, a China da política secreta, dos rígidos códigos políticos e comportamento autocrático continua a exercer uma influência muito além dos muros do antigo palácio".

* Por Edward Wong

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