Caroline Kennedy se despede da vida privada e entra para a política

No dia que Carolina Kennedy declarou que gostaria de suceder Hillary Clinton no cargo de senadora por Nova York, uma das primeiras pessoas para quem ela telefonou foi o prefeito de Buffalo.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Ela disse a ele que queria visitar o oeste do Estado de Nova York. Ela disse que queria aprender mais sobre assuntos regionais.

O prefeito, Byron W. Brown, disse que ela era bem-vinda. Mas ele tinha uma mensagem para ela também, ao oferecer uma prévia do que a vida dela estava prestes a se tornar: Eu acho que as pessoas do norte do Estado vão querer uma pessoa do norte no cargo, disse.

A decisão de Caroline de acabar com a sua vida privada e entrar para a política ¿ ainda mais para a política de Nova York ¿ representa o que mesmo seus apoiadores reconhecem ser uma aposta em sua reputação nacional, que ela cultivou cuidadosamente durante 45 anos, desde que seu pai foi assassinado.

Ela deverá superar o ceticismo sobre suas experiências e credenciais, e desfazer o que muitos democratas vêem como um sentimento de direito por um membro de uma família política americana cheia de histórias, tentando iniciar sua carreira política próxima do topo da escada.

Essas preocupações dão lugar a um profundo alívio na medida em que Caroline começa a esboçar uma aparição cuidadosamente orquestrada e sutil, com ligações para políticos no início desta semana e uma viagem pelo norte do Estado, incluindo um encontro particular com o prefeito de Syracuse na quarta-feira.

Obviamente ela é uma celebridade, disse H. Carl McCall, ex-controlador do Estado e candidato democrata ao governo de NY em 2002. Mas acho que a principal questão aqui é se você quer uma pessoa que é celebridade, vem da família certa e passa a impressão de ser algo para uma pessoa de privilégio? Ou você quer uma pessoa sem histórico político, de quem você sabe o que esperar.

Ela nunca foi testada, e tem muita gente lá fora que já foi, adicionou.

Obstáculos políticos

Para Carolina, não é apenas a inevitável (e a história sugere que este fato é contornável) resistência da população do norte a uma advogada de Manhattan que mora na Park Avenue, ou a cautela dos políticos de Nova York que esperam uma certa deferência.

AP
Caroline Kennedy quer a vaga de Hillary
Após ser deixada de lado pelos tablóides de Nova York, que cederam ao pedido dela por privacidade, Caroline quase certamente será assediada por jornalistas que podem não ser tão encantados, ou intimidados, com a presença de um Kennedy como os jornalistas de outras gerações eram.

A cultura de tablóide vai segui-la com crueldade pelo Estado todo, disse Robert Hardt, diretor de política da NY1, uma estação de rádio com noticiário 24 horas e ex-repórter político do The New York Post. Se ela não colocar todos os pingos no is e cortar todos os ts, os tablóides de Nova York vão dizer: Pegamos!

O modo como seu falecido irmão John F. Kennedy Jr. se tornou uma fixação para os tablóides, apesar de elevar sua imagem ao co-fundar a George Magazine, é intrusivo, dizem os democratas. E a chegada de Caroline Kennedy aos palcos públicos está acontecendo enquanto existe uma tensão entre a família Kennedy e Andrew M. Cuomo, procurador-geral do Estado de Nova York, que se envolveu em uma pequena disputa de divórcio com Kerry Kennedy, um das primas de Carolina.

Os apoiadores de Caroline reconhecem que ela terá uma tarefa difícil pela frente; se Paterson indicá-la, ela terá que concorrer à cadeira em 2010 e 2012. Ainda assim, eles dizem que Nova York, por todos os seus desafios - políticos com mentalidade territorial, rivalidade ambiciosas e intensas, jornalistas jogando bombas em assuntos delicados ¿ pode se provar um bom treinamento.

Nova York gosta de candidatos como Pat Moynihan, Robert Kennedy e Hillary Clinton e eu colocaria Caroline nessa categoria, disse Robert Shrum, consultor democrata com fortes laços com a família Kennedy. Nós sempre presumimos que eles terão mais trabalho do eles têm.

É um Estado que gosta de pessoas de pesa. É um Estado que elegeu Robert Kennedy, Andrew Cuomo, Hillary Clinton, disse.

Hillary como exemplo

E há um claro entusiasmo com Caroline entre pessoas poderosas; senador Harry Reid, de Nevada, disse na terça-feira que chamou Paterson semana passada e pediu que ele escolhesse Caroline. Nós temos muitas estrelas de Nova York: Bobby Kennedy. Hillary Clinton, disse ele ao programa Lãs Vegas 1. Eu acredito que Caroline poderia ser perfeita.

Os assessores dela sugerem que estavam analisando a maneira como Hillary concorreu ao Senado em 200 e se comportou diante de obstáculos semelhantes. E algumas pessoas que trabalharam com Hillary durante a campanha expressaram confiança que Kennedy será capaz de superar as preocupações que os nova-iorquinos têm em relação a ela.

Assim como Hillary fez, ela precisa superar a questão da experiência mostrando que ela pode trazer resultados: eu acho que ela consegue fazer isso, disse Mark Penn, que foi assessor de Hillary na corrida ao Senado (e na campanha presidencial do ano passado). 


Caroline e tio, o senador Edward Kennedy / AP

Mas existem diferenças também. Ao contrário de Hillary em 2000 ¿ e o tio de Caroline, Robert, em 1964 ¿ Caroline não pode ser acusada de ser uma moradora do Norte do país por ter morado a maior parte da sua vida em Nova York.

Hillary, no entanto, teve dois anos para se orientar politicamente em Nova York, e era conhecida como estudiosa de política, ávida por absorver detalhes e questões. A deputada Nita Lowey, democrata do condado de Westchester que tentou uma candidatura ao Senado em 2000, mas desistiu quando Hillary surgiu na disputa, disse que o tamanho do Estado e sua diversidade podem amedrontar qualquer um que deseja entrar na política.

Não é fácil estrear em um cargo que representa o Estado, disse Lowey. Você está constantemente aprendendo e ela precisa aprender. Ela precisa estar apta a lidar com as luzes da mídia em seus olhos e com a análise de cada palavra que disser. Ela precisa entender isso. 

E os líderes políticos de Nova York podem ser ¿ no mínimo ¿ um grupo que exige muita atenção e não têm recebido muito bem a possibilidade de um segundo senador da família Kennedy em Nova York.   

Ela me ligou ontem à tarde, disse Randi Weingarten, presidente da Federação dos Professores, e um dos nomes mencionados semana passada como candidato a assumir a vaga no Senado. Essa foi a primeira conversa que tive com Caroline Kennedy, apesar de todos os anos que ela trabalhou dentro e fora do sistema educacional e em outros projetos relacionados à educação.

Hillary, como ex-primeira-dama, era bastante conhecida em Nova York. Caroline é um paradoxo: uma pessoa universalmente conhecida que ainda permanece muito desconhecida do público, e não demonstra apetite por apertos de mão durante a campanha. E desde que conversou com Paterson na segunda-feira sobre a vaga, ela tem recusado todos os pedidos de entrevista.

Dito isso, os conhecimentos políticos de Hillary em 2000 eram um mistério para todos ¿ incluindo seus próprios assessores ¿ como os Caroline são hoje.

Nenhum de nós sabe ¿ incluindo ela ¿ como ela se comportará na campanha, disse Harold Ickes, que foi assessor de Hillary em 2000, se referindo a Caroline. Os nova-iorquinos darão a ela uma colher de chá caso ela seja indicada, apenas pelo fato dela ser quem é. Mas ela precisa ser boa durante a campanha.

Os jornais do norte do Estado receberam Carolina com quem recebe uma frente fria vinda do Lago Ontário. Em Rochester, o editorial do Democrat & Chronicle comparava Caroline com Andrew Cuomo e disse que no barômetro do norte, em uma disputa entre os dois, dá Cuomo. Ele orientou Kennedy a montar imediatamente uma "turnê como ouvinte".

Ainda assim, existem sinais de que Caroline está obtendo progresso. Ed Koch, ex-prefeito de Nova York que semana passada não parecia eufórico com a ideia de outro senador da família Kennedy, estava bastante efusivo ao falar sobre ela ¿ na terça-feira ¿ depois de ouvi-la.

Eu acho que ela será uma excelente senadora, disse Koch. Ela conquistou o direito e mais.

E koch, cuja candidatura ao governo em 1982 acabou depois de uns tropeços no norte do Estado, ofereceu logo um conselho. A primeira coisa que deveria sair da linda boca de Caroline é Eu amo o norte de Nova York ¿ e mal posso esperar para chegar lá 

Por ADAM NAGOURNEY e NICHOLAS CONFESSORE

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