Capitalismo para salvar

Em uma tarde do último maio em Menlo Park, Califórnia, Ray Lane, que faz empréstimos, me levou de seu escritório ao estacionamento, onde um automóvel havia sido entregue algumas horas antes por um caminhão. O carro, feito na Noruega, funcionava a bateria e tinha uma tomada escondida debaixo de uma cobertura perto da porta do motorista. Aos meus olhos, o carro ¿ nomeado o Pensar ¿ lembrava um compacto europeu genérico, mas com algumas diferenças; a carroceria, por exemplo, era feita de um material texturizado e plastificado.

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Quer dirigir? Lane perguntou, jogando a chave para mim. Dentro, o painel era feito à semelhança de um tecido, e o banco estava coberto por um material que parecia decididamente não-Corinto. O Pensar é 95% reciclável, Lane disse.

Teria sido uma aventura incrível ver se o Pensar atingia a velocidade máxima de 105 Km/h na U.S. 101, que passa por Menlo Park e depois por Mountain View, Sunnyvale e San Jose, cidades com alta tecnologia onde Lane e os colegas da Kleiner Perkins Caufield & Byers têm financiado empresas (Google e Netscape, entre outras) nos últimos 36 anos. Mas esse Pensar, um dos únicos três nos Estados Unidos, não tinha placa nem documentos. Então Lane e eu exploramos as ruas particulares ao redor dos dois prédios da Kleiner Perkins.

Enquanto dirigíamos, Lane me disse que se as coisas estivessem bem, o carro estaria à venda nos Estados Unidos em 2009. Ele disse que espera vender alguns milhares no primeiro ano e um dia chegar a vendas anuais de dezenas de milhões, com um preço abaixo de 30 mil dólares. Mas os resultados são difíceis de prever com precisão, admitiu, mesmo para pessoas envolvidas no meio que gastam as horas de trabalho imaginando o futuro.

Comecei a falar com Lane e seus sócios na Kleiner Perkins no inverno passado. Durante o verão a parceria angariou dinheiro para gastar em tecnologia limpa ou verde ¿ na linguagem deles, investimentos clean tech ou green tech. No começo do outono, Kleiner havia financiado 40 companhias green tech diferentes e levantou um total de cerca de 1 bilhão de dólares no final.

Kleiner não é a única financeira que de repente viu o futuro e decidiu que ele era verde. A Califórnia no verão passado parecia uma composição de pequenas empresas de energia alternativa. Na Kleiner, que deve ter representado talvez uma dúzia de planos de negócio por ano para as companhias de nova tecnologia verde no começo da década, pelo menos 100 idéias estavam sendo filtradas todos os meses.

John Doerr, um dos sócios no gerenciamento da Kleiner e o financista mais influente do mundo indiscutivelmente, me alertou em seu escritório em uma manhã de julho que esses eram sinais de que o riquíssimo mercado de energia  passaria inevitável e iminentemente por uma eco-transformação no atacado. Na visão de Doerr e seus parceiros, os esforços da Kleiner para plantar essa economia renovável de prospectiva com investimentos e a ajuda do novo sócio, Al Gore, ajudariam a enxergar alguns dos problemas mais vexatórios da era moderna ¿ como mudança do clima, custos de combustível e independência de energia.

O mapa de grandes desafios como plano de investimento

Enquanto os financiadores são confundidos às vezes com seus primos que trabalham em entidades privadas, eles tendem a ter um papel muito diferente dentro da economia norte-americana. Fundos de instituições privadas somam largas quantias de negócios existentes. Os fundos dos financiadores, por contraste, tipicamente apoiam pessoas de risco que defendem um plano de negócio manchado de café. Os financiadores trocam dinheiro (frequentemente entre 1 e 15 milhões de dólares) por uma parte da propriedade (geralmente entre 20 e 40 por cento) na pequena empresa.

A Kleiner está entre as mais fechadas do grupo. Entre alguns anos, a firma junta uma quantidade de dinheiro que varia entre 500 e 700 milhões de dólares; o montante serve como um tipo de conta bancária que os sócios usam para investir em 30 a 40 idéias.

Muitas financeiras brigam para levantar essa quantidade de dinheiro. Na Kleiner, ele entra sem muito esforço aparente. Ele vem dos próprios sócios da Kleiner, desde fundações a endossos universitários (Stanford, Harvard, Yale, entre outras) e de indivíduos ricos (os fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, por exemplo) aos quais é permitido ¿ apenas por convite, como diz um parceiro ¿ acrescentar alguns milhões ao bolo da Kleiner. A maioria desses investidores de elite, conhecidos como sócios limitados, são também ajudantes da Kleiner; eles com freqüência direcionam idéias ou novos aventureiros para a firma. Kleiner é, em essência, uma sociedade de interesse mútuo de riqueza, conhecimento e contatos, e mesmo que você quisesse, mesmo se implorasse, não poderia investir com eles.

Tradicionalmente, a firma dividiu os investimentos entre empresas de tecnologia digital e empresas relacionadas à saúde. Ocasionalmente, entretanto, há tentativas de negócios que não se encaixam em nenhuma das duas. Em 2001, Kleiner recebeu uma proposta de um professor da Universidade do Arizona chamado K. R. Sridhar, ex-cientista da NASA, que estava trabalhando em uma célula de combustível em sua garagem, em Tucson.

Células de combustível são uma tecnologia antiga - mais de 150 anos. Eles convertam um combustível, como gás natural, em eletricidade por meio de reações químicas, em vez de combustão. O poço de Sridhar tinha aspectos tecnológicos inéditos, e seu plano de negócio pedia a construção de geradores de energia para compradores que não tinham acesso a correntes elétricas ou que quisessem desconectar-se delas.

Você podia colocar gás natural ali e extrair eletricidade, me disse Aileen Lee, sócio da Kleiner que analisou a proposta de Sridhar. Ou podia ser flexível a combustível ¿ o que significa que podiam funcionar a, digamos, etanol. Pelo menos na teoria, as unidades, que Sridhar chamou de caixas Bloom, seriam confiáveis, silenciosas e com emissão de carbono bem baixa.

A firma parou depois de investir em energia Bloom em 2002. No final de 2006, em uma das quedas corporativas da Kleiner, Bill Joy, um fundador da Sun Microsystems e novo sócio da empresa, exibiu o que mais tarde ficaria conhecido como o mapa dos grandes desafios.

Era uma matriz de quadrados coloridos que mostrava o progresso da empresa em localizar investimentos em potencial em cerca de 40 categorias diferentes: água, transporte, eficiência de energia, geração de eletricidade, estoque de energia e afins. Nos espaços em branco havia listas de coisas que são possíveis, nas palavras de Doerr ¿ ideias resumidas, que poderiam produzir grandes mudanças e, se Kleiner comprasse a ação, grandes lucros. Portanto o mapa era um desenho geral bruto e imaginário de economia de energia limpa que não existia na verdade, e talvez nem existiria em nenhum meio significativo por décadas. Mas ajudou a Kleiner a entender o que procurar.

No mesmo ano, Kleiner informou oficialmente seus investidores que começaria a colocar 100 milhões de dólares de seu novo fundo em tecnologia verde. Doerr, Joy e Lane se uniram ao grupo de green tech.

Numa manhã de verão, tomei café da manhã com Joy em Manhattan, e ele me mostrou o que havia restado do mapa de grandes desafios, sob a condição de que eu mantivesse em segredo as tecnologias que não eram de conhecimento público. Algumas partes permaneciam abertas, mas a firma havia identificado um número de projetos que podiam ser despachados rapidamente, assim como propostas de longo prazo que podiam ser chamadas de descobertas. Se algum deles se tornaria empresa rentável ¿ o que dirá um novo Google ¿ era um assunto muito mais imprevisível.

Da ideia para o mercado

Se você observer o portfólio de energia limpa da Kleiner, aparentemente a firma fez um número de apostas grandes e arriscadas. Em parte isso se dá por causa da economia evolutiva do capital de financeiras: para conseguir retorno seus investidores vieram a esperar ¿ a empresa diz que retornou uma média de 1 bilhão de dólares de lucro por ano aos investidores na última década ¿ que a Kleiner deva produzir um ou dois sucessos mágicos em um pequeno intervalo de anos.

A energia Bloom é um bom exemplo em que os chips agora estão elevados. Localizado no modesto prédio de um andar com grandes janelas de vidro na estrada de Sunnyvale, Califórnia, Bloom é uma das companhias no portfólio da Kleiner mais perto de lançar um produto comercial.

Nos últimos dois anos e meio, engenheiros da Universidade do Tennessee em Chattanooga testam uma caixa Bloom de 5 kilowatts, que parece um frigobar e produz quase tanta eletricidade quanto uma casa comum exige. Henry McDonald, professor no Tennessee que está supervisionando a caixa Bloom, fez uma funcionar sem parar durante 6,000 horas, e o desempenho superou as expectativas. Em termos cotidianos, a caixa foi duas vezes mais eficaz do que uma caldeira de gás natural, e a emissão de carbono foi 60 por cento menor.

Os sócios da Kleiner dizem que Bloom poderia vender um dia centenas de milhares de caixas, seja em unidades de 5 kilowatts ou maior, máquinas com 100 kilowatts que dão energia a prédios ou vizinhanças.

As ambições da empresa são de tirar o fôlego. Como Sridhar me disse, referindo-se à população mundial. Dois bilhões de pessoas não têm acesso à eletricidade. E dos outros 4 bilhões com acesso, provavelmente 2 bilhões estão recebendo abaixo das exigências.

A maioria dos investimentos em tecnologia verde da Kleiner não é discutida publicamente. Pelas minhas contas, a firma conseguiu 15 dos 40 investimentos. O restante está em que a financeira chama de modo camuflado, escondido da imprensa (e dos plágios) até que esteja encaminhado.

As financeiras como regulamentação governamental

Enquanto o verão se arrastava, Bloom e um dos investimentos mais promissores da Kleiner, Ausra, que usa espelhos para concentrar energia solar em canos de água para produzir vapor e, então, eletricidade, atingiram vários paradigmas no caminho para a comercialização. A Bloom fez uma importante descoberta técnica para aprimorar a eficiência da célula de combustível; a Ausra, em um instalação de teste remota perto de Bakersfield, Califórnia, no fim de agosto, começou a produzir vapor a cerca de 600 graus Fahrenheit ¿ prova de que o risco técnico tinha sido superado quase que por completo.

Para os sócios da Kleiner, assistir a tal inovação em tempo real foi motivo de ampla satisfação. Para alguém de fora, parecia cansativo. Em vez de uma série sucessiva de momentos de descoberta, o progresso se desenhava sobre estabelecimento de metas, testando, modelando e então colocando mais objetivos.

Os financiadores na Kleiner, no entanto, mantiveram o otimismo. Como comentou Lane: Se tivesse que adivinhar, daqui a cinco anos isso será assunto da mesa de jantar ¿ o preço da eletricidade, carros elétricos. Talvez não no nível técnico que estamos falando agora. Mas será rotina.

O que faz os financiadores de tecnologia verde da Kleiner tão arriscados, entretanto, é que algo presumido pelos parceiros poderia estar certo e os investimentos, ainda assim, poderiam enfraquecer-se. Por exemplo, imagine se os carros elétricos se tornam conversa de mesa de jantar daqui a 10 anos em vez de 5. Como aponta Josh Lerner, da Harvard Business School, seria difícil para qualquer financeira manter financiando as pequenas empresas por tanto tempo.

Se a tecnologia não pode garantir uma rede segura para investimentos de tecnologia verde, a política talvez possa. Na Kleiner, raramente um dia se passa sem que se ouça como novas leis federais que colocam um preço na emissão de carbono, por exemplo, e que exigem produção de níveis de eletricidade renovável, possam acelerar a adoção de energia verde. Um preço sobre o carbono poderia, em um ataque rápido, fazer a eletricidade solar da Ausra sem carbono mais barata até do que o carvão ¿ ou eletricidade produzida por gás, que aumentaria o custo porque produzem CO2; como resultado, não haveria praticamente limites para a demanda de energia da Ausra.

Muitas das maiores corporações desse país ¿ GE, GM, Dow Chemical, DuPont ¿ agora apóiam leis contra o carbono. As idéias sobre energia dos candidatos à presidência diferem de modo significativo, mas Barack Obama e John McCain apóiam a legislação para controlar a emissão de carbono.

Al Gore, otimista ambiental?

Talvez o aspecto mais complicado da empreitada da Kleiner seja a expansão da energia verde aos mercados de forma mais rápida do que as tecnologias de energia que vieram antes. Em uma conversa que tive com Al Gore no começo de setembro, perguntei como isso seria possível.

O modo devagar como essas tecnologias se desenvolveram no passado, Gore falou sobre a tecnologia verde, limitou a influência sobre o quão rápido podemos usá-las no futuro, se assim quiséssemos. Empresas térmicas solares como a Ausra poderiam em breve concorrer com produção de eletricidade baseada em carvão, ele disse. E quando os governos do mundo derem um preço ao carbono, ele acrescentou ¿ acredita que o farão dentro de um ou dois anos ¿ a demanda por eletricidade sem carbono explodirá.

Vindo de Gore, portador de más notícias quando o assunto é o clima, isso parecia ganhar um tom de mais esperança. Seu otimismo havia crescido consideravelmente nos últimos tempos, parcialmente por causa do prospecto de novas políticas de emissão de carbono, e parcialmente por conta de inovações que viu na Kleiner. Algumas delas eram empresas de green tech, Gore disse, que estavam muito, muito escondidas; elas não eram do conhecimento de ninguém a não ser de algusn financiadores e apostadores.

As dificuldades pelo caminho não podem ser subestimadas. Muitas empresas de tecnologia verde estão fazendo produtos que exigem processos industriais inteiramente novos, o que pode prendê-los em um paradoxo de inovação. Na Bloom, por exemplo, será difícil, no começo, atingir o estágio de produção de massa porque não há compradores suficientes dispostos a pagar pelos produtos custosos. Por outro lado, os produtos são tão custosos porque não estão sendo produzidos em massa.

Padrões históricos de inovação sugerem que produtos inéditos triunfaram no mercado ao explorar um nicho enquanto as vendas se expandiam com firmeza e enquanto o desempenho se aprimorava e os custos baixavam. K. R. Sridhar me disse que nos EUA e em áreas em que a rede elétrica sofre pressão e as utilidades estão relutantes em construir fábricas de energia caras, ele poderia vender suas células de combustível para novos hospitais, grandes lojas e centrais de computador. No mundo em desenvolvimento, Sridhar disse, não precisamos concorrer com o preço da rede de eletricidade.

O maior obstáculo, na visão dele, seriam os custos capitais do início ¿ ajudar nas finanças dos apostadores de energia para comprar uma caixa Bloom, por exemplo, para que pudessem criar uma microrede que atende várias centenas de casas e lojas. Esse é o sonho de Sridhar para a civilização. Finalmente, a caixa Bloom ofereceria energia de baixa emissão e de 24 horas por dia para vilas da Ásia e África que nunca possuíram instalações modernas ou para cidades que nunca tiveram confiabilidade.

Enquando falava, essa idéia, como muitas dos outros que ouvi, parecia possível, e entendi por que Doerr e Gore haviam dado um pouco de esperança. Quase tudo parecia possível.

Por Jon Gertner, escritor contribuinte da revista do The New York Times

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