Candidatos deixam de informar detalhes sobre sua saúde

A quinze dias das eleições, pouco se sabe sobre a saúde dos candidatos à presidência e vice-presidência. A limitada informação oferecida pelos candidatos em muito difere das campanhas anteriores, nas quais os candidatos e seus médicos eram mais diretos sobre o assunto.

The New York Times |

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Em eleições anteriores, a decisão de alguns candidatos aos principais cargos do país de esconder informações sobre sua saúde tiveram enorme impacto quando vieram a público. Este ano, a questão da saúde tem grande significado porque dois dos quatro indicados sobreviveram problemas médicos potencialmente fatais que podem voltar a ocorrer.

Caso eleito, o senador John McCain do Arizona, 72, candidato republicano, será o homem mais velho a assumir o cargo em primeiro mandato e o primeiro sobrevivente de um câncer a conquistar o gabinete. As cicatrizes na sua bochecha esquerda são lembranças de uma extensa cirurgia pela qual passou em 2000 para remover um melanoma maligno.

Em maio, seu comitê e seus médicos divulgaram quase 1.200 páginas de informação médica, muito mais do que os outros três candidatos. Mas os documentos continham restrições que geraram dúvidas, e até mesmo certa confusão, sobre seu câncer.

Um ponto crítico destes dados é a inconsistência  entre as opiniões médicas em relação à gravidade de seu melanoma. Caso a classificação do seu melanoma seja mais grave, aumenta a probabilidade estatística de morte por causa da recorrência do câncer.

O senador Joe Biden de Delaware, 65, candidato democrata à vice-presidência, teve que passar por uma cirurgia de emergência em
1988 por causa de um aneurisma numa artéria cerebral e optou pelo procedimento após o surgimento de outro. Seu comitê divulgou 49 páginas de informações médicas ao The New York Times na semana passada, mostrando que ele está saudável, mas os documentos não mostram se ele passou por algum exame recente para detectar novos aneurismas.

Os outros dois candidatos são mais jovens e aparentemente saudáveis, mas pouco se sabe sobre seu histórico médico. O senador Barack Obama de Illinois, 47, candidato democrata à presidência, divulgou em maio uma carta de uma página, sem data, em que seu médico pessoal atesta sua "excelente" saúde. No final da semana passada, seu comitê divulgou o resultado de exames laboratoriais e electrocardiogramas de seus checkups em junho de 2001, novembro de 2004 e janeiro de 2007. Os resultados foram normais.

A governadora Sarah Palin do Alasca, 44, parceira de McCain, não divulgou informações médicas.

Falta informações

Pode ser que nenhum dos candidatos enfrente sérios problemas de saúde, mas a falta de informações sobre o assunto impede que os eleitores saibam disso.

A saúde dos quatro candidatos é motivo de preocupação porque no passado muitos candidatos, e em alguns casos seus médicos e assistentes, distorceram, esconderam ou falaram sobre os fatos apenas quando ocorrências médicas os forçaram a isso. Exemplos disso incluem o senador Thomas F. Eagleton (depressão), o senador Paul E. Tsongas (câncer), o senador Bill Bradley (anormalidade cardíaca) e, como candidato à vice-presidência, Dick Cheney (doença do coração).

Eu sou médico e cubro a saúde de candidatos à presidência há 36 anos. Desde 1980, o The New York Times tem como prática questionar os candidatos ao cargo e outros de alto escalão político e, com sua permissão, seus médicos a respeito de sua saúde.

O The New York Times tem solicitado tais entrevistas com Obama desde a primavera e com McCain e seus médicos desde março de 2007. Nenhuma entrevista foi concedida. Mais recentemente, o The New York Times enviou cartas aos quatro candidatos solicitando entrevistas sobre sua saúde, com eles e seus médicos. Nenhum candidato concordou.

Dúvida

A saúde dos candidatos chamou pouca atenção ao longo da temporada de campanha apesar da importância do assunto. Mas desde que McCain escolheu Palin como sua vice em agosto, as questões sobre sua saúde intensificaram. Nas últimas semanas, mais de 2.700 médicos assinaram uma petição exigindo que McCain divulgasse completamente seu histórico médico. A petição foi divulgada pela Brave New Films, companhia de Robert Greenwald, cineasta de Hollywood que contribuiu com US$2.250 ao candidato democrata e realizou inúmeros vídeos contra McCain. Além da propaganda, a saúde de McCain se tornou alvo de especulação e distorção na internet e outras mídias.

No geral, a situação não oferece ao eleitorado dados suficientes para julgar a saúde dos candidatos. A informação que foi divulgada é bem menor do que a que foi oferecida em campanhas ao longo das 10 últimas eleições.

Antes, havia um certo acordo de cavalheiros entre as autoridades e a mídia que permitia que condições de saúde sérias fossem abafadas.

Histórico

Franklin D. Roosevelt teve pólio mais de uma década antes de se tornar presidente e, no seu quarto mandato, ele desenvolveu uma séria condição cardíaca, mas o público foi protegido dos efeitos mais sérios da doença. Ainda que muito se tenha dito sobre as costas ruins de John F. Kennedy e a cadeira de balanço que lhe dava algum alívio, foi apenas depois de seu assassinato que sua doença de Addison, uma desordem hormonal, foi divulgada.

O que pode ser chamado de era moderna das informações médicas teve início em 1972, quando Eagleton teve que abandonar a candidatura à vice-presidência democrata porque não havia informado seu parceiro de disputa, o senador George McGovern, de seu histórico de depressão.

Em 1992, Tsongas, que tentava a candidatura democrata à presidência, falou comigo para assegurar o público que havia se livrado de um linfoma depois de um transplante de medula em 1986. Em entrevistas, seus médicos no Instituto Dana-Farber Câncer apoiaram suas afirmação.

Mas na verdade o câncer havia voltado e, eventualmente, Tsongas abandonou a disputa. Ele morreu dois dias antes do final do mandato a que concorreu.

Outros candidatos que disponibilizaram a si e seus médicos incluem o George Bush pai, Bob Dole, Al Gore e John Kerry. Um exemplo de abertura foi Ronald Reagan, cuja idade, 69, havia se tornado um problema na eleição de 1980. Reagan autorizou seus médicos a darem entrevistas. Ele também concordou em falar sobre o assunto, contrariando seus consultores, respondendo todas as minhas perguntas, inclusive quando perguntei o que faria caso se tornasse um presidente senil.

"Renunciaria", ele disse.

Por LAWRENCE K. ALTMAN

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