Candidatos a padre encaram sabatina sexual nos EUA

"Quando fez sexo pela última vez?" e "Gosta de crianças mais do que de pessoas da sua própria idade?" são questões em seminário

The New York Times |

Toda entrevista de emprego tem seus momentos difíceis, mas nos últimos anos a entrevista padrão para homens que querem se tornar padres da Igreja Católica Romana passou a incluir questões ainda mais complexas.

"Quando foi a última vez que você fez sexo?", todos os candidatos a seminaristas precisam responder. (A resposta preferida: há três anos ou mais.) "Que tipos de experiência sexual você teve?", é outra pergunta comum. "Você gosta de pornografia?"

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Reverendo Stephen Rossetti, psicólogo na Universidade Católica que entrevista seminaristas, em Washington, EUA (27/05/2010)
Dependendo das respostas e dos resultados de uma bateria de testes psicológicos - que incluem pedir que o candidato desenhe um ser humano anatomicamente correto - a entrevista pode se aprofundar: "O senhor gosta de crianças?" e "Você gosta de crianças mais do que de pessoas da sua própria idade?"

Isso faz parte de uma série de obstáculos que os seminaristas devem enfrentar em consequência da crise de abusos sexuais que líderes da igreja decidiram enfrentar, em parte, evitando a chegada de possíveis molestadores aos seminários, de acordo com funcionários da igreja e psicólogos que avaliam candidatos nos Estados Unidos.

Mas muitas das questões visam a outra missão igualmente sensível: decidir se candidatos homossexuais devem ser recusados, como orientam intricadas regras estabelecidas pelo Vaticano que não explicitamente proíbem a entrada de candidatos gays, mas excluem a maior parte deles, mesmo os celibatários.

Estudos científicos não encontraram qualquer ligação entre a orientação sexual e abuso, e a igreja é cuidadosa em descrever suas duas iniciativas como não correlatas. Um conselheiro de seminários americanos caracterizou a medidas como "duas formas que podem ter algo em comum".

Ainda assim, desde que a crise de abusos chegou às manchetes do país em 2002, restringir a entrada de homossexuais no sacerdócio se tornou uma das prioridades da igreja. Essa tarefa foi dada a diretores de seminários e grupos de psicólogos que afirmam que escolher os candidatos se tornou um árduo processo de testar, entrevistar e tomar decisões - com base em ciências sociais, dogmas da igreja e instinto.

"A melhor forma que para eu explicar isso é dizer que não é nada preto no branco", disse o reverendo David Toups, diretor do secretariado do clero, vida consagrada e vocação da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. "É mais como aquelas coisas difíceis de definir, mas que sabemos o que são quando vemos."

Muitos funcionários da igreja tem relutado em falar sobre o processo abertamente e os detalhes são diferentes em cada diocese. Na densamente povoada diocese do Brooklyn, os oficiais estão confiantes de seus resultados em pelo menos um aspecto.

"Não temos gays em nosso seminário no momento", afirmou o Robert Palumbo, psicólogo que examinou candidatos ao seminário da Douglaston durante mais de dez anos. "Tenho absoluta certeza disso."

A preocupação sobre a presença de homossexuais no sacerdócio existe há séculos na igreja e isso apenas aumentou nos últimos anos com as afirmações de estudiosos de que entre 25% e 50% dos padres americanos são gays. A igreja nunca realizou o seu próprio estudo, mas outros especialistas estimaram números muito menores.

O escândalo de abuso sexual fez com que alguns bispos conservadores culpassem a "subcultura homossexual" do sacerdócio. Ainda que ninguém tenha proposto expulsar padres gays, a crise colocou tradicionalistas contra outros católicos que atribuem o problema a sacerdotes, gays ou não, com problemas de personalidade.

Em 2005, o Vaticano atenuou o debate ideológico, mas pareceu agradar aos conservadores ao emitir regras que dificultavam a entrada de homossexuais nos seminários católicos.

As regras, que reforçavam determinações já em prática que não eram rigorosamente exigidas, definiam a homossexualidade de maneira ao mesmo tempo ambígua e clara: homens que "praticaram homossexualidade" ativamente não devem ser aceitos. Mas ficou a cargo dos reitores discernir o significado de instruções menos ambíguas para rejeitar candidatos que "demonstram profundas tendências homossexuais ou apoiam a chamada cultura gay".

Embora alguns católicos vejam espaço para a aceitação de homens celibatários homossexuais, o Vaticano divulgou esclarecimentos em 2008. "Não é suficiente ter certeza de o candidato ser capaz de manter a abstenção sexual, também é preciso avaliar sua orientação sexual", determinou a Congregação de Educação Católica.

* Por Paul Vitello

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