Candidata do Arizona é questionada sobre sua fluência em inglês

Cidadã americana, mas com dificuldades na língua, Alejandrina Cabrera briga na justiça para pode concorrer ao Conselho Municipal

The New York Times |

Quando Alejandrina Cabrera fala inglês, seu rosto deixa transparecer uma expressão de desconforto e desespero. Acostumada apenas com o seu espanhol nativo, ela enrola a língua ao falar.

"Não falo muito inglês", disse ela durante entrevista no escritório do seu advogado com um forte sotaque espanhol. "Mas meu inglês é bom o suficiente para San Luis”.

Alejandrina pode ser capaz de passar o seu ponto de vista para as pessoas desta cidade do Arizona, mas se ela será capaz de fazer parte do governo desta cidade bilingue perto da fronteira é algo que divide os 25 mil moradores da região.

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O que começou como um esforço de adversários políticos para impedir que Alejandrina conseguisse um lugar no Conselho Municipal se tornou rapidamente uma discussão incômoda sobre quão fluentes em inglês devem ser os membros que ocupam cargos políticos no Estado. Assim como muitos outros, o Arizona há muito tempo exige que todos que ocupam cargos políticos tenham um nível de inglês suficiente para falar, ler e escrever. Porém, a lei não explica de maneira detalhada o que isso quer dizer. Falar o básico é suficiente? É preciso falar de maneira impecável? Quem pode decidir isso?

"Sinto que este assunto está abrindo uma caixa de Pandora, e não sabemos para onde isso pode nos levar", disse o prefeito Juan Carlos Escamilla, que entrou com uma contestação legal sobre a capacidade de Alejandrina falar inglês.

Ele reconheceu em numa rede de televisão local que seu inglês está longe de ser perfeito. "Sinto que não domino a língua 100%, mas consigo me virar", disse Escamilla, que se formou no mesmo colégio que Alejandrina. “Consigo escrever, ler e entender muito bem o que está sendo dito."

Foi Guillermina Fuentes, uma ex-prefeita de San Luis, quem primeiro chamou a atenção, no mês passado, para a capacidade de Alejandrina de falar inglês. Elas viraram ex-amigas devido a um desentendimento político.

"Você está me escutando falar e sabe que não falo perfeitamente", disse Guillermina em uma entrevista por telefone. "Sei que às vezes as pessoas têm dificuldade em entender o que estou dizendo, mas tenho um bom domínio da língua e sempre precisei servir de intérprete para Alejandrina Cabrera".

Em última instância, o assunto será resolvido em um tribunal. O juiz John Nelson, do Tribunal Superior do condado de Yuma, determinou que o nome de Alejandrina fosse retirado da cédula pelo fato de ela não falar inglês fluente. Os advogados dela podem recorrer.

Nelson tomou a decisão após pedir que um linguista avaliasse Alejandrina, após ela não ter conseguido responder uma simples pergunta de seu próprio advogado, John Minore, sobre seu histórico escolar. Alejandrina explicou mais tarde que não conseguiu responder a pergunta por nervosismo e não por não ter entendido o que ele falou. Ela foi também a um otorrino para confirmar que tem problemas auditivos.

"Estava em choque", disse ela. "Me deu um branco. Essa foi a primeira vez que pisei em um tribunal."

O juiz, porém, ouviu o suficiente para ter dúvidas sobre suas habilidades de entender a língua e ordenou que ela fosse testada por um especialista em línguas contratado pelo governo da cidade.

Em seu relatório, que foi detalhado em uma audiência na quarta-feira, William G. Eggington, um professor de inglês e linguística na Universidade Brigham Young, em Utah, baseado em entrevistas e testes feitos com Alejandrina, disse que ela tem um "nível de sobrevivência básico" bem abaixo do necessário para participar de assuntos governamentais e referentes a administrar uma cidade.

"Eu admiro a Sra. Cabrera por sua bravura e ambição e desejo-lhe o melhor” escreveu Eggington. "Porém, na minha opinião, com base nos resultados dos testes e análises descritos acima, ela não tem a proficiência suficiente na língua inglesa para trabalhar adequadamente como um membro eleito do Conselho Municipal."

Mesmo assim, Alejandrina disse que o fato de Eggington ser da Austrália levou a pelo menos um ou outro mal-entendido durante a avaliação. Ele perguntou-lhe sobre o "verão", que ela disse que ele pronunciava de uma maneira diferente daquela usada pelos americanos. Isso fez com que ela se confundisse na hora de responder sua pergunta.

O argumento linguístico tomou conta desta pequena cidade do sudoeste do Arizona, onde mais de 90% da população é mexicano-americana e o espanhol é falado quase em todos lugares.

Em 1993, Cesar Chavez, o líder dos direitos civis latinos, morreu em San Luis, que costumava ser uma comunidade de camponeses.

Em uma pizzaria local, os pedidos são feitos em espanhol, embora a garçonete tenha mudado para o inglês quando perguntou aspectos mais específicos como “massa fina ou grossa.” Alguns policiais da cidade de San Luis dizem que se comunicam pelo rádio em inglês mas que falam com os habitantes da cidade em espanhol.

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"É estranho falar inglês aqui", disse Archibaldo Gurrola, um entregador da UPS e ex-vereador de San Luis que é também um aliado político de Alejandrina. "O espanhol é a língua mais falada da região, talvez com um pouco de inglês misturado de vez em quando.”

Alejandrina, uma cidadã dos Estados Unidos que passou boa parte de sua infância no México e se formou numa escola do Arizona, disse que espanhol é a língua que ela usou durante sua campanha para interagir com os moradores da região. É também a língua que ela mais utiliza em seu dia-a-dia em San Luís, apesar de ajudar seus filhos com suas lições de casa em inglês.

"Você vai a um mercado, estão falando espanhol", disse ela. "Você vai a um médico e fala em espanhol. Quando você paga as contas de luz ou água, é tudo em espanhol."

Porém nas reuniões do conselho, os materiais que são entregues aos membros são todos em inglês e grande parte das discussões são também em inglês, disseram os oficiais da cidade. Durante discussões abertas ao público, a língua falada é o espanhol pois muitas vezes isso facilita a comunicação com pessoas que não têm tanta facilidade em falar ou entender o inglês. Para aqueles que não são bilingues, tradutores-intérpretes são disponibilizados através de equipamentos com fones de ouvidos.

No final das contas, a disputa sobre a fluência de Alejandrina pode ter mais a ver com política do que com a língua em si. San Luis é conhecida por ter ferozes brigas políticas e Alejandrina, uma ativista democrata, tentou derrubar Escamilla, uma colega democrata, duas vezes após ter feito com que o conselho demitisse alguns oficiais para cortar gastos e aumentasse as contas de utilidades. Ambos os esforços para derrubar Escamilla fracassaram, porém ela se uniu a outros críticos do conselho para se candidatar a uma das quatro vagas que irão abrir em março para fazer parte do conselho administrativo da cidade.

O Estado do Arizona já teve problemas anteriormente com a questão de ser uma cidade bilingue. No ano passado, o Estado parou de enviar monitores para verificar a proficiência de professores bilíngues dentro das salas de aulas depois que o Departamento Federal de Educação abriu uma investigação ao longo do ano.

Os advogados de Alejandrina disseram que impedir que ela continue exercendo seu cargo pode ter inúmeras consequências. "Isso quer dizer que se você tem um sotaque muito pesado você não pode exercer um cargo político no Arizona?” questionou Brandon S. Kinsey, um de seus advogados. "Até onde é que você impõe estes limites? E como fazer com que estes limites não sejam traçados de uma maneira discriminatória?"

Por Marc Lacey

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