Campos de moradia na Geórgia não realizam sonho de voltar para casa

SHAVSHVEBI ¿ Lyuba Valiyeva, 74, colocou um lenço de lã em volta da cabeça e se aventurou pela estrada para examinar mais perto as coisas extraordinárias que estão acontecendo nas planícies próximas da fronteira da Ossétia do Sul.

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Governo promete casa a refugiados

Casas, centenas delas, cresceram em meio à terra fértil. Postes de serviços públicos foram colocados em buracos e amarrados com um cabo preto. As marteladas continuavam até tarde da noite, e toda manhã, filas de casas idênticas com telhados vermelhos se estendiam até um ponto mais distante.

Finalmente, ela coloca seus chinelos de borracha, caminha pelos arredores e dá uma olhada. Não havia, ela concluiu, nem uma pequena diferença entre uma casa e a seguinte; ela só as compararia a uma chocadeira de galinhas. E uma chocadeira era duas vezes maior que Shavshvebi.

Como eles irão chamá-la? Baixa Shavshvebi? ela perguntou e com genuína curiosidade, Será que eles conseguirão encontrar refugiados suficientes?

Dois meses depois da Guerra na Ossétia do Sul, líderes da Geórgia estão certos de que o encravamento separatista deve retornar à Geórgia. Mas também já estão a caminho de construir sete mil casas preparadas para o inverno, a uma velocidade que chocou os voluntários humanitários internacionais, para refugiados que não terão condições de voltar para casa. Em torno de 31 mil pessoas estão nessa categoria e o presidente Mikheil Saakashvili prometeu que cada um deles terá uma nova casa antes do dia 15 de dezembro.

Este é um esforço impressionante, especialmente para um país que nunca lutou pelos 220 mil refugiados que fugiram da Abkhazia depois da guerra no começo dos anos 90. Uma grande população de pessoas sem casa, morando em constante esperança de voltar para casa, coloca a sociedade em uma posição de problemas difíceis. Mas também pode ser usado para chegar a um acordo, demonstrando a urgência desse retorno.

O projeto de construção imediata é um reconhecimento da realidade, disse Margaret Vikki, diretora da Geórgia do Conselho de Refugiados Noruegueses. Durante 15 anos após a guerra de Abkhaz, ela disse, eles nunca pararam de falar sobre retorno. Havia sempre uma retórica sobre Próxima primavera em Abkhazia. Isso acabou completamente.

Era uma questão que preocupava os trabalhadores ¿ muitos deles também eram refugiados ¿ enquanto colocavam cimento nas paredes de blocos cinza nas casas. Cada um tinha uma resposta diferente para quanto tempo os refugiados iriam viver nas casas que estavam construindo, mas eles contavam em meses, não em anos.

Iremos retornar quando os russos partirem; isso acontecerá quando nos juntarmos à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), disse Makhmoud Akatouri, 40, que perdeu 11 cabeças de gado e 15 colônias de abelha quando os russos ocuparam a Ossétia do Sul. O estábulo que ele construiu para os gados, ele lamentou, era do tamanho de uma das casas novas. Em um lugar de trabalho próximo, Zakro Kyitsinadze pensava a mesma coisa.

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Alguns construtores são refugiados
Gostamos de ter casas grandes. Agora temos que viver em casas pequenas, disse ele. Mas ele se iluminou quando percebeu que estava falando com um americano. Você irá nos ajudar a nos livremos dos russos? ele perguntou.

Em comparação aos programas de moradia do Estado usados em outras emergências ¿ vêm à lembrança o Furacão Katrina ¿ o programa de construção da Geórgia é rápido e sem burocracia. Equipes de construtores locais disseram que receberiam 3.500 lari, o que é cerca de U$ 2.500,00, para cada casa construída de acordo com as especificações do governo. Eles estão correndo para terminar o máximo de casas possíveis e alguns dizem que estão trabalhando até durante a noite.

Peter Nikolaus, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados na Geórgia, chamou de um movimento muito, muito rápido e decisivo. Sua única crítica, segundo ele, é que as autoridades da Geórgia não deixaram ele e oficiais humanitários saberem sobre os esforços. Eu me senti surpreendido, disse ele. Eu percebi que a construção já tinha começado, estava quase terminada e ninguém havia nos informado.

O tratamento da população de refugiados mostra um contraste absoluto com o que aconteceu há 15 anos, quando milhares de pessoas fugiram lutando no encravamento separatista da Abkhazia. O governo de Tibilisi daquela época, liderado por Eduard Shevardnadze, nunca reconheceu publicamente que os refugiados teriam que reconstruir novas vidas em outros lugares.

Atualmente, 45% do grupo inicial ainda vivem em hotéis e dormitórios, disse Julia Kharashvili da Associação de Mulheres do IDP, um grupo de advocacia para os deslocados internos.

Em uma conferência à imprensa em Bruxelas, nesta quarta, o primeiro-ministro Lado Gurgenidze disse que a Geórgia gastaria cerca de U$ 700 milhões para melhorar as condições para as velhas e novas ondas de refugiados. Ele disse que o dinheiro viria dos U$ 4,55 bilhões da assistência internacional comprometida com esse propósito.

Por ELLEN BARRY

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