Camponeses da África ocidental apostam suas fortunas no preço do arroz

RONKH ¿ Ndeye Sarr Diop mal parece uma jogadora no mercado global de produtos de consumo. Vestindo um brilhante ¿bou bou¿ (traje da África ocidental) marrom e roxo e carregando uma bonita bolsa, ela observou a expansão úmida de sua plantação de arroz. /ela investiu tudo o que tinha e pegou empréstimos de centenas de dólares nesse negócio.

The New York Times |

Eu espero que o arroz me torne rica, disse, passando uma mão pelos caules verdes e passando os dedos nas sementes guardadas em uma caixa.

Esperando tirar vantagem dos altos preços dos alimentos, mundialmente, que trouxeram muitos pobres à nação para o abismo do caos no ano passado, fazendeiros por toda a África Ocidental estão colhendo o que especialistas dizem ser uma das melhores colheitas na memória recente.

Mas após fazer grandes investimentos e pegar grandes quantias emprestadas para expandir a produção, esses fazendeiros também correm o risco de serem destruídos com a queda dos preços globais dos alimentos.

O preço do arroz não processado em Senegal caiu constantemente de seu ponto máximo de US$ 30 por um saco de 50 kg, no começo do ano passado. A queda não foi tão drástica como a que ocorreu com o mercado do milho e do trigo no mundo todo. Mas o preço da carência do arroz tem que ser ao menos U$ 20 para os fazendeiros lucrarem, e com a colheita que ocorreu no ano passado, o preço flutuava em torno de US$ 22 por saco.

Eu estou preocupada, disse Diop, comerciante e fazendeira de 57 anos. Eu posso dobrar meu dinheiro. Ou perder tudo.

Consequências

Fazendeiros e consumidores africanos frequentemente ficam presos com as consequências difíceis da globalização, e quando o preço dos alimentos decolou em 2008, nações africanas pobres com economias liberais sofreram muito.

Em países como Senegal, cuja população de 13 milhões de pessoas consome cerca de 600 mil toneladas de arroz por ano, importações baratas de mercadorias como arroz e trigo de fazendas asiáticas são muito mais eficientes e, frequentemente, subsidiadas pelo governo, acabam inundando o mercado local. As importações expulsam o arroz produzido localmente por ser mais caro.

Então, quando os preços subiram no ano passado e países pararam ou cortaram as exportações em meio ao pânico mundial devido aos suprimentos de alimento, esse país não tinha na verdade um suprimento local para substituí-lo.

Problemas políticos

Com a expansão da crise, o tumulto por causa dos preços altos invadiu nações pobres ao redor do planeta. No Haiti, a raiva era tão profunda que o primeiro-ministro foi forçado a renunciar. Em Senegal, manifestantes irritados amontoaram-se nas ruas exigindo saber o que o governo iria fazer para baixar os preços.

O presidente Abdoulave Wade rapidamente anunciou planos para estimular a produção agrícola, oferecendo sementes subsídio para sementes, fertilizantes e equipamentos, na teoria de que a auto-suficiência era uma questão de segurança nacional.

Mas a crise também apresentou a oportunidade para milhões de fazendeiros ao redor da África: preços altos finalmente tornaram suas colheitas competitivas.

Em Senegal, os fazendeiros olhavam o longo e abandonado vale do Rio Senegal, que segue pela fronteira norte do país com a Mauritânia. Um projeto do governo nos anos 70 construiu canais de irrigação que tornaram 600 mil acres de terra prontos para produzir arroz, mas os fazendeiros eram muito pobres para bancar os materiais para cultivar a terra em larga escala. O projeto foi totalmente abandonado.

Potencial

No entanto, o sonho de criar uma cesta de arroz nunca morreu realmente. A área tem potencial para satisfazer não apenas os mercados locais, mas também aqueles dos países vizinhos, além de produzir trabalhos para o vasto exército de jovens desempregados com poucas esperanças além do sonho em migrar para a Europa.

O arroz é o alimento mais importante da dieta senegalesa ¿ o prato nacional thieboudienne, consiste em peixe e grãos de arroz partidos, cozidos em grosso e apimentado molho de tomate.

Mas o preço da produção de arroz tornou-o localmente mais caro do que importar, e como resultado, os fazendeiros senegaleses produzem uma média de cerca de apenas 80 mil toneladas por ano e, frequentemente, se esforçam para vender esse tanto, de acordo com especialistas do país.

Oscilação

Simplesmente não se recebe por produzir arroz, disse Arona Diakhate, diretor técnico de uma fábrica de processamento de arroz. Para que cultivar algo que não se pode vender? Não faz nenhum sentido.

Quando a crise global de alimentos levou ao aumento dos preços, a equação mudou.

Ibrahima Ly, secretário-geral de Pinord, organização local apoiada pela Oxfam britânica (organização de caridade) para ajudar os fazendeiros a terem acesso a crédito e mercados para suas colheitas, dizem que apenas 70 mil acres de arroz está sendo cultivado. Mais de 500 mil acres podem ser cultivados nesta região, diz Ly, produzindo mais do que o suficiente para alimentar toda a nação e ainda mais gente.

Incerteza

Nós temos um rio de água doce; temos calor, que é bom para o arroz; temos pessoas que precisam de emprego e sabemos como cultivar o alimento, disse. A natureza deu essas coisas, mas precisamos administrá-las e ter certeza de que há um mercado para esse arroz.

É ótimo que cultivadores locais finalmente estejam expandindo a produção, disse ele, mas seus investimentos são incrivelmente frágeis.

Não temos nenhum controle sobre o mercado, disse. Há uma enorme volatilidade e isso torna muito difícil a proteção dos investimentos.

Se os fazendeiros perderem muito dinheiro neste ano, eles provavelmente não arriscarão a plantar novamente, disse Ly, o que poderia ser catastrófico.

Em um relatório divulgado em novembro, a Organização de Comida e Agricultura das Nações Unidas advertiu que os preços baixos nessa temporada poderiam criar uma reprise ainda pior da crise do ano passado ao desencorajar os lavradores a produzir.

Se os preços tivessem que permanecer comprimidos em 2008 e 2009 e as colheitas fossem afetadas no próximo ano, mostra o relatório, uma explosão no preço similar, se não ainda pior, poderia ocorrer em 2009 e 2010, causando uma crise de alimentos mais rigorosa do que a vivida na temporada atual.

Riscos

Essa carta curinga é a aposta para os cultivadores como Mame Bassine Gaye. Comerciante que se interessou pelo cultivo de arroz, ela tem se esforçado para gerar lucros. No primeiro ano, ela tentou o plantio de arroz, suas plantações eram miseráveis e os preços, baixos. Contudo, neste ano, ela deu um jeito, ao pegar um empréstimo de US$ 1 mil de uma cooperativa de crédito local e de membros da família para expandir sua produção.

Gaye avaliou seus 250 acres na vila de Ronkh com a aproximação do fim do ano e a colheitas estava quase começando. Foi uma boa temporada perto de outros lugares da África Ocidenal e ela esperava uma safra cheia.

Se eu ganhar, ganho muito, disse ela. Mas se eu perder, perco muito. Eu estou preocupada por causa das minhas dívidas. Se você não paga eles te cortam. Eu poderia perder tudo.


Por LYDIA POLGREEN

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