Campanha de islandês é uma piada, até ele ser eleito

Comediante aproveita a raiva dos eleitores com a economia do país, prometendo toalhas gratuitas e uma Disneylândia

The New York Times |

A exibição de um urso polar no jardim zoológico. Toalhas gratuitas em piscinas públicas. "Um Parlamento Sem Drogas até 2012". O Melhor Partido da Islândia, fundado em dezembro por um comediante, Jon Gnarr, para satirizar o sistema político do país, lançou uma campanha que não passava de uma grande piada. Mas era só isso mesmo?

No mês passado, após o colapso financeiro do país, o Melhor Partido ascendeu como o grande vencedor das eleições da cidade de Reykjavik, com 34,7% dos votos, e Gnarr - que também prometeu a estudantes que construiria uma Disneylândia no aeroporto - agora é o quarto prefeito em quatro anos de uma cidade que abriga mais de um terço da população de 320 mil pessoas da Ilha.

Em seu discurso, ele tentou acalmar os temores dos outros 65,3%. "Ninguém deve ter medo do Melhor Partido", disse, "porque ele é o melhor. Se não fosse, seria chamado o Partido Ruim ou o Pior Partido. Nunca trabalharíamos com um partido assim".

Gnarr, um ruivo de 43 anos, é mais conhecido no país por representar na televisão e cinema o personagem Georg Bjarnfredarson, um marxista educado na Suécia, desagradável, calvo, de meia-idade, cuja infância foi arruinada por uma mãe militante feminista.

No entanto, embora sua carreira tenha lhe dado visibilidade, poucos questionam o que realmente o levou ao poder. "É um voto de protesto", disse Gunnar Helgi Kristinsson, professor de ciência política na Universidade da Islândia.

Em um dos primeiros sinais dos problemas financeiros da Europa, os bancos da Islândia ruíram em 2008, mergulhando o país em crise. Em abril, os eleitores ficaram ainda mais perturbados com a divulgação de um relatório que detalhava a extrema negligência, incompetência e tratamento preferencial existente nos níveis mais altos do governo.

Eles estavam prontos para qualquer candidato que não fossem os suspeitos de costume, Kristinsson disse. "As pessoas sabem que Jon Gnarr é um bom comediante, mas elas não sabem nada sobre a sua política", disse. "E, mesmo como um comediante, você nunca sabe se ele está sendo sério ou se está brincando."

Mas, enquanto Gnarr assume o gabinete da prefeitura, ele não parece estar brincando. Gnarr disse que sua ideia para o Melhor Partido nasceu de uma profunda angústia e confusão moral, após o colapso bancário, quando os islandeses debatiam ferozmente sua obrigação de reembolsar os investidores britânicos e holandeses arruinados.

Falando na prática, Gnarr disse que não tinha escrúpulos. "Por que eu deveria devolver um dinheiro que nunca gastei?" questionava, refletindo um sentimento comum no país.

Mas em um nível mais profundo, ele tinha dúvidas. "Me considero uma pessoa muito moral", disse. "De repente, sentia-me como um personagem de uma peça de Beckett, em que você tem obrigações morais para com algo que ainda não tem como entender. Era como 'Esperando Godot'- eu estava no limbo."

* Por Sally Mc Grane

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