Cameron enfrenta desafios além de sua coalizão

Ao assumir há cinco anos liderança conservadora, novo premiê britânico estabeleceu imagem mais progressista para partido

The New York Times |

AFP
Premiê britânico, David Cameron, chega com sua mulher a Downing Street, 10 (11/05/2010)
O Partido Conservador que David Cameron herdou em 2005 não passava de uma desorientada sombra de seu poderoso passado, enfraquecido por intermináveis disputas internas e pela perspectiva de um longo período de inelegibilidade.

Como líder, o tranquilo e seguro Cameron, que se tornou o novo primeiro-ministro britânico na terça-feira , agiu com rapidez para eliminar a velha guarda, substituindo a imagem ruim do partido por uma filosofia mais afável e socialmente progressista que ele chamou de conservadorismo compassivo.

O fato de ele ter sido bem-sucedido é um reflexo de sua tenacidade, perspicácia e determinação . "Uma coisa que Cameron tem é flexibilidade", disse Peter Snowdon, autor de "Back From the Brink: The Inside Story of the Tory Ressurection" ("Evitando a Queda: Os Bastidores da Ressurreição Conservadora", em tradução livre).

“Ele é mais pragmático do que ideológico", disse Snowdon. “Ele não é um político de convicção forte como Margaret Thatcher foi. De muitas maneiras, ele é um conservador antiquado com 'c' minúsculo. Ele foi criado na região rural da Inglaterra e considera coisas como família e o estado da união britânica muito importantes. Mas, para ele, tudo pode ser debatido, discutido e estabelecido para que se forme uma opinião."

David William Donald Cameron nasceu em 9 de outubro de 1966, o que faz dele, aos 43 anos, o mais jovem primeiro-ministro desde que o segundo conde de Liverpool comandou o governo no início do século 19.

Simpático, ágil, informal, seguro de si. Seu charme tranquilo é um vívido contraste à intensidade autodestrutiva e tortuosa do antigo primeiro-ministro Gordon Brown. Por vezes, Cameron parecia deslizar a caminho do poder, tamanha foi a facilidade com que circulou pela política parlamentar britânica.

O terceiro de quatro filhos, Cameron teve uma infância privilegiada em uma pequena vila de Berkshire. Seu pai, Ian, um corretor de ações e presidente do clube de cavalheiros Whites, de Londres, enfrentou adversidades pessoais - pernas deformadas que foram amputadas - com a boa e velha perseverança britânica.

“Meu pai costumava dizer que nada na vida é justo, mas ele e minha mãe acreditavam que era preciso aceitar isso e seguir adiante e lidar com as dificuldades no caminho", disse Cameron ao jornal The Daily Telegraph.

Durante a campanha, ele atenuou seu passado, bem como o de sua esposa, Samantha, cujo pai é um barão e cujo padastro é um visconde. Eles têm dois filhos pequenos - um terceiro filho, Ivan, tinha grave deficiência e morreu no ano passado - e esperam outra criança para o outono. Até onde se sabe, Cameron é um pai ativo e ficou tão perturbado com a morte de Ivan aos seis anos que considerou abandonar a política.

Quando tinha 21 anos, Cameron deu início a uma série de trabalhos políticos no Partido Conservador, começando em seu Departamento de Pesquisa.

Ele concorreu ao Parlamento pela primeira vez em 1997. Ele perdeu, mas foi eleito quatro anos mais tarde, pela segura cadeira conservadora de Witney em Oxforshire.

Mesmo enquanto os conservadores afundavam, incapazes de recriar a glória dos anos de Thatcher e perdendo eleição após eleição, Cameron crescia dentro do partido. Mesmo assim, foi uma surpresa quando ele foi eleito líder - o quarto em oito anos - em um programa que alguns chamam de desintoxicação.

Em meio a reclamações de "tories" (conservadores) da velha guarda, Cameron agressivamente tentou trazer mais mulheres ao partido e ao Parlamento. Ele promoveu questões ambientais e defendeu os direitos dos homossexuais e de parcerias civis.

Ele foi acusado de ter um estilo autocrático e de limitar sua tomada de decisão a um pequeno círculo de conselheiros, muitos dos quais são velhos amigos, como George Osborne.

Cameron causou raiva entre os antigos "tories" ao rejeitar publicamente seus grandes políticos que foram pegos no escândalo de gastos parlamentares do ano passado - aqueles que cobraram dos contribuintes por compras pessoais de adubo, limpeza de canos e conserto de piscinas (muitos deles foram dissuadidos por Cameron a tentar a reeleição).

A grande ideia de sua campanha foi algo que ele chama de a grande sociedade, a noção de que, em vez de depender do governo para suas necessidades, as pessoas deveriam buscar o apoio de comunidades e organizações voluntárias.

Mas seu partido não conseguiu o número necessários de votos para obter uma maioria absoluta no Parlamento. O fato de não terem conseguido uma parcela maior dos votos denota em parte da confusão do eleitorado em relação ao que os conservadores, e seu líder, realmente representam e em parte ao medo que as pessoas têm de que eles não tenham mudado tanto quanto Cameron diz.

Mas Anthony Seldon, um biógrafo político e mestre do Wellington College, disse sobre Cameron:"Ele foi impressionante na campanha eleitoral, de forma totalmente inesperada. Ele não tentou ser o que não é. Ele fala de um país como realmente é, no momento em que precisa recuperar sua fé na política."

*Por Sarah Lyall

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