Camareira que acusou Strauss-Kahn é retratada como quieta e trabalhadora

Ela nasceu em cabana de lama em vilarejo isolado na África, sem eletricidade ou água corrente, e migrou aos EUA em 2002

iG São Paulo |

Ela nasceu em uma cabana de lama em um vilarejo isolado na África, sem eletricidade ou água corrente, a uma caminhada de dez minutos da estrada mais próxima. Analfabeta, foi casada com um primo distante quando adolescente, teve uma filha e logo ficou viúva.

Pouco tempo depois, chegou aos EUA – mais um imigrante anônima aos 20 anos lutando para construir uma nova vida. Ela serviu cozido em um cubículo de um restaurante africano, no Bronx, e mais tarde conseguiu um emprego mais estável, como camareira no elegante Sofitel de Manhattan.

Depois veio o encontro de 14 de maio. A mulher disse às autoridades que foi abusada sexualmente pelo político francês Dominique Strauss-Kahn ao limpar sua suíte no hotel. Agora ela se vê no meio de um escândalo internacional.

The NewYork Times
A vila de Thiakoulle, na Guiné, terra natal da camareira que acusou o político francês Dominique Strauss-Kahn de assédio sexual
Os advogados de Strauss-Kahn afirmaram que analisarão seu caráter a fundo em um caso que coloca a palavra dela contra a dele. Antes de sua prisão, Strauss-Kahn era presidente do Fundo Monetário Internacional e um dos principais candidatos à presidência francesa.

Ele contratou detetives particulares, bem como advogados conceituados que já disseram nos documentos judiciais que têm "informações substanciais" que poderiam "prejudicar gravemente a credibilidade da mulher”. Eles não forneceram mais detalhes.

Em dezenas de entrevistas com pessoas que conhecem a sua vida, a mulher, hoje com 32, é retratada como uma mãe solteira humilde e trabalhadora. As entrevistas foram realizadas em Nova York e em sua terra natal, Guiné, com parentes, vizinhos, colegas de trabalho e ex-empregadores. A própria mulher evitou o público nas últimas semanas e não falou com jornalistas.

"Ela é uma menina de aldeia que não foi à escola para aprender inglês, português, grego ou qualquer outra língua", disse seu irmão mais velho, de 49 anos, cujo primeiro nome é Mamoudou. "Tudo o que ela aprendeu foi o Alcorão. Você consegue imaginar o quanto ela está sofrendo?" "Nem mesmo sei onde está agora", acrescentou.

A mulher, a caçula de cinco filhos, foi criada em uma família profundamente religiosa, segundo Mamoudou e um outro irmão. Ambos os irmãos ainda vivem na aldeia chamada Thiakoulle, onde cresceram com ela.

Seu pai era um respeitado imã local, e quando eram jovens seus filhos estudavam em casa, disseram os irmãos, usando um conjunto de painéis de madeira tradicionais inscritos com passagens do Alcorão.

Quando menina, ela era tímida, protegida e foi criada para respeitar a autoridade. "Antes de sair daqui, ninguém sequer sabia se ela sabia se defender", disse Mamoudou. "Ela nunca entrou em qualquer discussão com ninguém."

"Mesmo se ela estivesse com fome, não dizia", acrescentou durante uma entrevista na casa da família, uma estrutura espartana, de concreto, que substituiu a cabana com teto de palha onde ela nasceu. Livros sagrados encadernados em couro sobre uma mesa. A única foto na parede era a de um homem de barba branca – o pai, já falecido.

Ela viveu na aldeia até quando se tornou adolescente. Então se mudou em busca de trabalho na capital da Guiné, Conacri, a uma distância de 13 horas ao longo de estradas que atravessam a montanha rochosa. Dois meses depois, seu pai a chamou de volta à aldeia. Ele tinha encontrado um marido para ela, um primo distante. Ela não tinha escolha senão obedecer, disseram seus irmãos.

O casal se mudou para uma região a três horas de distância, onde ela deu à luz uma filha. Mas quando o marido adoeceu e morreu, ela voltou à capital, onde Mamadou vivia na época.

Nesse meio tempo, sua irmã mais velha, Hassanatou, havia seguido o marido com destino a Nova York, juntando-se a outros compatriotas que, compelidos pela pobreza, pela instabilidade política e pela ambição, haviam imigrado. Em 2002, a mulher decidiu deixar a Guiné. Ela não falava inglês. "Todo mundo quer ir aos Estados Unidos", disse Mamadou. "Você sabe por que as pessoas deixam a África."

Não está claro como a mulher entrou nos EUA. Nos meses entre setembro de 2001 e setembro de 2002, os Estados Unidos emitiram 4,41 mil vistos para Guiné, a grande maioria para viagens de negócios ou turismo, disseram as autoridades.

Mas quando ela começou seu trabalho como camareira no Sofitel, em 2008, tinha status legal e documentos que permitiam que trabalhasse no país, disseram seus advogados. Ela se estabeleceu no Bronx, onde grande parte da pequena população de seu país natal em Nova Iorque se mistura a outros grupos de imigrantes da África.

A comunidade ainda se recuperava da morte de Amadou Diallo, um vendedor de rua da região da mulher e do mesmo grupo étnico, que foi morto a tiros pela polícia em 1999, em um caso que recebeu ampla atenção pública. Os policiais foram absolvidos depois de prestar depoimento dizendo ter equivocadamente pensado que ele portava uma arma.

A mulher se misturou à comunidade. Ela não parece ser bem conhecida, mesmo em lugares na cidade onde seus compatriotas costumam se reunir.

Depois das orações em poucas mesquitas africanas, os imigrantes da Guiné normalmente frequentam restaurantes da culinária de sua terra natal para comer folhas de mandioca cozidas e ensopado de carne, suco caseiro feito de flores de hibisco e assistir a transmissões de televisão de notícias africanas. Eles compram em lojas que vendem produtos básicos como farinha de milho, inhame, dendê e especiarias.

Ther New York Times
Mamoudou, que se identifica como irmão mais velho da camareira que acusou o político francês Dominique Strauss-Kahn de assédio sexual, é visto em Thiakoulle, na Guiné
Na Guiné, uma ex-colônia francesa, muitas pessoas seguem de perto as notícias da França. De fato, uma das curiosidades nesse caso é que, antes de ser preso, Strauss-Kahn – conhecido no mundo francófono como "DSK" – era provavelmente mais conhecido na Guiné, pelo menos entre as pessoas cultas, do que nos EUA. (Mas não parece que a mulher soubesse quem era Strauss-Kahn antes do encontro no quarto do hotel.)

Depois de chegar da Guiné, a mulher foi um dia ao restaurante afro-americano Marayway, perto de Grand Concourse, no Bronx, em busca de emprego, recordou o proprietário, Bahoreh Jabbie, que a contratou.

Durante vários anos, ela trabalhou no ocupado turno da noite, ajudando Jabbie e sua esposa, Fátima, na cozinha, atrás do vidro à prova de balas ou servindo clientes no restaurante de três mesas. Sua filha, por vezes, passava por ali para uma visita.

Jabbie, um imigrante do Gâmbia, na África Ocidental, disse que a mulher revelou pouco sobre sua vida privada, mas era uma trabalhadora fixa. "Ela foi muito boa comigo", lembrou.

Durante esse período, ela recebeu asilo, disseram seus advogados, embora não tenham revelado qual foi a base de seu pedido de asilo às autoridades federais de imigração.

De acordo com líderes comunitários e advogados de imigração, a maioria dos imigrantes da Guiné que receberam asilo nos últimos anos tem procurado refúgio da perseguição política em seu país, embora outros o tenham requerido a fim de evitar práticas sociais, como a mutilação genital feminina e o casamento forçado.

Um dia, a mulher disse a Jabbie que sairia do restaurante por um salário melhor no hotel Sofitel. Com isso, entrou em um novo mundo, cheio de suites luxuosas a poucos quarteirões da Times Square. Ela era considerado uma boa funcionário lá.

Em suas ligações para a Guiné, seus irmãos lembram, ela só falava de sua filha, agora na adolescência, e nunca sobre o resto de sua vida. Ainda assim, ela poderia contar com a companhia de uma família cada vez maior, com um parente que vive em meio a um grupo de pessoas da África Ocidental no Bronx, onde uma placa de rua e um mural lembram Diallo perto do prédio onde ele foi baleado.

"Aos domingos, ele recebe de 50 a 60 pessoas no quintal sempre que há motivo para comemorar, como um novo bebê", lembra Andre Landers, um policial aposentado e vizinho do parente da mulher.

A única outra dica sobre a vida social da mulher vem de conhecidos que afirmam que ela algumas vezes passava por um restaurante africano, o Cafe 2115, no Harlem, onde ciclistas que transportam turistas e outros clientes comem, socializam e assistem a programas de notícias franceses em televisões de tela plana.

"Ela não é uma mulher ardente", disse um amigo, que não quis ser identificado para que não pareça que está se intrometendo no caso. Em casa, para se divertir, a mulher assiste a comédias nigerianas em DVD, disse o amigo. "Ela assiste a isso todos os dias", acrescentou.

Mas agora a sua vida, antes normal, está sob intenso escrutínio – por jornalistas, advogados e pesquisadores que trabalham para a acusação ou para a defesa. E nos bairros de imigrantes que ela chamou de lar ao longo dos últimos nove anos, os moradores também tentam entender uma mulher que poucos realmente conhecem.

Para boa parte da população da Guiné, que tem ferozes rivalidades étnicas que refletem as tensões em seu país, o caso assumiu uma ressonância especial. A mulher é do grupo étnico Fulani, o maior da Guiné, que sofreu anos de perseguição por outros grupos do país. Muitos Fulani sentem que suas queixas não foram totalmente resolvidas. "Isso desperta o trauma que temos", disse Mamadou Diallo Maladho, um jornalista Fulani que vive em Nova York.

Os irmãos da mulher na Guiné disseram que não falaram com ela desde o suposto incidente com Strauss-Kahn no hotel. Um dos irmãos mostrou um caderno com vários números de celulares de Nova York que, segundo ele, pertencem à sua irmã. Ele tentou ligar para cada um deles, mas ninguém atendeu.

Os irmãos pareciam preocupados e confusos sobre o que está acontecendo. Mas eles disseram que a educação de sua irmã a protegeria no processo contra Strauss-Kahn. "Ela tem fé", disse seu irmão Mamadou. "Ela nunca mudará isso.”

*Por Anne Barnard, Adam Nossiter e Kirk Semple

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