Cadela heróica de base afegã é morta por engano no Arizona

Trazida de volta como heroína aos EUA, Target fugiu e foi confundida com outro cão antes de ser sacrificada

The New York Times |

Quando um homem-bomba entrou em um quartel militar dos Estados Unidos no Afeganistão em fevereiro, não foram soldados americanos, mas cães de rua afegãos, que o confrontaram. Target e dois outros cães rosnaram, latiram e agarraram o homem, que detonou sua bomba na entrada da instalação, mas não matou ninguém.

Os cães eram do distrito de Patan Aw Dand, na província oriental de Paktia, perto da fronteira paquistanesa. Um morreu por causa de ferimentos sofridos na explosão e, meses mais tarde, Target e o outro cão, Rufus, foram levados para os Estados Unidos por uma instituição de caridade e adotados por famílias.

Target – que foi recebida como heroína, chegando a participar do programa The Oprah Winfrey Show – passou a viver com a família do sargento Terry Young, 37 anos, um médico do Exército que testemunhou a bravura dos animais naquela noite e ajudou a tratar os cães e vários soldados dos Estados Unidos que ficaram feridos.

A glória, porém, foi curta. Target, depois de aprender a conviver com o outro cão da família no Arizona, acostumando-se com alimentos para cães e usando uma portinhola própria para sair da casa e aliviar-se, escapou de seu quintal. Ela foi capturada na semana passada e sacrificada por engano.

"Meu filho de quatro anos de idade continua dizendo: ‘Papai, traga Target para casa. Papai, tire o veneno’", disse Young, pai de três filhos, em uma entrevista por telefone, a voz embargada de emoção. "Obviamente, num primeiro momento, houve muita raiva e horror. Agora que alguns dias se passaram, a raiva foi substituída pela tristeza".

Estrela

Dizer que Target era uma vira-lata adorada seria um eufemismo. Além das carícias de Oprah, o cão apareceu em todos os principais canais de televisão em notícias sobre sua mudança para os Estados Unidos e ganhou um prêmio local como o cão do ano.

Target, não acostumada a ser confinada, escapou na tarde de sexta-feira da casa da família Young na região do vale de San Tan, no centro do Arizona. Depois de ser vista à solta, ela foi relatada para o controle de animais do condado de Pinal. Ela foi levada para o abrigo de animais do condado em Florence, onde foi mantida como qualquer outro vira-latas. Como não tinha nenhuma coleira com microchip ou licença do município, sua foto foi colocada no site do abrigo na sexta-feira na esperança de que seu dono pudesse aparecer.

Young viu a foto de Target na sexta-feira e pagou pelo computador a taxa para recuperá-la. Ele, erroneamente pensou que o abrigo fechava no fim de semana.

Quando chegou ao local na segunda-feira, o funcionário encarregado da eutanásia de animais naquele dia havia, aparentemente, pego o cachorro errado e administrada uma injeção letal, cumprindo o que o abrigo chama de “colocar para dormir”.

"Eu estou doente com isso", disse Ruth Stalter, diretor de cuidados e controle de animais do condado, em um comunicado. "Eu tive de passar a notícia para o dono pessoalmente e ele e sua família ficaram compreensivelmente abalados".

Bombardeado com críticas, o condado ordenou uma investigação e colocou a mulher não identificada que sacrificou Target de licença administrativa.

O município ofereceu à família Young os serviços de um conselheiro de luto que se especializa em assuntos de animais de estimação e concordou em reembolsar a taxa de recuperação e renunciar a quaisquer multas, disse Heather Murphy, porta-voz do condado.

"Nós não estamos recuando", ela disse. "Nós erramos e estamos reconhecendo isso".

Mas o destino de Target rapidamente se tornou mais do que uma tragédia familiar. Por causa da fama do cão e seu heroísmo em batalha, uma onda de tristeza tomou conta do país. Uma vigília está prevista para o dia 3 de dezembro para homenagear Target. Young disse que pode espalhar as cinzas do cão, que foram fornecidas pelo abrigo de animais, em um serviço funerário possivelmente no parque onde costumava brincar com Target sem coleira.

Um advogado especializado em questões de animais também entrou em contato com Young, que disse que há possibilidade de uma ação judicial.

Aproximação

Lembrando aqueles dias difíceis no Afeganistão, Young disse que, talvez porque ele e os outros soldados estavam vivendo como cães, eles se aproximaram dos vira-latas que entraram na base.

"Nossos quartos podiam ser confundidos com canis com pisos de cimento, cheiro de urina e fezes, arame farpado e cercas em torno de todo o prédio", ele escreveu para o jornal de sua cidade natal de Oklahoma poucos dias depois de Target se juntar a ele em agosto.

Target tinha sua própria página no Facebook para quem queria acompannhar a sua nova vida nos Estados Unidos. Desde que a notícia de sua morte se espalhou, os fãs têm escrito sobre seu choque e indignação.

A página tem sido usada para organizar uma campanha destinada aos oficiais do condado que busca expressar indignação com o que aconteceu. O Centro de Defesa da Vida Animal usou a morte de Target para escalar o perfil de sua campanha em acabar com a eutanásia de milhões de cães e gatos em abrigos todos os anos.

E a Missão Resgate de Filhotes, organização que arrecadou milhares de dólares para trazer Target para os Estados Unidos, tem expandido sua tarefa de incentivar os donos a instalar microchips em seus animais para que eles possam ser facilmente rastreados.

A investigação oficial sobre o que aconteceu irá além do erro de um funcionário e deve analizar todas as políticas do abrigo, disseram as autoridades. Um ex-funcionário já chegou a dizer que ele quase sacrificou o animal errado em várias ocasiões.

"Eles disseram: ‘Ah, não se preocupe com isso, erros acontecem’ e seguimos adiante", disse o ex-funcionário, Jason Melroy, à emissora de televisão local KTAR. "Eu sedei um cão que não era para ser colocado para dormir. Graças a Deus que um outro oficial descobriu".

*Por Marc Lacey

    Leia tudo sobre: cãoafeganistãotargetarizonaeua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG