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Buscando quem inventou os rumores sobre o painel da morte

WASHINGTON ¿ O persistente boato de que as propostas do presidente Barack Obama criariam um ¿painel da morte¿ patrocinado pelo governo, para decidir quais pacientes deveriam viver parece ter vindo de lugar nenhum.

The New York Times |

Promovida por partidários republicanos, nesta semana ¿ incluindo Sarah Palin, candidata à vice-presidência pelo partido em 2008, e Charles E. Grassley, senador veterano de Iowa ¿, a fonte da afirmação parece partir daquelas campanhas virais da internet, dos dias modernos, as quais também seguiram Obama no ano passado, chamando-o de mulçumano e questionando sua nacionalidade.

Mas o rumor ¿ que surgiu nos encontros congressistas, desta semana, apesar da avalanche de notícias se perguntando por que o relato era falso ¿ não veio de internautas anônimos, blogueiros partidários ou teorias furtivas sobre uma cyberconspiração. Ao invés disso, ele é proveniente de um movimento muito mais central, que emana abertamente de mídias eruditas e conservadoras há meses.

Esses meios foram essenciais para derrotar as propostas do presidente Bill Clinton para o sistema de saúde, há 16 anos, incluindo o quadro de editoriais do The Washington Times, a revista American Spectator e Betsy McCaughey, cuja crítica à saúde, em 1994, a tornou uma estrela do movimento conservador (e, recentemente, vice-governadora).

Não há nada em nenhuma das propostas legislativas que fala a respeito da criação de painéis da morte ou qualquer outro corpo governamental que cortaria os cuidados médicos de pessoas muito doentes como uma medida de cortar gastos.

Distorção

Mas, no curso dos últimos meses, conservadores antiaborto demonstraram um medo de que Obama seguisse uma agenda pró-aborto e pró-eutanásia. Esse temor se uniu a insinuações distorcidas das propostas atuais, que pretendem fornecer financiamento para consultas com médicos sobre casas de repouso e outros serviços para o fim da vida, alimentando os rumores a ponto de gerar um debate.

Nesta quinta-feira, Grassley disse em uma declaração que ele e outras pessoas no pequeno grupo de senadores que tentava negociar um plano para o sistema de saúde descartaram qualquer tipo de proposta sobre fim da vida.

O plano pendente da Casa parece autorizar a Medicare a financiar consultas beneficiárias com profissionais sobre possíveis autorizações para intervir no salvamento da pessoa em seus últimos anos de vida. Apesar de os conselheiros serem voluntários e uma provisão similar ter sido aprovada no Congresso sem tanto furor no ano passado, Grassley disse que esta estava sendo derrubada pelo Senado porque poderia ser mal interpretada e implementada incorretamente.

O nível a que essa e outras provisões podem chegar tem sido mal interpretado nos últimos dias. Isso tanto pela raiva partícula dos porta-vozes em encontros políticos, mas também por Palin ¿ que popularizou a expressão painel da morte ¿ surpreendeu defensores das mudanças no sistema de saúde há muito tempo.

Eu acho que o que me deixou surpreso foi a crueldade, é muito mais forte do que esperava, disse John Rother, vice-presidente executivo da AARP, que apoia as propostas para o sistema de saúde e já declarou várias vezes que os rumores sobre o painel da morte é falso. São pessoas ideologicamente contrárias ao Sr. Obama e essa é uma oportunidade para enfraquecer o presidente.

História antiga

O espectro do financiamento público, a eutanásia forçada, foi levantado já em 23 de novembro, apenas a algumas semanas após a eleição e muito tempo antes de qualquer legislação ser traçada, por um veículo completamente contra Obama, The Washington Times.

Em um editorial, o jornal lembrou seus leitores do Aktion T4, ou Programa da Eutanásia, na Alemanha Nazista em que crianças e adultos com debilidades e qualquer um no Terceiro Reich estavam sujeitos à execução, cegos, surdos, senis, retardados ou qualquer um com más condições neurológicas significativas.

Apontando para as predições administrativas da nova equipe da Casa Braça, o texto encorajava qualquer um que visse o clima atual como um começo de um programa como o T4, para ganhar os corações e mentes dos contrários.

O editorial abrangeu outras preocupações em relação à filosofia de Obama sobre o direito de abortar, o que foi mantido entre conservadores americanos que não votaram nele. Mas ele não diz diretamente que a eutanásia forçada está nos planos de Obama e de seus aliados democratas no Congresso.

Acusações

Quando os democratas incluíram dinheiro para o planejamento familiar, em uma versão do plano de estímulo proposto em janeiro, o conservador George Neumayr escreveu para o Público Americano: eutanásia é outro trabalho prolongado de Pelosi para consignar com os Estados. Afinal, reduzir os custos no sistema de saúde com o plano de Obama também conta como um estímulo econômico ¿ controlar a vida, a morte e os custos. McCaughey, crítica do plano de Clinton, em 1994, discutiu raivosamente após sua publicação no The New Republic, que obteve atenção similar na mesma época.

Ela avisou que a provisão no pacote de estímulo criaria uma burocracia para monitorar tratamentos para garantir que seu médico esteja fazendo o que o governo federal considera adequado e com um custo eficiente. O comentário foi escrito para o Bloomberg News que ganhou uma ressonância entre as mídias conservadoras, especialmente entre Rush Limbaugh e o âncora do Fox News Channel Glenn Beck.

Explicação

A legislação não levou o coordenador a ditar os tratamentos aos médicos. Uma parte separada da lei ¿ sobre um conselho montado para coordenar uma pesquisa comparativa sobre a eficiência dos tratamentos ¿ coloca que as recomendações do conselho não podem ser interpretadas como mandatos ou guias clínicos para pagamento, cobertura e tratamento.

Mas o artigo de McCaughey forneceu mais uma oportunidade de levantar o espectro da eutanásia forçada a outras pessoas. Às vezes, pelo bem comum, você tem que apenas dizer, ei, vovô, você teve uma vida boa, disse Beck.

O colunista do sindicato conservador Cal Thomas escreveu que ninguém deveria ficar surpreso com a chegada da adoção da eutanásia.

O editorial do The Washington Times repetiu sua referência aos nazistas, citando o programa Aktion T4: deve ficar claro para qualquer um que sofra de uma doença incurável que o desperdício inútil de medicações caras do fornecimento público não pode ser justificado.

Reação democrata

O pensamento foi levantado por muitos grupos conservadores, mas ainda assim, como Obama e o Congresso permaneceram concentrados em outras questões, o assunto não chamou muita atenção. O ex-senador Tom Daschle, democrata de Dakota do Sul, defensor das propostas para a saúde, disse que, às vezes, confronta a acusação da eutanásia forçada em fóruns sobre os planos, mas começou a ver o fato como uma vantagem. Quase todas as pessoas racionais não acreditarão nessa afirmação.

Mas enquanto o Congresso desenvolve sua legislação durante o verão, críticos se agarram às provisões que demandam o financiamento da Medicare para consultas no fim da vida, trazendo o debate ao seu auge.

Para David Brock, ex-jornalista conservador que contestou os Clintons e agora dirige um grupo defensor da oposição a ataques aos liberais, a comoção é um lembrete do que foi mudado ¿ a criação de grupos como os dele ¿ e o que não foi.

Nos anos 1990, todo tipo de deturpação era feito sobre os planos de Clinton e não havia uma capacidade real de voltar atrás, disse. Agora, há essa possibilidade.

Ainda assim, um proponente da teoria da eutanásia, Neumayr, disse que não vê razão para parar as reivindicações.

Eu acho que o plano do governo, administrado por políticos e burocratas que apoiam a eutanásia, inevitavelmente irá refletir nessa visão e eu não acho que isso seja uma atitude louca.


Por JIM RUTENBERG e JACKIE CALMES


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