Blog de palestino enfurece muçulmanos na Cisjordânia

Waleed Hasayin é suspeito de ser blogueiro que chamou Deus islâmico de primitivo e classificou Maomé como 'maníaco sexual'

The New York Times |

É difícil imaginar que uma lan house suja e tomada pelo zumbido de moscas na cidade de Qaloilya, na Cisjordânia, possa ter gerado um blogueiro que irritou os muçulmanos do mundo cibernético promovendo o ateísmo, compondo paródias de versículos do Alcorão, zombando do estilo de vida do Profeta Maomé e adotando online a alcunha God Almighty (Deus Todo-Poderoso, em tradução livre).

Mas muitas pessoas em Qalqilya parecem convencidas de que esse apóstata do Facebook é um jovem reservado que passava sete horas por dia no computador do canto desse estabelecimento de rua. Até recentemente, Waleed Hasayin levava uma existência relativamente anônima como um formado em ciência da computação desempregado que ajudava seu pai algumas horas por dia na barbearia da família. Vários conhecidos o descrevem como um "cara comum", que reza na mesquita toda sexta-feira.

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Foto de Waleed Hasayn em computador de uma lan house em Qalqilya, na Cisjordânia
Desde o fim de outubro, porém, Hasayin – que tem 20 e poucos anos – está detido na sede da agência de inteligência da Autoridade Palestina, suspeito de ser o blogueiro blasfemo que atende pelo nome de Waleed Al-Husseini. O caso chamou a atenção para temas espinhosos como a liberdade de expressão na Autoridade Palestina, onde insultar a religião é considerado ilegal, e a colisão cultural entre uma sociedade conservadora e a internet.

Ainda que Hasayin tenha conquistado alguma admiração no exterior, no Facebook algumas pessoas pedem sua execução. Outras pessoas formaram um grupo solidário para apoiá-lo no site de relacionamentos e várias petições foram criadas online em sua defesa.

Em sua cidade natal, a reação parece ser uniforme e de fúria. Muitos aqui dizem que se ele não pedir desculpas deveria passar o resto de sua vida na prisão. "Todo mundo aqui é um muçulmano, então o que ele fez foi contra todo mundo", disse Alaa Jarar, 20 anos, que descreveu a si mesmo como uma pessoa não particularmente devota. "As pessoas estão com raiva dele e não irão respeitar a Autoridade Palestina se ele for libertado. Talvez ele seja um agente do Mossad que trabalha para Israel".

Ensaios em árabe

Além de suas páginas no Facebook, que já foram excluídas, Husseini, a persona online, também publicou ensaios em árabe em um blog chamado Noor Al-Aqel (Iluminismo da Razão, em tradução livre) e em inglês no Proud Atheist, identificando-se como "um ateu de Jerusalém, Palestina".

Os ensaios oferecem alguns argumentos relativamente sofisticados em um estilo rude e atrevido. Em um deles, intitulado "Por que eu deixei o Islã", Husseini escreveu que os muçulmanos "acreditam que alguém que deixa o islã é um agente ou um espião de um Estado ocidental, ou seja, do Estado Judaico".

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Graffiti em muro em Qalqilya, onde Hasayin viveu escondido até ser preso
Ele acrescentou: "Eles realmente não entendem que as pessoas são livres para pensar e acreditar em tudo o mais que lhes convier". E então descreveu o Deus islâmico como "um Deus primitivo, beduíno e antropomórfico", e Maomé como "um maníaco sexual" que não cumpriu suas próprias regras "para aplacar seu desejo voraz".

Suas descrições parecem distantes da ideologia da cidade de Qalqilya, uma região conservadora com mais de 40 mil habitantes, onde carroças puxadas por cavalos passavam pelas ruas esta semana e o mercado estava agitado em antecipação ao feriado muçulmano que marca o fim da peregrinação anual a Meca, na Arábia Saudita.

A prisão de Hasayin causou tumulto desde que foi relatada pela agência de notícias independente palestina Maan. Há também pessoas que questionam se ele poderia ter escrito todo esse material sozinho.

Feitiço

O pai de Hasayin, Khaled, estava relutante em falar. Claramente chateado e envergonhado, ele disse que seu filho estava em tratamento e havia sido "enfeitiçado" por uma mulher da Tunísia que conheceu via Facebook. Antes de enxotar os repórteres de sua barbearia, onde um verso do Alcorão emoldurado está pendurado na parede acima de potes de gel de cabelo, ele disse que o árabe literário de seu filho não é bom o suficiente para que ele possa compor versos corânicos falsos.

Um parente de Hasayin disse: "É verdade que ele estudou computadores, mas ele não é um filósofo".

Na sede da agência de inteligência local, os oficiais pareciam agir com cuidado em relação à prisão. Falando sob condição de anonimato devido à natureza possivelmente explosiva do caso – “Versos Satânicos” de Salman Rushdie levou a protestos e ameaças de morte em 1980, assim como caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, em 2005 – os oficiais disseram que não revelariam detalhes sobre Hasayin enquanto ele ainda estivesse sob interrogatório. Eles disseram que teriam de agir de forma justa e com sensibilidade no caso das suspeitas se revelarem falsas ou exageradas.

Segundo eles, Hasayin não foi autorizado a receber visitas. Hasayin, eles acrescentaram, lhes disse que não precisaria de um advogado. Os oficiais também disseram que ele está detido, em parte, para sua própria proteção.

Silêncio

Grupos de direitos humanos palestinos na Cisjordânia, até agora, permanecem em silêncio sobre a prisão de Hasayin. Mas Majed Arouri, especialista em direitos humanos em Ramallah, disse acreditar que a maneira pela qual Hasayin foi detido e sua correspondência gravada "contradiz os princípios dos direitos humanos e as leis palestinas" de respeito à privacidade individual.

Se Hasayin for julgado, segundo Arouri, será de acordo com uma lei da Jordânia de 1960 contra difamação da religião, um mandato ainda válido na Cisjordânia.

Alguns blogueiros já estão comparando Hasayin, ou Husseini, a Kareem Amer, um blogueiro egípcio que foi condenado em 2007 a quatro anos de prisão por insultar o Islã e o presidente egípcio.

Na lan house que Hasayin frequentava, jovens jogavam bilhar e olhavam fotos de garotas online durante a tarde. O proprietário, Ahmed Abu Asab, disse que seis semanas atrás ele descobriu que Hasayin "não era um cliente comum".

Suspeita

Abu Asab disse ter suspeitado das atividades de Hasayin porque ele não deixava ninguém chegar perto e ver no que ele estava trabalhando. Abu Asab disse: "No começo eu achava que ele estava olhando sites pornográficos e conversando com meninas. Isso seria normal e não seria da minha conta".

Abu Asab disse que usou um software que lhe permitiu verificar o que o cliente estava fazendo e, entre outras coisas, ele se deparou com a página do Facebook em que Hasayin parecia estar falando em nome de Deus. Abu Asab disse que ele e três amigos sabiam o que estava acontecendo e que "talvez alguém" tenha informado as autoridades.

Abu Asab manteve cópias das páginas, e oficiais da Autoridade Palestina vieram e baixaram o material. Em seguida, eles vieram prender Hasayin, que pediu um momento para fechar o que estava em sua tela.

*Por Isabel Kershner, com reportagem de Khaled Abu Aker

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