Blecautes testam paciência de iraquianos com seus líderes

Enquanto tropas de combate dos EUA se preparam para deixar Iraque, governo do país ainda não consegue oferecer serviço de energia

The New York Times |

Acompanhada por um batalhão de policiais, Ikbal Ali descobriu rapidamente o que procurava sob o calor do verão local: ladrões de eletricidade. Seis fios negros puxados de um poste até uma garagem mecânica, colhendo o que o esgotado sistema de energia elétrica do Iraque proporciona.

"Tirem todos", pediu Ali, enviando um trabalhador em um guindaste para acabar com a conexão ilegal. O proprietário da loja, Haitham Farhan, respondeu ironicamente, usando as palavras agora proferidas em todo o Iraque como uma maldição: "Maku kahraba" - "Não há eletricidade".

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Mulher caminha embaixo de fios de energia em bairro de Bagdá, no Iraque

Desde o início da guerra, há mais de sete anos, a situação da energia tem sido uma das questões acompanhadas para avaliar o progresso do país e do esforço americano em transformar uma ditadura em democracia.

Ainda assim, conforme a missão de combate americana - Operação Liberdade Iraquiana, no jargão do Pentágono - termina oficialmente este mês, o governo do Iraque ainda se esforça para oferecer um dos serviços mais básicos.

A campanha de Ali contra o roubo de energia elétrica - uma cura tardia para um sistema quebrado - mostra o legado misto que os Estados Unidos deixam para trás conforme o Iraque começa a governar a si próprio.

A crônica escassez de energia resulta de diversos fatores, incluindo guerra, seca e corrupção, mas em última análise, reflete um governo disfuncional que se mantém num impasse e sem resposta à vontade popular.

Isso tem gerado descontentamento e contestação, incluindo protestos ao longo do verão que, apesar de violentos em dois casos, foram uma medida diferente das novas liberdades do país.

O legado da invasão americana hoje, como o da própria guerra, continua a ser uma questão disputada.

Mesmo iraquianos que suspeitavam dos motivos americanos acreditavam que a derrubada de Saddam Hussein iria trazer um governo moderno e competente ao país.

No entanto, as ruas estão cheias de lixo, a água potável está contaminada, os hospitais são sombrios e muitas vezes inseguros e prédios bombardeados pelos americanos em 2003 ou por insurgentes desde então permanecem em ruínas.

O que está claro é que as expectativas dos iraquianos de um suprimento confiável de eletricidade e outros serviços, como suas expectativas pela própria democracia, têm excedido o que os americanos ou políticos locais foram capazes de oferecer.

Antes da invasão do Kuwait por Saddam Hussein 20 anos atrás, o Iraque tinha capacidade para produzir 9.295 megawatts de potência elétrica. Em 2003, após ataques americanos e anos de sanções internacionais, o país oferecia apenas a metade disso.

Agora os Estados Unidos estão abandonando projetos de reconstrução, deixando outros inacabados e alguns, já em ruínas, nas mãos dos governos nacionais e provinciais que até agora parecem relutantes ou incapazes de mantê-los adequadamente.

O ministro interino de eletricidade, Hussain Al-Shahristani, disse em uma conferência de investimentos em julho que o Iraque iria acrescentar 5.000 megawatts de energia até 2012, mas reconheceu que isso não irá atingir a demanda.

A questão hoje é saber se os eleitores podem forçar seus líderes a agir - e se serviços apenas moderadamente funcionais vão piorar conforme os Estados Unidos deixam o país.

Por Steven Lee Myers

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