Biólogo ensina genética a juízes dos EUA

Nos fins de semana, Evans, com o patrocínio do Advanced Science and Technology Adjudication Resource ¿ um programa obrigatório proposto pelo congresso ¿ ensina genética aos juízes do país.

The New York Times |

Evans, 49 anos, foi entrevistado recentemente em Nova York; ele esteve na cidade para realizar uma palestra no World Science Festival.

PERGUNTA: Por que os juízes têm que saber sobre sua genética?

EVANS: Porque eles freqüentemente enfrentam casos que se baseiam na genética. E muitos não sabem o que é o DNA. Talvez tenham uma vaga idéia, mas não entendem os pontos delicados.

Se eles estão em uma corte criminal, vêem cada dia mais casos de homicídio e assédio sexual onde a evidência do DNA é usada para identificar o culpado. Na corte civil, eles observam casos sobre quem detém informação genética e sobre se o ambiente ou uma disposição genética causou câncer na pessoa que entrou com o processo. O câncer é a maior causa única de processos contra negligência médica ¿ e ele é, em seu nível mais elementar, uma doença genética. Esses juristas observam casos onde a questão é: O câncer dessa pessoa foi desencadeado por fatores ambientais ou foi causado por uma pré-disposição genética?

Muitos desses juízes afirmam temer que a falta de conhecimento científico possa levá-los a cometer erros. Eles dizem que não sabem como avaliar uma evidência de DNA. Temem levar um banho de testemunhas especialistas.

P: Os juízes são o tipo de pessoa que podem ter medo da ciência?

EVANS: Essa é uma grande questão. Sim! Muitos juízes relatam que fizeram o curso preparatório de Direito porque não envolvia ciências. Um dos meus juízes favoritos, um homem brilhante, se orgulha de dizer às pessoas que ele levou bomba em ciências no jardim da infância. Então, nesses workshops, me vejo como um novo tipo de professor moderno de ciências, instruindo adultos extremamente inteligentes e notáveis sobre os fundamentos da ciência.

P: Como você faz isso?

EVANS: Tento desmistificar tudo sobre a ciência, especialmente genética. Começo dizendo a eles exatamente o que é o DNA e como o encontramos. Fazemos um mini-laboratório onde eles isolam seus próprios DNA e o observam. Quando eles podem pegá-lo com as próprias mãos, ao mito se desfaz. Então, descrevo como usamos o DNA para identificar um individuo único. Falamos sobre as armadilhas de fazer um teste de DNA. Uma vez assimilados os conceitos básicos, simulamos uma corte, onde inventamos padrões de acontecimentos em casos hipotéticos que envolvam DNA. Pedimos aos juízes para especular sobre como usariam o teste de DNA e por quê. Podemos falar: Você tem um caso de assassinato onde o DNA de um suspeito foi encontrado no porta-malas do carro de uma vítima. Sob que condições essa evidência seria de culpa?

P: E a resposta é¿?

EVANS: Se o acusado era amigo da vítima, eles podem ter carregado algo para dentro da mala do carro e o DNA foi parar ali. Mas se o acusado não conhecia nem de longe a vítima, ponto para a acusação. O DNA de humanos deixa rastros facilmente. Nosso teste é altamente sensível. Se o DNA está onde não deveria ¿ digamos, na vagina de uma vítima de estupro ou na cena do crime ¿ pode incriminar alguém. Acho que os juízes gostam da característica prática do nosso curso. Depois de um workshop recente, um juiz me perguntou: Exatamente quanto DNA tem em um nanograma? Quando o informei que o DNA no nosso tubo de ensaio tinha 10 mil vezes mais que um nanograma, ele ficou aliviado. Ele havia acabado de decidir sobre um caso que dependia da quantidade de DNA encontrada na cena do crime. Ao trabalhar com seu próprio DNA, ele viu que tinha tomado a decisão correta.

 P: Genética behaviorista é a nova área de estudo do momento. Os juízes da corte criminal estão começando a ver casos de defesas baseadas no argumento meus genes me obrigaram a fazer isso?

EVANS: Sim. Sabemos que alguns comportamentos anti-sociais ¿ vício em drogas, alcoolismo, tendência à violência ¿ têm componentes genéticos. Assim, pode-se facilmente imaginar as coisas chegando a um nível tal de pré-disposição e o juiz dizendo: Meu cliente é tão responsável por suas ações quanto um doente mental. Na verdade, esses argumentos não têm ido muito longe ¿ ainda. Um juiz, depois de aprender sobre genética behaviorista, me disse: Se isso ficar comprovado, todo o nosso conceito de culpabilidade em crime e punição terá que ser reconsiderado.

P: Cientistas e juízes têm muito em comum?

EVANS: Bem, um cientista quase nunca afirma algo com certeza absoluta. Tudo é uma teoria, a ser refutada ou adaptada mais adiante. Juízes também se preocupam muito com a certeza das conclusões. Juízes estão acostumados a pensar a verdade como um conceito elusivo. Muitos juízes, quando você fala sobre a verdade, viram os olhos. Dizem: Não sei o que dizer sobre a verdade. Mas sei de possibilidades.

P: E não é isso que você faz ¿ trabalhar com probabilidades?

EVANS: Sim, é isso que faz um geneticista. Só queremos saber de probabilidades. Na minha clínica de medicina genética, quando atendo alguém que fez exames genéticos, posso dizer: A mutação BRCA2 que você descobriu ter traz de 50 a 58% de risco de câncer de mama e um risco de 25% de câncer ovariano.

P: É uma probabilidade enorme. O que mais você diz a essa paciente?

EVANS: Digo: Você tem duas escolhas principais. Você pode ficar sob estrita observação, mas, claro, isso não é exatamente uma prevenção. A estratégia mais efetiva é a mastectomia profilática e a retirada dos ovários, o que reduz o risco desses tipos de câncer em mais de 90%.

P: É uma escolha terrível.

EVANS: Mas é tudo o que temos hoje. Posso entender porque muitas mulheres não escolhem essa opção. As que escolhem tendem a ser mulheres que viram muitas mulheres da família morrer de câncer de mama. Veja, quando falamos de medicina genética, o único objetivo de fazer exames é obter informações sobre a qual você pode agir. No momento, há poucas doenças genéticas que podemos fazer algo para prevenir. Câncer de mama e de ovário estão entre elas. Para outras doenças, como Alzheimer e Huntington, o único benefício de saber é para poder planejar a vida. Não existe prevenção.

P: Você gosta do seu trabalho?

EVANS: Com certeza. Com meus pacientes, posso levar uma hora com cada um e mostrá-los como seus genes podem prever o futuro. Uma hora com cada paciente individual é um artigo de luxo atualmente, mas pode salvar vidas. Com os juízes, sinto-me gratificado quando alguns deles me dizem: Meu Deus, agora eu entendo o que é DNA. O que me faz sentir realmente melhor é quando um deles diz: Eu odiava ciências na escola, mas a genética é algo realmente bonito.

James P. Evans, medico e biólogo molecular, ensina genética na Universidade da Escola de Medicina da Carolina do Norte. Ele também dirige o Clinical Cancer Genetics Services, aconselhando pacientes sobre exames genéticos.

-Claudia Dreifus

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