Biografia de espião britânico guardada há 25 anos é revelada

CAMBRIDGE ¿ Após serem guardadas em um contêiner de aço por 25 anos, a Biblioteca Britânica tornou público, nesta quinta-feira, as memórias de 30 mil palavras de Anthony Blunt, um dos britânicos conhecedores de história da arte mais renomados do século 20. Nelas, ele descreve a espionagem feita para a União Soviética, começando no meio da década de 1930, como o ¿maior erro da minha vida¿.

The New York Times |

AP
Imagem das memórias de Anthony Blunt
divulgadas pela Biblioteca Britânica

As memórias oferecem poucas novas visões dos detalhes da espionagem de Blunt, algo sobre o que ele falou pouco publicamente antes de morrer em 1983.

O principal interesse do texto, de acordo com os historiadores, é a descrição de como foi recrutado por outro espião soviético, Guy Burgess, quando ambos estavam na Universidade de Cambridge, nos anos 1930.

Além disso, também mostra seus motivos e sentimentos, incluindo sua desilusão com o marxismo e a União Soviética após a 2ª Guerra Mundial.

A biografia, cuja intenção do autor era ser um testamento para a família e os amigos, foi entregue à biblioteca em 1984, pelo responsável pela concretização das vontades de Blunt, John Golding, na condição de que seria guardado em segredo por 25 anos. Frances Harris, chefe dos manuscritos de história moderna, disse à BBC, nesta quinta-feira, que sua existência era guardada com tanto cuidado que mesmo ela não a havia lido até recentemente.

O tom de arrependimento do texto pelo preço pago por Blunt por trair seu país e também a ausência de desculpas para aqueles que sofreram com suas ações - agentes secretos a serviço da Grã-Bretanha, cujas identidades foram passadas para os soviéticos durante a 2ª Guerra Mundial - contribuiu com as duras críticas do documento, nesta quinta-feira, por historiadores britânicos e comentaristas.

Em entrevistas antes de sua morte aos 75 anos, Blunt rejeitou os conselhos de que deveria se desculpar com aqueles a quem traiu, dizendo, de fato, que seu bom-senso pessoal de moralidade era a lealdade aos seus amigos, incluindo colegas espiões, acima de tudo, e o amor que ele disse posteriormente sentir pela Grã-Bretanha e seu estilo de vida.

Depois que as agências de inteligência britânicas desmascararam Blunt em meados dos anos 1960 como o quarto homem de um grupo de espiões soviéticos, que incluía Burgess, Donald Maclean e H.A.R. Kim Philby, ele conseguiu imunidade ¿ e, por 15 anos, um acordo de que a traição não seria exposta ao público ¿ em recompensa por cooperar com a inteligência britânica. Ele perdeu sua proteção em 1979, quando foi publicamente revelado como espião pela primeira-ministra Margaret Thatcher.

Ao descrever seu recrutamento na NKVD, predecessor da KGB, quando Blunt era tutor e Burgess um estudante no Trinity College em 1935 e 1936, o autor da biografia disse em seu texto que naquele tempo em Cambridge havia inúmeros simpatizantes do marxismo. Em face do advento do poder de Hitler e, mais tarde, devido a Guerra Civil Espanhola, ele disse que percebeu que, a torre de marfim já não fornecia mais refúgios adequados.

Ele fala da pressão que Burgess fez sobre ele ¿ descrevendo-o, nas histórias do período, como uma pessoa que bebia muito, era egoísta e sempre queria aparecer, mas na biografia ele o coloca como uma pessoa extraordinariamente persuasiva ¿ para que se unisse ao trabalho para a inteligência soviética. A atmosfera em Cambridge era tão intensa, o entusiasmo por qualquer atividade antifascista era tão grande que eu cometi o maior erro da minha vida, escreveu ele.

As memórias também revelam que Blunt contemplava o suicídio quando percebeu nos anos 1970 que poderia ser pego. O relato de Thatcher sobre sua espionagem causou sua demissão como Inspetor do Queens Pictures ¿ curador da coleção de arte da coroa real ¿ e lhe foi tirado o título de nobreza a ele conferido por seu serviço à monarquia. Ele ficou mais conhecido entre estudiosos da arte como um especialista no pintor clássico francês do século 17 Nicolas Poussin.

Mas mesmo em sua discussão sobre o suicídio, aqueles que leram o texto disseram que Blunt parece ter pensado primeiro em si mesmo, e em seus amigos e família, e não nas pessoas a quem traiu. Muitas pessoas dirão que isso seria uma saída ilustre, escreveu. Mas disse ter decidido que o suicídio era uma solução covarde, porque deixar àqueles próximos a ele o fardo da revelação da espionagem e o sentimento de perda por sua morte.

Ele também disse que desejava terminar seu trabalho com certo número de projetos de história da arte.


Por JOHN F. BURNS


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