Bin Laden: Por trás de muros altos, vizinhos-modelo abrigavam um fugitivo

Segundo residentes de bairro onde fica esconderijo de Bin Laden, em Abbottabad, moradores de casarão eram educados e nunca causaram problemas

The New York Times |

Em seus últimos dias, Osama bin Laden não esteve cercado por um grupo de seguranças árabes fortemente armados ou mujahedins que lutaram com ele no Afeganistão contra a União Soviética. Em vez disso, ele dependia de dois paquistaneses, um dos quais, de acordo com autoridades dos Estados Unidos, era seu mensageiro de confiança. Os dois homens morreram com ele na invasão dos Estados Unidos à sua fortaleza.

Eles eram conhecidos aqui como Arshad Khan e Tareq Khan, embora um oficial da polícia tenha dito que esse não era o nome verdadeiro de Arshad e que ele portava documento de identidade falso. Embora eles tenham sido identificados como irmãos por autoridades americanas, um vizinho que deu seu nome apenas como Qassim disse que os homens eram primos. Qassim vive em frente ao casarão invadido por forças americanas por volta da meia noite de domingo, e seu pai trabalha como vigia do bairro há muitos anos.

AFP
Esconderijo onde estava Bin Laden, em Abbottabad, no Paquistão
Os homens eram pashtuns de Charsadda, região próxima da fronteira noroeste com o Afeganistão, e se mudaram para Abbottabad sete anos atrás. Ainda não se sabe como eles vieram a conhecer Bin Laden e se os homens eram conhecidos pelos militares ou serviços de inteligência paquistaneses.

Na terça-feira a polícia retirou o cordão de isolamento que cercava a área onde moravam em Bilal Town, um bairro de classe média na extremidade dessa tranquila cidade do interior, permitindo que os jornalistas chegassem até o local.

Ninguém aqui parecia saber que um fugitivo importante vivia atrás dos muros altos, tampouco conheciam bem os dois paquistaneses donos da casa. Mas eles disseram que os homens eram vizinhos-modelo que nunca causaram problemas, cumprimentavam as pessoas educadamente na rua e passeavam com seus filhos nos campos ao redor de sua casa.

Os dois homens estavam na casa dos 30 anos de idade e eram casados, com filhos em idade pré-escolar: Arshad tinha 3 e Tareq, 4, de acordo com a matriarca de uma família que vive em uma viela a cerca de 100 metros do casarão. Ela se recusou a dar seu nome por não querer ser identificada em um jornal.

Nove crianças com idades entre 2 e 12 anos e três mulheres, uma das quais era árabe, foram retiradas do recinto pelo Exército paquistanês após o ataque e levadas ao hospital militar da cidade, disseram oficiais de segurança, que falaram sob condição de anonimato para cumprir o protocolo local. Os números indicam que uma mulher e duas crianças no grupo faziam parte da família Bin Laden. Um oficial de segurança disse que uma filha de Bin Laden ficou gravemente ferida e estava sob os cuidados do hospital, oficiais americanos disseram que a mulher ferida era esposa de Bin Laden.

"Eles estão todos em boas mãos e foram acolhidos em conformidade com a lei", disse o Ministério do Exterior paquistanês em um comunicado na terça-feira. "Alguns deles necessitam de cuidados médicos e estão em tratamento nas melhores instalações possíveis. De acordo com a política local, eles serão entregues aos seus países de origem", disse o comunicado.

Riqueza

O Khan eram ricos, em comparação aos comerciantes, trabalhadores rurais e refugiados afegãos que viviam em torno deles. Eles também eram generosos, pagando 200 rúpias (cerca de US$ 2,40) – o dobro do salário diário – para as pessoas que trabalhavam na casa, e fizeram uma doação para a construção da mesquita do bairro, disse Naheed Abassi, 21 anos, um motorista e trabalhador rural que disse ter trabalhado na construção da casa.

Os homens dirigiam sem motoristas e, uma vez que a casa estava construída, não empregaram um vigia para o portão, geralmente o empregado que é a maior fonte de informações sobre as famílias. Eles tinham dois carros, um utilitário esportivo vermelho e um jipe Suzuki branco, segundo os vizinhos.

Vizinhos disseram que os homens deram explicações diferentes para a sua riqueza, certa vez dizendo que tinham um hotel em Dubai administrado por um tio, que lhes mandava dinheiro, ou que trabalhavam no negócio de câmbio.

Questionados sobre se haviam lutado na jihad no Afeganistão, Abassi, o operário, fez uma careta. "Isso nunca foi muito claro", disse ele. "Eles só interagiam com a gente quando traziam os filhos para brincar", disse ele. "Eles nunca nos disseram por que vieram para cá”. A casa se destaca entre as casas vizinhas por causa de seu alto muro de cimento cinza com arame farpado, mas caso contrário, é uma casa de três andares branca razoavelmente normal, com um terraço fechado e um anexo alto no fundo do quintal que bloqueava a visão das casas vizinhas.

Os homens compraram o terreno e construíram a casa há sete anos, disse Abassi, acrescentando que ele sabia o ano porque sua família construiu sua casa na mesma época. Um oficial de segurança disse que a casa foi construída em 2004, um pouco além dos limites da cidade que contém a Academia Militar Kakul.

Os donos mantinham vacas e búfalos em um pátio ao lado, no lado sul do prédio, onde havia um profundo poço de água e uma pequena casa de guarda. Foi ali que um dos três helicópteros utilizados no ataque dos Estados Unidos foi abandonado e incendiado. No lado norte da casa, várias árvores de álamo formavam um pequeno jardim.

Mulheres

Mulheres que vivem em casas próximas disseram que as mulheres que viviam na casa dos Khans mantinham completa “purdah”, ou a separação dos homens, e não socializavam ou visitavam outras casas. Elas nunca saíam do complexo, exceto em um carro, acompanhadas por seus maridos e totalmente cobertas. Além das duas esposas dos proprietários, uma tia que morava com eles também saía no carro com eles, segundo algumas das vizinhas.

A família nunca convidou ninguém para sua casa e nunca visitou outras casas da região, embora tenham participado das orações na mesquita e funerais no bairro, segundo vizinhos.

Quando as crianças brincando nos campos deixavam uma bola cair no casarão por engano, os proprietários nunca deixavam que pegassem de volta, mas davam a eles 50 rúpias para comprar uma nova, disse uma vizinha com um menino pequeno no colo que deu seu nome apenas como Bibi.

Mesmo depois que as crianças começaram a jogar bolas dentro do prédio com o propósito de obter mais dinheiro, os proprietários continuaram pagando, disse ela, rindo.

*Por Carlotta Gall

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