Bibliotecas presidenciais recordam Reagan e Nixon de formas diferentes

Enquanto biblioteca de Ronald Reagan exalta feitos de seu mandato, a de Richard Nixon abre ao público Exposição Watergate

The New York Times |

Quando os republicanos se reuniram na Biblioteca e Museu Ronald Reagan para o debate presidencial da semana passada, em Simi Valley, na Califórnia, o pano de fundo era uma exposição sobre a presidência de Reagan, supervisionada pelo olhar atento de Nancy. A mostra pretende, em parte, ser uma descrição mais completa do mandato do ex-presidente, substituindo o que muitos viram como um governo camuflado pela adoração.

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Um retrato de Ronald Reagan, o 40º presidente dos Estados Unidos marca a entrada da Biblioteca Ronald Reagan, em Simi Valley

Mas uma outra exposição acaba de ser aberta ao público em outro museu presidencial não muito longe dali – a instalação Watergate na Biblioteca e Museu Presidencial Nixon em Yorba Linda – e representa um gritante desafio ao tributo a Reagan, expondo os sentidos diferentes que esses dois museus escolheram para lembrar os dois ex-presidentes e as diferentes posições que eles ocupam na memória do Partido Republicano e do país.

"A biblioteca Reagan permanece como as bibliotecas presidenciais eram no passado", disse Jon Wiener, professor de história da Universidade de Califórnia, Irvine. "A biblioteca Nixon representa o novo tipo de museu que apresenta uma visão mais histórica, com todos os seus problemas."

A exposição Watergate é detalhada, ousada, sem remorsos – "O que o presidente sabia, e quando ele soube disso?" pergunta um painel que recebe os visitantes – e foi rejeitada por apoiadores leais de Nixon. Eles não compareceram à cerimônia de abertura e não ofereceram apoio financeiro, e, na semana passada, um dos responsáveis pelo museu renunciou seu posto em protesto.

Por outro lado, a renovada biblioteca Reagan – "Ele lutou pela liberdade, ele quis mudar a nação", um vídeo introdutório informa aos participantes – foi financiado e desenvolvido pela Fundação Reagan. Nancy Reagan aprovou a maior parte do conteúdo da biblioteca, disseram as autoridades. Os participantes do debate para convidados foram encorajados a ver a exposição, que foi aberta ao público em fevereiro.

Ambos os museus são geridos pelo Arquivo Nacional, depois de terem sido construídos por partidários de cada presidente. A influência da Fundação Reagan no museu reflete tanto a rede extensa de família, amigos e colaboradores que fazem parte da fundação, que financia muitas das atividades do museu, e a popularidade duradoura do ex-presidente.

Por outro lado, a Fundação Nixon, como parte de uma longa negociação que levou o Arquivo Nacional a assumir o museu e transferir documentos de Nixon para o local, deram autonomia para o Arquivo na reforma do museu.

O resultado na biblioteca Reagan é um relato decididamente modesto do caso Irã-Contras, o grande escândalo que atingiu o seu governo, evitando o estabelecimento da culpa a alguém. Há também uma simpática contabilização do impacto das políticas econômicas de Reagan que tem atraído perguntas dos democratas e historiadores econômicos.

A menção da primeira esposa de Reagan, a atriz ganhadora do Oscar Jane Wyman, é tão fugaz que é fácil de ser perdida sob a enxurrada de exposições sobre os vestidos de Nancy Reagan e sua dedicação ao marido.

Enquanto a biblioteca de Nixon marcou o 40 º aniversário da publicação dos Documentos do Pentágono abrindo o acesso aos documentos – um gesto que foi mais simbólico do que qualquer outra coisa – não há nenhum plano para marcar o 25 º aniversário do escândalo Irã-Contras, segundo oficiais do museu de Reagan.

O que está em jogo aqui – na única região metropolitana que pode se orgulhar de ter duas bibliotecas presidenciais – é um debate sobre para que serve uma biblioteca presidencial: é uma celebração ou uma representação desapaixonada de uma presidência americana.

"Eles devem ser honestos com a história: eles pertencem ao Arquivo Nacional", disse Benjamin Hufbauer, um professor de artes plásticas da Universidade de Louisville, que escreveu um livro sobre bibliotecas presidenciais. "A biblioteca Reagan está melhor do que antes – melhor do que costumava ser, quando nem sequer mencionava o Irã-Contras. Mas tende a ser uma celebração de Reagan, um santuário."

Como historiador, Wiener disse: "Estou muito mais interessado no que a biblioteca Nixon foi capaz de fazer. A biblioteca Reagan está ainda comprometida com a ideia de defender Reagan contra os seus críticos."

Na biblioteca Nixon, no entanto, a exposição Watergate provocou tantas tensões que um dos responsáveis, Will Alexander, pediu demissão com um ataque a Timothy J. Naftali, o diretor da biblioteca e curador da exposição.

"O presidente, que admiravelmente se redimiu no pôr do sol de sua vida da sombra monstruosa de Watergate, agora está sendo entusiasticamente desonrado em sua própria biblioteca”, Alexander escreveu em carta de demissão na semana passada.

"Bibliotecas presidenciais são construídas, em grande parte, para mostrar as realizações dos presidentes", escreveu Alexander. "Seria errado ignorar as falhas, erros e fraquezas de um presidente; todos eles as têm. Mas é muito pior deleitar-se nas falhas de uma forma que mantenha uma nuvem negra pairando sobre suas realizações."

Naftali disse ver a missão de seu museu como uma tentativa de apresentar um retrato histórico completo de Nixon.

James Gardner, que foi indicado no mês passado como responsável do Arquivo Nacional pelas bibliotecas presidenciais, disse que antecipou que esta seja uma fonte regular de tensão em sua posição.

"O que eu procuraria seria um equilíbrio entre história e memória", disse Gardner, ao falar sobre o equilíbrio de demandas conflitantes. "Deve haver espaço para ambas."

Por Adam Nagourney

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