Berlim estuda acabar com famoso espaço de artistas

Alemanha pode despejar ocupantes de prédio histórico para dar lugar a um novo e mais luxuoso projeto

The New York Times |

Há 20 anos, uma loja de departamentos em ruínas cobertas por grafites tem abrigado estúdios e oficinas de artistas que ocuparam e salvaram o prédio logo após a queda do Muro de Berlim.

O edifício, conhecido como Tacheles, agora está protegido como patrimônio histórico. Os artistas, entretanto, sem contrato de arrendamento há quase dois anos, enfrentam a possibilidade de um despejo iminente para abrir espaço para um novo projeto mais luxuoso.

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O edifício Tacheles, em Berlim, na Alemanha

Para Berlim, há mais em jogo do que o antigo dilema da valorização da região antes empobrecida. A ameaça de fechamento da Tacheles, cujo nome deriva do iídiche para “negociação direta”", acentuou o debate sobre a identidade da cidade.

Não mais dividida pelo muro, Berlim agora é dividida entre o seu passado único e uma mistura volátil de história negra e criatividade brilhante e seu status como a capital de um país estável e reunificado.

Enquanto a cidade de baixo orçamento tem procurado capitalizar de sua reputação como um ninho livre e caótico de pintores, músicos e anarquistas, ela também é o lar de um governo sério e crescente burocracia.

Construído há um século com aço e concreto, o edifício foi utilizado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial para manter os prisioneiros de guerra franceses.

Ele foi danificado durante a guerra e estava vazio quando os invasores o ocuparam em 1990, na Oranienburger Strasse, rua antes obscura e descolada, agora cheia de turistas. O edifício abriga hoje 30 estúdios e em qualquer momento entre 70 e 100 artistas. Mas a mudança é evidente por todos os lados.

A primeira geração de posseiros pós-queda do Muro, cujo grupo de casas e espaços de performance está comemorando 20 anos de aniversário, teme que seu fim esteja próximo.

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Músicos se apresentam no Café Zapata, no prédio Tacheles

A geração pós-Muro enfrenta não apenas a invasão dos investidores e construtores, mas críticas dentro da própria comunidade cultural local por acampar numa localização privilegiada, coletando os dólares dos turistas e se recusando a mudar com os tempos.

Em 1998, os organizadores do Tacheles assinaram um contrato de 10 anos, que teve fim em 2008, exigindo apenas um pagamento simbólico de menos de um dólar por mês.

Uma vez que o contrato expirou, eles se viram em um limbo jurídico, com a possibilidade de leilão do prédio. O edifício ocupa um terreno de 13 mil metros quadrados, mas a área total que será revitalizada é de 272 mil metros quadrados a um valor que deve chegar a US$ 90 milhões.

“Prevemos que a venda de desapropriação acontecerá até o final do ano”, disse Gesine Daehn, porta-voz do HSH Nordbank, que lidera o consórcio de bancos que tentam vender o imóvel. “Nós entendemos que os possíveis investidores estão interessados em adquirir o local inteiro e não dividir o terreno em pedaços menores”.

Por Nicholas Kulish

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