Beneficiada por Putin, classe média russa se vira contra ele

Crescimento econômico da Rússia criou classe de profissionais urbanos que não tem medo de expressar frustrações políticas

The New York Times |

Eis a dificuldade do primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin: as pessoas que se manifestaram diante do Kremlin no sábado, entoando cânticos contra ele, são as mesmas que têm prosperado durante seus 12 anos no poder.

São pessoas viajadas e bem-educadas, que adotam um estilo “hipster”. Em suma, são jovens profissionais urbanos, um grupo que se beneficiou consideravelmente do crescente mercado profissional de Moscou e do efeito de distribuição da riqueza de petróleo do país.

Reuters
Russos protestam contra Putin em Moscou (10/12)

Este é um paradoxo que tem sido documentado por cientistas sociais: os moradores de Moscou e de outras grandes cidades tendem a expressar maior frustração em relação a Putin, embora seu governo tenha ajudado a torná-los mais ricos

Uma explicação para isso é o alto nível de corrupção pública no país, que ameaça a nova riqueza pessoal. Outra é um fenômeno que foi visto no Chile do general Augusto Pinochet, de que o crescimento econômico pode enfraquecer um governo autocrático, inadvertidamente, através da criação de uma classe urbana profissional que clama por novos direitos políticos.

"Este não é um protesto de panelas vazias", disse Viktor A. Shenderovich, um comentarista político, na estação de rádio Ekho Moskvy. "Isso é uma questão política, não econômica. Os mineiros protestaram porque não foram pagos. Já as pessoas que tomaram as ruas de Moscou vivem muito bem. Estas pessoas protestam porque foram humilhadas. Elas não foram questionadas quando foi tomada a decisão de que Putin voltará".

Deve ser frustrante para Putin o fato de que aqueles que agora protestam tenham desfrutado do crescimento da riqueza enquanto ele foi figura predominante do país, primeiro como presidente e agora como primeiro-ministro.

De 2000, ano em que assumiu a presidência, até 2008, os salários, ajustados pela inflação, cresceram, em média, quase 15% ao ano. Mas embora os salários continuem subindo, eles estão aumentando muito mais lentamente hoje, segundo dados compilados pelo Citibank.

E conforme se tornam mais ricos, os moradores das cidades se tornam também mais propensos a extravasar sua frustração com o sistema político.

Quando se trata de levantes da classe média, Daniel Treisman, professor de ciência política na Universidade da Califórnia, Los Angeles, tem documentado uma tendência geral. Líderes autoritários que implementam eficazes políticas econômicas tornam-se vítimas de seu próprio sucesso, como Pinochet no Chile.

Na Rússia, depois de uma expansão do petróleo ao longo de uma década, cerca de um terço da população agora é considerado de classe média.

Os organizadores do protesto se reuniram no domingo, tentando formar uma espécie de conselho de liderança. Eles esperam criar uma dinâmica para eventos maiores e aumentar a pressão sobre o governo, levando potencialmente a uma recontagem que poderia tirar o Rússia Unida de algumas cadeiras do Parlamento.

Por Andrew E. Kramer e David M. Herszenhorn

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