Base de testes nucleares soviética na Ásia tem sentinela improvável: os EUA

Vinte anos após colapso da União Soviética, EUA pagam por aviões teleguiados para detectar intrusos na base de Kurchatov, no Casaquistão

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Vinte anos após o colapso da União Soviética e a partida de milhares de soldados da remota base de testes de Kurchatov, no nordeste do Casaquistão, as pegadas de uma outra grande potência – os Estados Unidos – estão cada vez mais visíveis.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos pagou por aviões teleguiados em busca de intrusos e detectores de movimento que alertam quando uma pessoa, ou um cavalo ou um carro, entra no território restrito. O projeto confidencial visa a manter os terroristas longe do que os soviéticos deixaram para trás em um labirinto de túneis que usavam para testes atômicos: entre outras coisas, plutônio e urânio altamente enriquecidos que os cientistas ocidentais temem que possam ser usados para construir um dispositivo nuclear improvisado.

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Teste de bomba de hidrogênio soviética perto do Casaquistão (foto de 22/11/1955)
Proteger esse material tem significado desvendar segredos nucleares que foram mantidos por décadas. A Rússia tem, com cautela, compartilhado material de arquivo sobre os testes realizados ali na era soviética, e os Estados Unidos estão pagando para remover ou proteger o material que pode ser usado em armas. O Casaquistão fornece a mão de obra, mas como não é uma potência nuclear, seus funcionários são proibidos de saber exatamente o que é que estão guardando.

"As pessoas me perguntam, será que estamos fazendo a coisa certa, fechando o acesso aos túneis?", disse Kairat K. Kadyrzhanov, diretor geral da Central Nuclear Nacional do Casaquistão, que administra a base de testes. "E eu digo que não sei o que existe lá, e não tenho o direito de saber".

A margem divisória da Base de Testes Semipalatinsk fica a uma viagem de duas horas da cidade grande mais próxima, através de uma extensão de estepes inexpressivas.

Em 1948, em uma corrida para acabar com o monopólio dos Estados Unidos sobre as armas nucleares, a União Soviética selecionou esse pedaço de terra para testar suas próprias bombas. Os moradores da área só sabiam que a terra tremia, fazendo estremecer a louça na prateleira; anos mais tarde, gráficos de análise mostraram nuvens radioativas que se instalaram ao longo centros populacionais.

Com o colapso da União Soviética, de 20 mil a 30 mil soldados se retiraram de suas posições na região, deixando 500 soldados casaques para guardar o local, disse Kadyrzhanov.

Desde então, a base de testes – ou, mais especificamente, o material físsil e os produtos de fissão deixados para trás – têm sido uma preocupação para os Estados Unidos. O projeto continuou atrás de uma cortina de sigilo, com algumas exceções; em 2003 autoridades do Casaquistão contaram a um repórter da revista Science sobre a Operação Marmota, na qual terra contaminada com plutônio foi pavimentada com uma laje de 2 metros de espessura de concreto armado para protegê-la dos terroristas que poderiam roubar o material para criar uma bomba.

Oficiais do Departamento de Defesa e do Departamento de Estado americanos não quiseram comentar a questão. Mas os dossiês publicados pelo site WikiLeaks no ano passado descrevem um impulso urgente para "impedir que os resíduos nucleares caiam nas mãos de terroristas", como um oficial de alto escalão da defesa afirmou em 2009. Outro dossiê o descreve como "o mais crítico" de todos os projetos com financiamento americano para garantir que materiais nucleares da antiga União Soviética não caiam nas mãos de terroristas.

Depois que os testes acima do solo foram proibidos, a União Soviética detonou 295 dispositivos em 181 túneis sob as Montanhas Degelen, de acordo com um estudo publicado no ano passado pelo Instituto do Cazaquistão para a Segurança da Radiação e Ecologia. Cada explosão consumiu entre 1% e 30% do material físsil do dispositivo, deixando o restante do combustível misturado com detritos e com a rocha subterrânea derretida, segundo o estudo.

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Escultura perto de area onde eram feitos testes nucleares soviéticos, em Kurchatov, no Casaquistão
A posse do presidente americano, Barack Obama, marcou uma "mudança radical de atitude" em relação à segurança no local e autoridades americanas exigiram uma aceleração cinco vezes mais rápida no trabalho de proteção do local, disse Kadyrzhanov. Enquanto isso, a Rússia, que durante anos se recusou a compartilhar documentos soviéticos sobre o local, tem cooperado, disse.

"O perigo de que a Rússia esteja escondendo algo de nós tem diminuído", disse ele.

Radiação

Com o colapso soviético, a pobreza e a desordem têm cercado as margens da Base de Semipalatinsk, ainda repleta de perigos radioativos.

A atividade terminou de forma tão abrupta que um dispositivo nuclear foi deixado em um túnel, onde estava preparado para um teste, até 1995 quando os técnicos conseguiram destruí-lo sem criar uma reação nuclear, segundo a Central Nuclear Nacional.

Até então, o local de testes ficou abandonado e catadores de sucata vasculhavam os túneis em busca de fios de cobre que poderiam ser vendidos a negociantes chineses. Cerca de 10 pessoas morreram por entrar nos túneis e respirar ar contaminado, disse Yuri G. Strilchuk, diretor de formação e informação na Central Nuclear Nacional.

Logo no início, o problema parecia administrável. Em 1999, o senador americano Richard Lugar, republicano de Indiana, anunciou que o esforço de financiamento americano havia concluído a vedação do último dos túneis. Mas os catadores locais usaram escavadeiras e explosivos para voltar a abri-los, em alguns casos removendo plugs de 50 metros de concreto armado, disse Kadyrzhanov. Em 2004, 110 dos 181 túneis fechados já estavam reabertos, segundo a Central Nuclear Nacional.

"A mentalidade da pessoa soviética mudou", disse Kadyrzhanov. "Cinquenta anos atrás, se visse arame farpado ou uma parede de concreto a pessoa iria embora. Mas agora é o contrário: ela escala o muro para ver o que há lá dentro".

11 de Setembro

O esforço que entrou em vigor na sequência era mais urgente, mais caro e mais sigiloso, talvez em parte porque, depois de 11 de Setembro de 2001, havia ansiedade para que os materiais radioativos fossem usados para construir bombas. Vladimir V. Putin, então presidente da Rússia, se reuniu com o presidente Nursultan A. Nazarbayev do Cazaquistão em 2004 para discutir a transferência de mais documentos arquivados da Rússia.

Em 2009, as autoridades americanas haviam aumentado a pressão sobre o Cazaquistão para concluir a impermeabilização dos túneis dentro de dois anos, observando a incerteza sobre quanto tempo os três países conseguiriam cooperar com sucesso, diz um dossiê.

Entre as questões sensíveis está que, ao analisar os restos deixados pelas explosões, os cientistas podem ser capazes de determinar os ingredientes das bombas. Os testes soviéticos em estágio avançado envolviam explosões supereficientes, em que uma porcentagem grande de material físsil era consumida, e os russos temem que os cientistas americanos escavem os túneis, disse Kadyrzhanov. Terroristas também podem estar buscando acesso a esta tecnologia, disse.

"O principal segredo de uma bomba é a receita de sua composição", disse ele. "Eu poderia pegar uma amostra e tirar uma conclusão sobre a receita".

Kadyrzhanov disse que as cavidades estão sendo preenchidas com concreto que absorve o plutônio dos resíduos, de modo que "é mais fácil fazer plutônio do zero em uma usina nuclear" do que extraí-lo dali. "Por exemplo, alguém ruim se torna o presidente do Cazaquistão, depois de Nazarbayev, e diz, 'eu quero extrair plutônio a partir desta base", disse. "Ele terá de trabalhar muito, muito mesmo. Estamos fechando-a de modo que será praticamente impossível para as gerações futuras extrair o plutônio dali”.

*Por Ellen Barry

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