No sul, não é preciso traduzir ¿arrogância¿ ou ¿desrespeitoso.¿ Não foi há muito tempo que os negros no extremo sul podiam ser espancados ou mortos por buscarem o direito de voto, respondendo com ousadia a quem não devia ou não dando passagem na calçada. Negros que violassem essas e outras proibições poderiam ser designados como ¿negros arrogantes¿ e submetidos a atos de violência e intimidação que serviam para dissuadir outros que quisessem seguir o exemplo.

O termo arrogante foi usado para negros ricos, que pagavam preços exorbitantes para ter melhores casas, carros ou mais sucesso nos negócios que os brancos. A inveja baseada na raça era causa comum para queimadas, linchamentos e episódios terríveis de violência como o de Tulsa em 1921, no qual uma multidão de homens brancos quase destruiu a próspera comunidade negra de Greenwood.

Falar bem e ser assertivo, qualidades bem vistas entre brancos, eram tão admiráveis quanto rebeldias, quando praticadas contra negros. Também, quando um homem ou mulher negro olhasse nos olhos de uma pessoa branca com sinceridade ¿ e falassem com ele sobre algo importante ¿ eram considerados uma ameaça para a ordem racial e perseguido sempre que possível.

Essa obsessão com a submissão negra era baseada na nostalgia da escravidão. Nenhuma pessoa sã iria expressar abertamente o sentimento hoje. Mas o desconforto de certas formas de afirmação negra está enraizado na mente nacional ¿ e na língua nacional- para simplesmente desaparecer. Esse tem sido um tema persistente no discurso público desde que Barack Obama virou um candidato próximo da presidência.

Um exemplo rude aconteceu no começo do mês, quando um republicano da Geórgia, republicano Lynn Westmoreland, descreveu Obama como arrogante em resposta à pergunta de um repórter. Westmoreland, que de fato usou o termo, quando teve chance de escapar, tentou se explicar dizendo que no dicionário a definição não era racial. Isso é improvável. Westmoreland é do sul, onde o significado da palavra é bem claro.

O Jim Crow South institucionalizou a subordinação racial em seu jornal, que tipicamente recusava a negros adultos títulos de cortesia e senhor/senhora ¿ e os reduzia a crianças chamando-os apenas pelo primeiro nome. O republicano Geoff Davis de Kentucky não resistiu ao usar a velha linguagem, no começo deste ano, descrevendo o que ele chamou de falta de preparação de Obama para lidar com política nuclear. O dedos do garoto não precisam estar no botão, ele disse.

No sul de antigamente, homens e mulheres negros que fossem competentes, confiáveis, porta-vozes de assuntos importantes eram chamados de desrespeitosos, o certo era que todos os bons negros saudassem, limpassem, sorrissem e cedessem aos seus superiores brancos.

Como uma possível prévia do que virá, a campanha de McCain já fez um comercial com insinuação similar acusando Obama de ser desrespeitoso com Sarah Palin. O argumento foi ofuscado, mas seu antecedente racial é bem claro.

As referências a obstáculos que surgiram na campanha sugerem que os republicanos estão lutando por fundamentos raciais, mesmo quando expressões referentes à raça não são evidentes. Como na eleição passada, o GOP (Grand Old Party) irá tentar alavancar fantasmas e medos raciais sem sujar as mãos. Os democratas tentam desviar dos golpes do jeito habitual.

Obama parece entender que ele está sempre a um passo de uma expressão ¿ ou frase- que pode levá-lo, de uma campanha cortês, racional e racialmente ambígua, a um exemplo de homem negro bravo que espanta eleitores brancos. O cuidado é evidente em como ele procura e escolhe a linguagem usada, rondando as palavras que podem empurrá-lo para a zona perigosa.

Essas manobras são frequentemente dolorosas de assistir. A parte preocupante é que elas são necessárias.

- Brent Staples

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.