"Bandido descalço" começou cedo sua vida de fugitivo

Preso por roubo de barcos e aviões, Colton Harris-Moore, 19 anos, teve infância pobre e relacionamento difícil com a mãe

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Colton Harris-Moore, em fotos sem data
"Barefoot Bandit" (Bandido Descalço, em tradução livre) não é o único apelido de Colton Harris-Moore.

Os vizinhos dizem que sua mãe lhe chamava de nomes tão ruins que eles se encolhiam ao ouvir as palavras que ecoavam pelos bosques que cobrem a maior parte da ilha de Camano, em Puget Sound. Colegas dizem que ele era agressivo na escola.

Mas talvez o seu apelido mais benigno seja o mais revelador. Muito antes de o roubo de barcos e aviões ter feito dele um especialista em fuga e anti-herói da internet, Harris-Moore, 19, era suspeito de roubar cookies e pizzas congeladas da família Kostelyk, algumas ruas acima da sua miserável casa em um trailer localizado em um beco sem saída a uma hora de Seattle.

A família Kostelyks tinha uma propriedade a beira-mar e um freezer cheio de alimentos. Ele morava no interior da ilha e não tinha nada para comer.

"Nós o chamávamos de 'Island Boy' (menino da ilha, em tradução livre)", lembrou Linda Johnson, cuja mãe, Maxine Kostelyk, esteve entre as primeiras vítimas de Harris-Moore. "Ele sempre voltava e levava pizzas congeladas, biscoitos, sorvetes. Ele era um garoto alto e ainda estava crescendo".

Até ser capturado em uma lancha roubada na semana passada nas Bahamas, fugindo da polícia como em um jogo de gato e rato, Harris-Moore, com seus 1m88, havia se tornado uma sensação. Depois de escapar de uma casa de recuperação juvenil há mais de dois anos, ele iludiu as autoridades americanas com sua inteligência e astúcia, muitas vezes sem nada nos pés. A polícia disse que ele armou moradias improvisadas em casas vazias por dias ou semanas e, de alguma forma, aprendeu a voar, dominar a arte da aterrissagem forçada e fugir.

Mesmo na era dos sites de busca, Harris-Moore parecia irreconhecível e impossível de encontrar, quase como um jovem parte Huck Finn de alta tecnologia, parte astuto criminoso.

Uma análise de seus primeiros anos de vida e problemas sugere uma imagem muito menos cinematográfica. De acordo com o tribunal, documentos públicos e dezenas de entrevistas, Harris-Moore não foi herói de ninguém, nem de si mesmo. Pelo contrário, seja escondido na casa da árvore da família Kostelyks esperando pela entrega da lanterna de alta potência que a polícia acredita que pediu com um cartão de crédito roubado, ou voando sozinho para as Bahamas em um Cessna roubado este mês, isolado no pequeno cockpit por mais de mil milhas - Harris-Moore, na maior parte de sua vida, estava sozinho e com fome.

Isso era verdade mesmo enquanto ele era comemorado por milhares de fãs no Facebook.

"Ele diz que não gosta de nada disso", disse Monique Gomez, advogada que representou Harris-Moore brevemente nas Bahamas. "Ele só quer deixar tudo isso para trás".

Gomez acrescentou: "Eu acho que se ele tivesse sido melhor orientado, não teria feito o que fez".

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Pam Kolher, mãe de Colton Harris-Moore, é vista em sua propriedade

Harris-Moore teve uma infância instável e muitas vezes entrou em conflito com sua mãe, Pam Kohler. Seu pai parece ter sido ausente. De acordo com documentos públicos, agentes de proteção da criança foram encaminhados para a família pelo menos uma dúzia de vezes até ele completar 15 anos de idade.

Um relatório do assistente social feito no momento em que ele foi preso pela primeira vez, aos 12 anos, tirou uma conclusão sucinta, pelo menos do ponto de vista do menino.

"Colton quer que sua mãe pare de beber e de fumar, consiga um emprego e coloque comida em casa", disse o relatório. "A mãe se recusa".

Quando Harris-Moore tinha 4 anos, alguém denunciou Kohler após ter visto "uma mulher pegar uma criança pelos cabelos e bater sua cabeça com violência", de acordo com um resumo psiquiátrico feito 12 anos depois. Quando tinha 10 anos, uma investigação que envolveu o "tratamento negligente ou maus-tratos" havia sido iniciada.

Kohler não parece ter sido processada pelos crimes relatados nas denúncias.

Aos 59 anos, ela se recusou a dar entrevista. Um advogado que ela contratou para lidar com a mídia e com as propostas para escrever um livro baseado na história de seu filho disse não ter visto as alegações de abuso contra Kohler nos registros públicos.

Vários vizinhos na Haven Place, a rua de terra no extremo sul da ilha de Camano, onde Harris-Moore cresceu e sua mãe ainda vive, recordaram muitas vezes ouvir a mãe e o filho gritarem um com o outro durante toda a noite. Todos falaram sob condição de anonimato por temer represálias por parte de Kohler.

Um cartaz pintado à mão na sua calçada arborizada adverte: "Se você passar deste ponto será baleado".

Perguntado se era uma ameaça vazia, um vizinho disse: "Ela atira".

O vizinho lembrou de um pesquisador de terras que ouviu tiros disparos em sua direção quando examinava a propriedade vizinha.

De acordo com registros e entrevistas, Harris-Moore foi punido com frequência na escola. Uma colega de classe da quinta série, Mariah Campbell, recordou outros alunos zombando da sua roupa suja e dizendo que era mau com os colegas.

"Como nunca fazia a slição de casa", disse Campbell, "ele nunca podia sair para o recreio".

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Cartaz oferece recompensa pela captura de Harris-Moore nas ilhas Camano

Por volta dos 12 anos, Harris-Moore teve vários problemas psiquiátricos, incluindo depressão, transtorno de déficit de atenção e transtorno explosivo intermitente, segundo um relatório psiquiátrico feito posteriormente. Foram prescritos antidepressivos e antipsicóticos.

Ele abandonou a escola após a nona série.

"Ele nunca queria ir para casa", disse Christa Postma, que se tornou amiga de Harris-Moore no ensino fundamental, "porque nós dois entrávamos em encrenca o tempo todo".

Os crimes pelos quais Harris-Moore foi condenado ou suspeito de cometer mostram um crescente foco em tecnologia e transporte, envolvendo o roubo de laptops e mountain bikes, aparelhos de GPS e barcos a motor. Mas é difícil encontrar qualquer coisa em seu passado que sugira que ele em breve seria capaz de pilotar aviões e voar para fora do país sem qualquer formação técnica, e muito menos sem ser pego.

Ele é suspeito de ter roubado pelo menos cinco aviões - incluindo uma vez durante os Jogos Olímpicos de Vancouver - e colidir durante a aterrissagem de todos eles. Ele escapou em todas as ocasiões.

O céu acima de Puget Sound é tomado por pequenos aviões indo e voltando de suas ilhas. Kohler disse aos repórteres que seu filho é capaz de identificar diferentes modelos quando eles sobrevoam a região. A internet está cheia de especulações de que Harris-Moore aprendeu a voar usando um software de simulação instalado em laptops que ele é suspeito de ter roubado. Mas há pouca evidência de que ele realmente tenha aprendido.

"Essa será a pergunta que todo mundo vai querer fazer quando ele falar, se ele falar", disse Ed Wallace, detetive do gabinete do xerife do condado de Island.

O rótulo "Bandido descalço" é um apelido relativamente novo também, decorrente de algumas pegadas encontradas em cenas de crimes no ano passado e desenhos de pegadas que a polícia acredita que Harris-Moore fez em outras cenas.

"Ele vestiu o manto e o usava com orgulho", disse o xerife Bill Cumming do condado de San Juan.

Vizinhos dizem ter lembranças de Harris-Moore descalço quando era menino. Naquela época, ele queixava-se às assistentes sociais que sua mãe não o pressionava a ser mais responsável. Assistentes sociais observaram mais de uma vez que Kohler se recusou a participar de programas de aconselhamento e tratamento que foram prescritos para o seu filho.

Postma, a amigo da oitava série que agora trabalha no controle de qualidade de uma empresa de processamento de peixes no Alasca, disse que passou por tratamento e que isso "realmente ajudou".

Várias pessoas no bairro de Harris-Moore afirmaram que quando menino ele parecia estar em busca de substitutos para os pais - pedindo às pessoas para que fizessem sanduíches de manteiga de amendoim e geleia ou observando-as enquanto realizavam tarefas básicas, mas em seguida roubava suas caixas postais ou computadores. Alguns observaram que, mesmo depois que seus esforços para evitar a captura se tornaram um espetáculo, aplaudido por amigos virtuais na internet, ele permaneceu em contato com sua mãe.

Harris-Moore chegou em Washington na quarta-feira para se apresentar à corte na quinta-feira. Ele enfrenta uma acusação federal pelo roubo de um avião e seu transporte para além de divisas estaduais, além de outros crimes como roubo, furto e fraude de cartão de crédito.

No final, sua mãe o incentivou publicamente a fugir para um país que não oferece extradição para os Estados Unidos. Ao invés disso, Harris-Moore acabou nas Bahamas.

"Ele não estava realmente tentando fugir", disse Kyle Ater, que encontrou pegadas feitas com giz no chão de sua loja de alimentos naturais na vizinha ilha de Orcas, na manhã seguinte à noite em que a polícia diz que Harris-Moore cometeu roubo e destruição do sistema de alarme do estabelecimento, além de comer um cheesecake de blueberry inteiro.

Por William Yardley

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