Bairro do Harlem celebra um dia de orgulho para a América negra

NOVA YORK ¿ Em uma cidade cruelmente sem espaços, as pessoas querem mostrar suas bandeiras nesse momento, mas não sozinhas.

The New York Times |

Aurora Burke e sua irmã, Wilma Marshall, chegaram muito tarde para assistir à cerimônia de posse no Schomburg Center for Research in Black Culture na Rua 135 no bairro do Harlem: poucos minutos depois das 11 da manhã (horário local) da terça-feira, todos os assentos e vagas do auditório estavam ocupados. 

As irmãs rapidamente mudaram de rumo e seguiram em direção à praça em frente a um prédio oficial na Rua 125, onde telões e alto-falantes foram instalados. Mesmo com o frio, disse Burke, é muito importante não estar sozinha.

A noite chegou e centenas de pessoas se aglomeraram na praça e um zunido acalentador vinha da multidão. Cada um dos rostos estava compenetrado. De repente, ouviu-se uma onda de vaias. Dick Cheney, com problemas nas costas, entrou de cadeira de rodas na cerimônia, e as pessoas o vaiaram como se ele fosse o vilão de um combate.  

Claro, ninguém estava de pé no frio rigoroso somente para gritar contra Dick Cheney.

Matthew Gantt, 33, desempregado e a caminho do departamento de desemprego na Rua 125, parou na praça e tirou algumas fotos do novo presidente que aparecia no telão. A questão não é ele fazer isso ou aquilo, disse Gantt. A pobreza está aqui há muito tempo. Ele tem um emprego e nós ainda estamos quebrados. Isso é uma questão de orgulho.


Em NY, moradores do Harlem celebram a posse de Barack Obama / AP

Quando Obama levantou a mão direita, lágrimas cortaram o rosto de Katrina Foye, uma funcionária de prefeitura que saiu em seu horário de almoço com uma amiga, Michelle Gonzalez.

Esse é o momento pelo qual os negros esperavam desde o tempo em que pensávamos que nenhum de nós poderia ser presidente, disse Foye, 39.  Estamos nos libertando. Não só os negros. O país todo.

Também na praça estava Gary Coppedge, 41, mecânico da Mercedes-Benz que cresceu em Nova York e vive no Harlem. Cinco de seus seis filhos estavam acompanhando as comemorações em suas escolas. O mais novo, Naim, 2, enrolado em um cachecol e um boné e coberto com uma jaqueta, estava abrigado no colo do pai. Eu pedi na semana passada para tirar dois dias de folga, disse Coppedge. Isso é tão maravilhoso. Eu não perderia esse dia por nada.

Esse foi, disse ele, um momento de orgulho e progresso para os americanos negros. Naim agarrou com força uma pequena bandeira americana com uma das mãos. Quando Obama falou, a multidão silenciou. Sua imagem encheu o telão.

O broche de bandeira na lapela e as bandeiras americanas ¿ grandes e pequenas ¿ balançando pela praça e pelas janelas do Harlem trouxeram à mente um episódio da campanha eleitoral do ano passado, quando um apresentador da ABC disse que o fato de Obama não usar um broche da bandeira dos EUA levantava questionamentos sobre seu patriotismo em suas relações.

No Dia da Posse, Obama já havia se desvencilhado da questão do patriotismo. Ele conseguiu, apesar de tudo, se diferenciar não somente pela sua oratória, mas também pela sua oposição inequívoca à guerra do Iraque antes mesmo do primeiro míssil ter sido disparado.

Quando os discursos e orações se encerraram, não havia mais ninguém na praça. Isso aconteceu no meio de um dia de trabalho de janeiro. Foye pausou por um momento antes de dizer que com a eleição de Obama o país estava abraçando pessoas e perspectivas que há muito estavam marginalizados.

Eu realmente acredito que isso significa que somos um país, um povo, disse ela enquanto as bandeiras atrás dela estalavam com o movimento.

Por JIM DWYER

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