Bahrein aguarda ansioso por relatório sobre revolta que abalou país

Rei pediu investigação dos protestos e repressão no país, uma tarefa complicada para curar as feridas e seguir em frente

The New York Times |

A revolta esquecida do Bahrein, às vezes, lembra o roteiro de um filme repleto de intrigas internacionais, onde a verdade permanece indefinida. Existe ali um príncipe herdeiro sitiado, um antigo aliado dos Estados Unidos, e uma família real cheia de conspirações que acredita com aparente sinceridade que quase foi derrubada. Uma repressão que fez da agressão contra a maioria a política efetiva do Estado.

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Xiitas marcham durante cerimônia comemorativa em agosto pela morte de Imã Ali, primo de profeta Maomé


Inescrutável e agressivo, o corpo político se esconde atrás do Irã e da Arábia Saudita enquanto a oposição espera, contida, ao mesmo tempo em que adverte que algo muito pior ainda está por vir.

Os protestos realizados no Bahrein em fevereiro e março se apresentaram como o ato de abertura de uma trama que permanece até hoje sem resolução em uma região rica em petróleo que fica no cruzamento da hegemonia dos Estados Unidos, das rivalidades regionais e da instabilidade que se aproxima. De todas as revoltas que agitaram o mundo árabe esse ano, o governo do Bahrein foi o único a conseguir uma vitória tática e quase efêmera por meio do uso da força.

Mas ao fazê-lo, ele pode ter destruído uma sociedade que antes tinha orgulho de seu cosmopolitismo. A questão não apenas para o Bahrein, mas para outros países árabes em revolta, como Egito e Síria, é se a reconciliação pode impedir um tumulto ainda maior de se espalhar por toda a região.

A resposta pode estar nas mãos de um professor de direito egípcio-americano convidado pelo rei no ano passado a investigar os protestos, a repressão e suas consequências, naquilo que os defensores do rei chamaram de uma tentativa de curar o país. Sua tarefa: essencialmente arbitrar uma crise na qual nenhum dos lados sequer concorda com o marco que deu início à revolta.

"Somos os únicos na cidade a fazer isso", disse o professor, M. Cherif Bassiouni.

A comissão de juristas e estudiosos liderada por Bassiouni deve divulgar seu relatório na quarta-feira e esse se tornou um momento decisivo para o Bahrein, sua monarquia sunita e sua maioria xiita muçulmana rebelde. Sua promessa é a de traçar um caminho a seguir para apaziguar o fogo da revolução que varreu a Tunísia , o Egito e a Líbia .

Seu perigo é que aconteça tarde demais para o Bahrein. Os críticos, e há muitos deles, já alegam que o relatório irá abrandar os crimes que foram cometidos, uma conclusão que quase certamente irá condenar o país a mais anos de instabilidade e volatilidade.

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"Temos uma meta e a meta é estabelecer os fatos, porque só quando você estabelece a verdade é que pode encontrar a base para uma solução política e uma solução de futuro", disse Bassiouni no dia em que se encontrou com o rei Hamad bin Isa Al Khalifa e com o chefe do maior grupo de oposição legal.

Mas em uma sociedade onde ninguém sequer concorda com a participação da maioria xiita, ou sobre quem realmente detém o poder, essa é a questão enfrentada pelo Bahrein e tantos outros países: É possível revelar e concordar com a verdade?

A natureza da repressão

A comissão tem a marca de um dos maiores especialistas do mundo em direitos humanos internacionais. Bassiouni essencialmente elaborou a Ordem Real nº 28, que delineou a tarefa da Comissão, e escolheu os outros quatro membros, todos reconhecidos internacionalmente em suas áreas.

Em dias de trabalho de 14 horas, que muitas vezes se estendem por muito mais tempo, a Comissão fez 2.343 entrevistas, colheu 4.483 declarações, realizou 48 reuniões e 35 investigações, em uma delas chegando a uma prisão onde um adolescente havia sido queimado com cigarros apenas alguns minutos antes. Em virtude da visita, o jovem foi libertado, e os policiais suspensos.

O relatório deve detalhar o alcance da repressão colocada em prática desde março, naquilo que Bassiouni disse ser "um procedimento bastante normal de maltratar as pessoas". Ele disse que os investigadores compilaram mais de 300 casos de abuso, 64 dos quais podem se qualificar como tortura.

Cerca de 3 mil foram demitidos de seus empregos e mais de 1 mil estudantes expulsos de suas universidades. Cerca de 500 empregados retornaram ao trabalho, juntamente com a maioria dos alunos. A Comissão documentou 30 casos nos quais o governo destruiu ou danificou locais religiosos xiitas, inflamando a divisão sectária.

"Não é que eles destruiram (algo relevante como) a catedral de São Pedro", disse Bassiouni, que tem um zelo acadêmico por questões intelectuais e assume que nem sempre isso é adequado para questões de diplomacia. Mas, ele acrescentou: "Se esses lugares significavam algo para eles e eles achavam que eram lugares religiosos, o governo deveria ter respeitado isso."

Com essas palavras, Bassiouni capturou o desafio do trabalho da comissão. Qual foi a natureza da repressão: sistemática e orquestrada pelo Estado, como insiste a oposição, ou autoridades agindo de forma arbitrária e independente em um cenário em que até as ordens do rei eram ignoradas, como sugere Bassiouni?

"Essa é uma situação onde há uma enorme quantidade de suspeita e tudo que você disser vai ser interpretado à luz de diferentes interesses políticos ou percepções", disse Bassiouni.

Sua tarefa foi impossível? "É o ambiente que é difícil", disse. "É o sentimento de suspeita. É o sentimento de paranoia. É o sentimento de desconfiança."

A família real e a política

Talvez a figura central atualmente seja o príncipe Salman bin Hamad Al Khalifa, o herdeiro do trono que aos 42 anos de idade tem um pé no ocidente, onde obteve um mestrado em Cambridge, e o outro nos arredores beduínos de uma família que conquistou o Bahrein em meados do século 18.

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Xiitas se reúnem em Manama, Bahrein


Descrito por uma figura da oposição como "o último samurai" de um clã dominante, antes mais aberto e orientado para o ocidente, e agora firmemente entrincheirado em uma conservadora Arábia Saudita, o príncipe Salman manteve negociações com a oposição que beiravam um avanço até março, antes de desintegrarem-se em meio a recriminações de ambos os lados.

Ecoando outros, ele disse que o relatório se trata menos da verdade e mais de política. "O relatório vai gerar uma narrativa que ambos os lados podem usar para se responsabilizar pelo que aconteceu e só através da responsabilidade compartilhada é que o progresso será feito", disse ele no Palácio Al Zaher.

Mesmo para os padrões do Golfo Pérsico, a política da família Al Khalifa é opaca. Rivalidades são equilibradas pela urgência da unidade do clã, onde a autoridade coletiva de Al Khalifa ultrapassa o poder de um único indivíduo, incluindo o rei.

Poucos no Bahrein acreditam que o rei tem controle do país. Muitos acreditam que o verdadeiro poder é exercido por dois irmãos – o chefe do Exército e o ministro da corte real – junto com Khalifa bin Salman Al Khalifa, tio do rei de 75 anos de idade e o primeiro-ministro não eleito há mais tempo no poder. Todos eles desfrutam estreitos laços com a Arábia Saudita. Assim, o rei ocupa a quarta posição no poder, seguido pelo príncipe Salman.

Embora o príncipe Salman goze de prestígio entre a oposição, sua posição não é boa entre a minoria sunita do país, cujos temores de dominação foram apaziguados pelo governo. A comunidade está muito mais mobilizada, cética e ansiosa do que há um ano. Abdul-Latif al-Mahmood, chefe do maior bloco sunita, sugeriu que o príncipe herdeiro foi ingênuo em acreditar que ele poderia chegar a um acordo com uma oposição xiita.

"O príncipe herdeiro é apenas uma pessoa da liderança", disse ele de forma mordaz.

Dentro da família, há uma sensação de que o príncipe herdeiro teve sua chance. "Ele tentou fazer as coisas do seu jeito e não funcionou", disse Abdel-Aziz bin Mubarak Al Khalifa, um conselheiro sênior do governo e membro da família real. A oposição, ele acrescentou, "o abandonou".

Bassiouni é contundente ao expressar esperança, reiterada por oficiais americanos, de que o relatório poderia servir como uma ferramenta para o príncipe reemergir como uma força política mais dinâmica e tentar novamente negociar uma solução. Uma ideia seria que ele liderasse um comitê para implementar as recomendações do ddocumento.

"Em certo sentido, eu acho que os moderados do lado reforma querem ter um pequeno empurrão", disse Bassiouni. "E assim, em certo sentido, o relatório da comissão que lhes dê um empurrão, ao invés de uma martelada na cabeça. Aí pode se tornar útil."

Príncipe Salman foi cuidadoso com suas palavras, aparentemente ciente de que sua ascensão ao trono já não é garantida. "Ou todos perdemos ou todos ganhamos", disse, sentado abaixo de um retrato de seu avô.

As palavras, porém, pareciam mais esperançosas do que realistas. "Ainda existe uma capacidade de perdão?", o príncipe perguntou. "Isso é o que me preocupa."

Consertar um sistema quebrado

O Al Wefaq, o maior grupo de oposição legal no Bahrein, é notável em todo o mundo árabe pela modéstia de suas exigências. Ele não convoca uma revolução ou a execução do governante ou a derrubada de sua família, como na Síria ou no Iêmen. Ele não tem braços. Mas ele pede profundas reformas políticas – uma monarquia constitucional com um parlamento com poderes, um governo eleito e um fim à divisão política que tem deixado os xiitas desprivilegiados.

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Na visão dos partidários da monarquia, o sistema pode ser corrigido. Al Wefaq diz que o sistema está quebrado. E para capacitar um processo de reconciliação, o relatório deve dizer o mesmo. "Não estamos à procura de explicações, estamos em busca de uma decisão sobre alguém ter sido responsável pelo que aconteceu", disse Hadi al-Hasan Mosawi, um ex-parlamentar que é o atual oficial de direitos humanos de Al Wefaq.

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Partidário do rei Hamad bin Isa al-Khalifa carrega pôster durante marcha em Manama, Bahrein, em fevereiro

Al-Mosawi organizou caixas e mais caixas de arquivos a serem enviados para a comissão. Magro e careca, ele se encolhe sob a alegação de Bassiouni, em uma entrevista, de que ele não está buscando "culpar ou enforcar." "Eu não quero que me digam o que aconteceu", disse Al-Mosawi. "Eu estava aqui. Eu vi."

Mesmo antes de a comissão concluir os seus trabalhos, os críticos temem que ela esteja comprometida. Afinal, a comissão foi nomeada pelo rei e seu governo pagou US$ 1,3 milhão por seus trabalhos. Seus membros foram hospedados gratuitamente no luxuoso hotel e spa Ritz-Carlton. Ela esteve muito próxima do governo para chamar a repressão de sistemática ou constatar que uma reforma burocrática pouco importa em um sistema parecido com o Apartheid.

"Vai ser uma comissão delegando para uma comissão que irá delegar para uma subcomissão e isso me preocupa, porque pode levar muitos, muitos anos para que nada aconteça", disse Mansour al-Jamri, editor do jornal Al Wasat e crítico do governo. Al-Jamri foi forçado a deixar o emprego em abril, sob pressão do governo, e só poderá retomar sua função quando o jornal receber um indulto em maio.

Na sede de Wefaq, Al-Mosawi e outro ex-parlamentar, Jasim Ali Husain, especulavam se o relatório pode oferecer promessas de emprego e habitação, melhores salários e segurança e talvez mais ajuda da Arábia Saudita, diante de sua oposição à reforma democrática no golfo. Mas a oposição iria rejeitar um relatório que seja o equivalente de uma verdade parcial. Ela ficaria insatisfeita.

Ali chamou o trabalho da comissão de "uma oportunidade de ouro". Mas acrescentou: "Em geral, muitas pessoas estão se preparando para ficar desapontadas."

Reconstruir a verdade

Bassiouni, uma especialista em crimes de guerra, em uma carreira de décadas, trabalhou em alguns dos lugares mais disfuncionais do mundo – Líbia, Iugoslávia, Afeganistão e Iraque. Mas nem ele nem os membros de sua equipe enfrentaram um desafio como o que enfrentam agora no Bahrein.

"Não existe nenhum relato neutro", disse Mohamed Helal, diretor legal da comissão e um protegido de Bassiouni. "A comunidade vive quase em universos paralelos". Ao investigar um episódio, Helal disse que descobriu que no mesmo dia, no mesmo momento, "não houve um momento sequer de sobreposição".

"Como você pode reconstruir a verdade quando não há sobreposição?", perguntou ele.

Bassiouni acrescentou: "Estamos diante desse tipo de problema e sozinhos."

Por Anthony Shadid

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