Autoridades líbias ameaçam utilizar 'escudos humanos'

Alerta foi feito depois de general britânico dizer que Otan ampliaria ataques para instalações de infraestrutura contra Kadafi

The New York Times |

Adotando tática da velha cartilha do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, os oficiais do governo de Muamar Kadafi ameaçaram usar "escudos humanos" diante de prédios de telecomunicações sob a ameaça de bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O alerta veio um dia depois do mais alto general da Grã-Bretanha afirmar que a Otan teria de ampliar sua campanha de ataques para incluir instalações de infraestrutura na Líbia para evitar que Kadafi se "mantenha no poder".

The New York Times
Caixões de madeira são montados para corpos de membros das forças leais ao líder líbio, Muamar Kadafi
Quase 36 horas depois do jornal Sunday Telegraph de Londres publicar uma entrevista com o general David Richards, chefe da equipe de defesa da Grã-Bretanha, os jornalistas estrangeiros em Trípoli foram convocados para uma entrevista coletiva na qual os oficiais das telecomunicações líbias anunciaram que iriam fazer uso de escudos humanos.

O uso de escudos humanos foi uma das principais características da resposta do Iraque às ameaças de invasão de forças militares ocidentais depois da sua invasão ao Kuwait em 1990. Hussein ordenou que empresários ocidentais fossem presos e levados para as instalações de petróleo e outros possíveis alvos ao redor de Bagdá, mas a maioria foi liberada sob pressão diplomática antes da breve guerra que expulsou os iraquianos do Kuwait em 1991.

Alerta

A advertência mais explícita de que escudos humanos poderiam ser usados na Líbia veio de Mohammed Almaremi, chefe de uma das duas empresas de celulares da Líbia, sendo que ambas são controladas por Seif al-Islam Kadafi, filho de Kadafi e, até o levante rebelde, seu herdeiro político.

Almaremi disse que 20 mil funcionários da Libyana, uma das empresas, seriam enviados às instalações, juntamente com 20 mil membros de suas famílias, para ali permanecerem enquanto o bombardeio continuasse. "Nós seremos escudos humanos para enfrentar qualquer agressão", disse ele.

Ben Mohammed Ayad, chefe da autoridade de telecomunicações da Líbia, disse que os ataques da Otan já destruíram grande parte da rede de telecomunicações do país, interrompendo o funcionamento de hospitais, escolas e outras empresas civis.

Ayad afirmou que a rede, uma das mais avançadas do mundo árabe, já sofreu mais de US$ 1 bilhão em danos causados pelos ataques da Otan. Em uma apresentação em PowerPoint ele identificou as áreas mais atingidas, incluindo vários pontos perto de Sirte, cidade natal de Kadafi, na costa do Mediterrâneo. "De agora em diante, os funcionários e suas famílias vão agir como um escudo humano para proteger esses locais", dizia um texto em inglês em um dos slides apresentados.

Ocidente

Parte da raiva dos defensores de Kadafi em relação ao Ocidente desde os ataques aéreos da Otan nasceu da crença de que Kadafi fez um grande esforço para provar a si mesmo como amigo do Ocidente na década passada. Como parte dessa aproximação, ele abandonou os programas de desenvolvimento de armas nucleares e químicas da Líbia e abriu o país para uma onda de investimento ocidental em petróleo, telecomunicações e outros setores.

Essa cooperação com o Ocidente veio depois que o líder líbio viu o quão rapidamente a força de invasão americana agiu no Iraque e derrubou Saddam em 2003. Mas agora, com os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e outros países da Otan apoiando os rebeldes da Líbia e exigindo que Kadafi deixe o poder, os oficiais dizem que o líder considera que a sua cooperação para com o Ocidente foi recompensada com traição.

A ameaça do uso de escudos humanos acontece depois de uma semana de alguns dos mais pesados ataques aéreos contra instalações do governo. Um ataque foi dirigido a um complexo de comando subterrâneo na fortaleza de Kadafi, em Trípoli, com uma saraivada de bombas destinadas ao labirinto de túneis e bunkers. No dia seguinte, Kadafi fez uma transmissão de áudio pela televisão estatal líbia desafiando a Otan e dizendo que está "em um lugar onde você não pode me pegar".

Pouco antes do anoitecer, na segunda-feira, uma nova rodada de ataques aéreos atingiu a fortaleza, mas as autoridades líbias, muitas vezes desejosas de ter repórteres nos locais de ataques, não deram detalhes do que havia sido atingido, ou se houve qualquer vítima.

Juntamente com as declarações públicas de indignação sobre os ataques aéreos, tem havido sinais crescentes de que eles estão desgastando a capacidade do governo de combater os ataques. Sem defesa aérea, o governo tem recorrido a uma campanha de propaganda destinada a estabelecer que a Otan já matou milhares de pessoas inocentes e destruiu ou danificou alvos civis, incluindo hospitais, escolas, bibliotecas, casas e pousadas.

A campanha tem deteriorado, com as incursões guiadas pelo governo aos locais dos ataques aéreos em TrÍpoli não demonstrando de forma convincente que houve um número significativo de vítimas civis. Essa falha tem alimentado um sentimento crescente de frustração entre os oficiais, que parecem decididos a transmitir a mensagem de que a Otan está atacando o país e não em uma campanha para impedir a capacidade de combate do governo de Kadafi.

*Por John F. Burns

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