Autoridades chinesas tentam silenciar protestos na Mongólia

Internet é cortada e policiamento é reforçado, após manifestações pela morte de dois moradores de Hohhot atropelados por chinseses han

The New York Times |

Enquanto agentes policiais atacavam manifestantes de etnia mongol na segunda-feira, levando-os a pelo menos uma dúzia de veículos que estavam à espera, um jovem estudante universitário se refugiou em um café nas redondezas, tremendo de medo. Ele verificou um bule de metal para ver se continha dispositivos de escuta imaginários e olhou várias vezes em direção à porta enquanto explicava como soldados impediram milhares de seus colegas da Universidade da Nacionalidade de Hohhot de aderir à manifestação.

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Escola foi fechada em meio a protestos em Hohhot, na Mongólia
"Primeiro eles desligaram a nossa internet, então eles interromperam o nosso serviço de telefonia celular e, finalmente, nos prenderam na escola", disse o estudante de literatura, que não estava no campus quando o bloqueio entrou em vigor na semana passada. "Os alunos estão com medo, mas mais do que isso, eles estão com raiva".

Durante a semana passada, conforme passeatas em protestos pela morte de dois mongóis atropelados por motoristas chineses da etnia han tomavam conta da região de Hohhot, de baixa densidade populacional das pastagens e do deserto, os oficiais da Região Autônoma do Interior da Mongólia tentaram estancá-los usando uma abordagem à instabilidade étnica tipicamente chinesa. Eles anunciaram uma série de projetos de desenvolvimento de financiamento generoso e prometeram processar os motoristas acusados de matar os dois mongóis, ambos dos quais foram atingidos no mês passado durante protestos contra as operações de mineração que têm prejudicado a frágil paisagem.

Nesta semana o governo adicionou ao menu de mitigações a promessa de gastar US$ 308 milhões para promover a cultura da Mongólia e outros US$ 200 milhões em subsídios aos estudantes da região. Na quarta-feira, as autoridades anunciaram uma revisão da lucrativa indústria de carvão da região "para assegurar práticas de produção seguras, proteger o meio ambiente e garantir o bem-estar dos moradores", relatou a Xinhua, agência de notícias estatal chinesa.

Mas as autoridades, afeitas a demonstrações de força, têm ido mais longe, delimitando parques e praças públicas com a polícia paramilitar e ameaçando demitir os funcionários públicos que aderirem aos comícios.

Bloqueios

Eles também bloquearam as entradas e saídas de pelo menos uma meia dúzia de campus aqui em Hohhot, a capital regional de 2,6 milhões habitantes, cuja população é mais de 87% han, a etnia predominante na China. Apesar do estado oficial de emergência, as aulas têm continuado como de costume, embora o acesso à internet tenha sido cortado e dispositivos de bloqueio de sinal – de quatro andares de altura e claramente visíveis nas ruas – tenha sido utilizados para interromper a recepção dos celulares.

Um documento oficial que circula pela internet diz que o confinamento aberto da faculdade e de alguns alunos do ensino médio, agora em seu quarto dia, foi concebido para "isolar as pessoas ruins”, eliminar o hostil e o subversivo do corpo discente e, finalmente "salvaguardar o nosso regime, protegendo as realizações da abertura política”.

Os estudantes, especialmente nas escolas com maioria mongol, não têm permanecido inteiramente imóveis. No domingo, os alunos de três escolas realizaram protestos espontâneos no campus após serem impedido de sair, de acordo com os estudantes. Na Universidade do Interior da Mongólia, os alunos mostraram o seu descontentamento lançando livros didáticos de língua chinesa pelas janelas das salas de aula e dormitórios.

Os oficiais da universidade têm prometido expulsar da escola qualquer um pego protestando ou mesmo fugindo do campus. Contatado por telefone na quarta-feira, um administrador da Universidade do Interior da Mongólia Interior disse que ninguém na escola sabe quando o sequestro pode acabar. "Todo mundo tem de ser paciente", disse ele.

Agentes de segurança pública em Xilinhot, uma cidade onde cerca de 2 mil pessoas se manifestaram na semana passada, aparentemente ficaram sem paciência. Segundo o Centro de Informação dos Direito Humanos do Sul da Mongólia, um grupo de advocacia baseado em Nova York, a polícia tem convocado estudantes que enviaram várias mensagens de texto sobre os protestos. 

Um estudante em Hohhot, que disparou uma mensagem similar no QQ, um popular programa de mensagens instantâneas, foi rapidamente detido pelas autoridades, disse o grupo. Outro estudante a caminho do protesto nesta segunda-feira estava desesperadamente tentando conseguir um atestado médico para explicar seu desaparecimento do campus.

Censura

Apesar de notícias sobre o tumulto terem sido removidas da rede, o Partido Comunista e a polícia locais têm retratado os manifestantes como subversivos que buscavam a desunião étnica. Perguntado sobre as manifestações de terça-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Jiang Yu, ecoou esse tema, culpando as forças anônimas no exterior por agitar o problema. "As suas tentativas estão fadadas ao fracasso", disse ele durante uma entrevista coletiva.

Em entrevistas, algumas das quais aconteceram perto das cercas de ferro colocadas ao redor dos campi, vários estudantes se opuseram a tais caracterizações, dizendo que foram levados a protestar pela notícia da morte de Mergen, o pastor morto por um caminhão cheio de carvão no dia 15 de maio e pelas histórias sobre a destruição ecológica provocada por minas de propriedade chinesa.

Mas sua paixão rapidamente se voltou a assuntos mais exóticos: o desaparecimento da cultura da região e o orgulho de uma identidade que vem sendo diluído por décadas de migração de outras partes da China. "Estou cansado de ver a minha língua desaparecer quando há tantos banners na escola sobre a promoção da língua mongol", disse Naranbaatar, um estudante de história na Universidade Nacionalidade Hohhot que como muitos mongóis usa apenas um nome.

Outro estudante, falando por celular, disse que os estudantes estão ficando cada vez mais agitado. "Nós não somos ovelhas ou vacas", disse o estudante, que se descreveu como Xiao Ming, um nome chinês. "Quanto mais tempo eles nos mantêm trancados mais ficaremos irritados”.

As restrições, contudo, não são de ferro. Estudantes que conseguem mostrar um bilhete de trem ou avião conseguem sair do local, mas só depois de conseguir as assinaturas de três funcionários da universidade – o seu reitor, o seu chefe de departamento e o todo poderoso secretário do Partido Comunista na universidade.

Na noite da terça-feira passada, Yao Xiaolu, 24 anos, saiu triunfante da Faculdade de Finanças e Economia da Universidade do Interior da Mongólia com uma mala na mão, tendo garantido um bilhete de avião que a levaria a um emprego de verão em Pequim. Embora os administradores não tenham articulado os motivos por trás dos protestos ou das restrições, Yao, um estudante de comércio internacional que é han, descreveu os protestos como uma "rebelião" – prova de que a propaganda oficial tem sido eficaz. "A maioria dos estudantes que eu conheço não estão interessados em tumultos", disse ela. "Agora a coisa mais importante é que todos estão apenas entediados”.

*Por Andrew Jacobs

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