Autoridades chinesas roubaram e venderam bebês, dizem pais

Bebês foram sequestrados por oficiais de planejamento familiar de 1999 a 2006 em Hunan; parentes dizem que eles foram usados como fonte de renda

The New York Times |

Muitos pais e avós de Longhui, em uma região montanhosa de plantações de arroz e batata doce da China, sabem há muito tempo que têm de esconder seus bebês sempre que um oficial de planejamento familiar aparece. Muitos bebês, dizem, foram roubados por oficiais e nunca mais vistos.

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Yuan Xinquan, cuja filha de 52 semanas foi levada por autoridades porque ele não tinha uma certidão de casamento, é visto em sua casa em Longhui, China
Mas Yuan Xinquan foi pego de surpresa numa manhã de dezembro em 2005. Pai recente aos 19 anos, Yuan estava com sua filha de 52 dias no colo em um ponto de ônibus quando homens do governo saltaram de uma van branca e exigiram sua certidão de casamento. Ele não tinha uma. Ele e a mãe de sua filha estavam abaixo da idade legal para o casamento.

Ele também não tinha os 6 mil renminbi, então cerca de US$ 745, para pagar a multa exigida para que mantivesse seu filho. Ele ficou apenas com um saco plástico contendo as roupas do bebê e leite em pó. "Eles são piratas", disse no mês passado em uma entrevista em sua casa, localizada no meio da montanha, entre plantações de arroz.

Quase seis anos depois, ainda espera conseguir passar uma mensagem para sua filha: "Por favor, volte para casa o mais rápido possível."

A filha de Yuan estava entre as pelo menos 16 crianças que foram apreendidas por oficiais de planejamento familiar entre 1999 e final de 2006 em Longhui, uma área rural pobre em Hunan, província do sul da China, segundo disseram pais, avós e outros moradores em entrevistas no mês passado.

O sequestro de crianças é um problema permanente na China, onde a preferência persistente por meninos, somada a controles mais rígidos sobre o número de nascimentos, ajudou a criar um lucrativo mercado negro de crianças. Na semana passada, a polícia anunciou que havia resgatado 89 bebês de traficantes de crianças, e o diretor-adjunto do Ministério de Segurança Pública atacou o que chamou da prática de "compra e venda de crianças neste país".

Mas os pais em Longhui dizem que, no seu caso, oficiais do governo local tratam os bebês como uma fonte de receitas, rotineiramente impondo multas de US$ 1 mil ou mais – cinco vezes mais do que a renda anual média de uma família local. Se os pais não podem pagar as multas, os bebês são ilegalmente retirados de suas famílias e muitas vezes colocados para adoção por estrangeiros, outra grande fonte de receita.

A prática em Longhui acabou em 2006, segundo os pais, só depois de um garoto de 8 meses cair da varanda do segundo andar de um escritório de planejamento familiar local quando os oficiais tentaram arrancá-lo dos braços de sua mãe.

Apesar de algumas notícias veiculadas fora da China continental sobre os sequestros sancionados pelo governo em Longhui e outras regiões, a mídia estatal do país ignorou ou suprimiu a notícia até maio deste ano, quando a Caixin, uma intrépida revista chinesa conhecida por investigações extraordinariamente ousadas, relatou os sequestros e pediu um inquérito oficial.

Zeng Dingbao, que lidera o Departamento de Inspeção em Shaoyang, a cidade responsável pela administração de Longhui, prometeu uma investigação diligente. Mas os sinais apontam para uma farsa. Em junho, ele disse ao Daily People Online, a versão para web do jornal oficial do Partido Comunista, que a situação "realmente não é como a mídia relatou, com crianças sendo compradas e vendidas".

Em vez de ajudar a rastrear e recuperar crianças apreendidas, segundo os pais, as autoridades estão punindo aqueles que falam sobre o assunto. Dois dos pais mais vocais foram detidos por 15 dias em Shaoyang sob acusação de solicitar prostitutas em um bordel. Libertados no mês passado, os dois homens, Yang Libing, 47, e Zhou Yinghe, 34, disseram ter sido enganados.

Yang disse que é constantemente seguido por inspetores do governo. Zhou disse que o secretário do partido da aldeia o avisou para que não falasse com repórteres sobre o sequestro de sua filha de 3 meses de idade em março de 2003 sob risco de enfrentar mais punições. "Eles são como criminosos organizados", disse.

As políticas de planejamento familiar da China, embora entre as mais rígidas do mundo, proíbem o confisco de crianças de pais que excedam a sua cota de nascimento, e os abusos desse tipo são muito menos comuns em Shaoyang hoje do que já foram. Mesmo assim, os críticos dizem que os poderes dados a funcionários locais sob regulamentações nacionais de planejamento familiar permanecem excessivos e propensos ao abuso.

"O problema maior é que a política do filho único é tão extrema que encorajou as autoridades locais a agir de forma desumana", disse Wang Feng, membro sênior do Instituto Brookings, que dirige o Centro Brookings-Tsinghua de Políticas Públicas em Pequim.

O escândalo também renovou as dúvidas sobre os americanos e outros estrangeiros terem adotado crianças chinesas que foram falsamente descritas como abandonadas ou órfãs. Pelo menos uma agência de adoção dos Estados Unidos organizou adoções com o orfanato estatal de Shaoyang.

Lillian Zhang, diretora do China Adoption With Love, com sede em Boston, disse por telefone no mês passado que a agência encontrou pais adotivos para seis crianças de Shaoyang em 2006 – todas meninas e todas rebatizadas com o sobrenome Shao, em homenagem à cidade. As autoridades chinesas certificaram em cada caso que a criança era elegível para adoção, disse, e sua agência não pode agora realizar investigações independentes sobre suas origens sem um pedido específico apoiado por evidências. "Sou uma agência de adoção e não um policial", disse Zhang.

O orfanato de Shaoyang precisa publicar um aviso sobre cada criança recebida por 60 dias no jornal Hunan Daily, que circula em Longhui. Crianças não reclamadas são rebatizadas com o sobrenome Shao e aprovadas para adoção. Pais estrangeiros que adotam devem doar cerca de US$ 5,4 mil para o orfanato.

Relatos de que oficiais de planejamento familiar roubaram crianças, bateram em pais, esterelizaram mães à força e destruíram casas semearam um terror silencioso em Longhui na primeira metade da década passada. As vítimas desse terror permanecem repletas de mágoa e raiva.

Yang Libing, um dos dois pais acusados de solicitar prostitutas, disse que era um trabalhador migrante na cidade sulista de Shenzhen, quando sua primogênita, Yang Ling, foi roubado da casa de seus pais em maio 2005, quando tinha 9 meses de idade.

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Yang Qinzheng (2º à dir.), avó de um bebê que foi levado por autoridades, faz o jantar de seus netos em Longhui, China
Oficiais do planejamento familiar aparentemente viram suas roupas penduradas para secar fora da casa de tijolos de barro da família. A avó tentou escondê-la em um chiqueiro, mas o avô, Yang Qinzheng, membro do Partido Comunista e ex-soldado, pediu que mostrasse a criança. "Eu não desobedeço", disse no mês passado. "Faço o que dizem as autoridades."

Os pais de Yang Ling não tinham registrado sua união. Para manter o bebê, disseram os oficiais, eles teriam de pagar cerca de US$ 1 mil na hora. Caso contrário, disseram, ele teria de abrir mão da criança com um depoimento falso afirmando que não era seu avô biológico.

"Fiquei totalmente indignado", disse, mas "não tive coragem de resistir. Eles não seguem as regras". Ele assinou o documento.

Yang Libing descobriu a perda de sua filha durante seu telefonema mensal de um telefone público em uma rua de Shenzhen. "Ela está se comportando?", perguntou alegremente. A resposta, segundo ele,  causou-lhe mau estar físico.

Após correr para casa, implorou a oficiais do planejamento familiar para deixá-lo pagar a multa. Eles disseram que era tarde demais. Quando protestou, um grupo de mais de dez homens o afrontaram. Depois, o diretor do escritório ofereceu um acordo: apesar de sua filha ter desaparecido para sempre, os Yangs poderiam conceber mais dois filhos.

"Não consigo nem mesmo descrever o ódio que sinto por esses oficiais de planejamento familiar", disse Yang. "Eu os odeio com todo o meu ser. Eu me pergunto se eles são pais também. Por que não nos tratam como seres humanos?"

Questionado se ainda estava à procura de sua filha, respondeu: "Claro! Não se trata de uma galinha. Não se trata de um cão. É a minha filha.”

Hu Shelian, 46, outra vítima angustiada, deu à luz uma segunda filha, em 1998. Mesmo com os oficiais de planejamento familiar tendo dito que os casais de sua área podiam ter um segundo filho se o primeiro fosse uma menina, ela disse que um oficial quebrou suas janelas e levou sua televisão como castigo.

Depois de ter uma terceira filha, no ano seguinte, cobraram uma multa alarmante de quase US$ 5 mil. Quando ela alegou pobreza, quatro oficiais levaram a recém-nascida dos seus braços, colocaram-na num carro e a levaram para o hospital do município para uma laqueadura forçada. Seu bebê desapareceu nas entranhas do orfanato Shaoyang.

Xiong Chao escapou desse destino. Os moradores da região dizem que ele foi o último bebê que os funcionários tentaram roubar e um dos poucos a voltar para casa.

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Xiong Chao, de 6 anos, um dos últimos bebês que as autoridades tentaram levar em 2006, dorme no colo de sua avó Dai Yulin em sua casa em Longhui, China
Agora, seis anos depois, sua avó de 63 anos, Dai Yulin, pacientemente rabisca números com giz azul e branco em sua parede de concreto esperando – em vão – que Chao consiga aprendê-los. "Ele foi para a escola primária durante um ano inteiro", disse, "e ele ainda não consegue reconhecer o um e o dois."

Perto dali fica o quarto minúsculo e escuro onde tentou e fracassou em escondê-lo, em setembro de 2006, dos oficiais de planejamento familiar. Ele tinha 8 meses e era o segundo filho de seu filho. Os oficiais exigiram cerca de US$ 1 mil, então o levaram embora quando ela não pôde pagar.

Sua mãe, Du Chunhua, correu para o escritório de planejamento familiar para protestar. Lá, quando ela lutou com dois oficiais na varanda do segundo andar, o bebê escorregou de sua mão e caiu mais de três metros no pavimento abaixo.

Mais tarde, disse, com o bebê em coma no hospital, sua testa permanentemente deformada, as autoridades ofereceram um acordo: eles esqueceriam a multa, desde que a família pagasse as contas médicas de Chao. Além disso, disseram, a família poderia ficar com ele.

*Por Sharon Lafraniere

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