Auschwitz quer passar a ter nova missão de educar visitantes

Museu estatal local busca ampliar foco para deixar de ser mero exibidor de memórias do Holocausto

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Por quase 60 anos, Auschwitz contou sua própria história, moldada nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. Ela se desenrola, sem adornos e, sobretudo, inexplicável, na exposição de cabelos, sapatos e outros vestígios dos mortos. Passado o notório e provocante portal, nos prédios de tijolos que compunham o antigo quartel do acampamento do Exército polonês que os nazistas capturaram e converteram em prisões e câmaras de morte, os visitantes se transformam em testemunhas através do que veem em exposição.

Agora, os encarregados de passar adiante o legado desse acampamento insistem que Auschwitz precisa de uma atualização. Sua história precisa ser contada, de uma maneira diferente em uma era diferente. Em parte, a mudança tem a ver com a simples passagem do tempo, remodelar uma exposição envelhecida. Mas também é devido às pressões do turismo e sobre as mudanças das gerações. O local mais visitado e o maior cemitério de judeus e não judeus da Polônia precisa explicar-se melhor, afirmam seus funcionários.

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Piotr Cywinski, diretor polonês do Museum Estatal Auschwitz-Birkenau, em Auschwitz, Polônia
Uma nova exposição no Museu Estadual Auschwitz-Birkenau, que ocuparia alguns dos mesmos prédios, irá manter os cabelos e outros vestígios, que já se tornaram ícones indissociáveis de Auschwitz, como o crematório e as linhas ferroviárias. Mas a exposição terá início com uma seção de esclarecimento sobre como funcionava o campo de concentração, uma instituição burocrática nazista alemã, de acordo com sobreviventes que explicaram seu funcionamento na década de 50 - tema já praticamente inexistente na exposição atual.

Naquela época, eles queriam apagar seus torturadores da memória, como os nazistas tentaram apagá-los, então eles disseram o mínimo possível em sua exposição sobre os alemães, que haviam concebido e executado o campo. Eles se concentraram na condição das vítimas em massa, mas não destacaram histórias individuais ou testemunhos do tipo que se tornaram comuns em museus mais modernos, como dispositivos para traduzir números incompreensíveis de mortos em pessoas reais, dando aos visitantes as histórias pessoais e personagens com quem possam se relacionar. As pilhas, incluindo próteses, malas e assim por diante, também ressaltaram a escala do abate no momento em que o mundo ainda não havia compreendido e se recusava a admitir o que realmente tinha acontecido aqui.

Guerra

Marek Zajac, editor de uma revista polonesa de 31 anos de idade que trabalha como secretária do Conselho Internacional de Auschwitz, destacou: "As pessoas que visitaram depois da guerra, já sabiam o que havia sido essa guerra, em primeira mão. Elas tinham passado por isso. Assim, a história de uma única morte não necessariamente as comovia, porque elas tinham visto tanta morte na família e nas ruas, então o que chocava era a escala das mortes em Auschwitz”.

A nova exposição iria descrever o processo de extermínio, levando os visitantes passo a passo pelo que as vítimas passaram, e terminando com uma seção sobre a vida no campo, ou seja, a "desumanização diária e a tentativa de manter a própria humanidade", disse Piotr Cywinski, 39 anos, diretor do Museu Estadual Auschwitz-Birkenau. "Se conseguirmos, iremos mostrar pela primeira vez todas as escolhas humanas que as pessoas enfrentavam em Auschwitz", ao explicar que seu papel é mostrar atos e decisões humanas que ocorreram em situações extremas ali, assim como a diversidade de pensamento e raciocínio por trás das decisões e suas consequências. "Poderemos fazer perguntas como: a mãe deveria dar sua criança para a avó e ir para a seleção sozinha, ou levar a criança com ela? Essa era uma escolha real, sem uma boa solução, mas em Auschwitz você tinha de fazer essa escolha".

Um prédio antes usado em experiências de esterilização, um dos poucos que permanecem quase intactos desde a guerra, poderá ser reaberto, e um novo centro de visitantes construído para substituir o pequeno espaço usado hoje para lidar com as multidões. Haverá alguns sinos e apitos, Cywinski insistiu, mas poucos vídeo e instalações de telas sensíveis ao toque nas galerias principais, pois eles seriam inviáveis por causa do tamanho das hordas de visitantes. Nada deve ocultar as provas do próprio local, frisou.

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Pertences de mortos pelos nazistas no campo de concentração Auschwitz-Birkenau, em exposição no museu estatal
"Quanto mais a gente usar efeitos especiais, mais desviaríamos a atenção da autenticidade deste lugar, que é diferente de qualquer outro", disse. Todos ou quase todos os visitantes serão levadas por guias que responderão a perguntas e manterão as multidões em movimento.

Mudanças

As mudanças em Auschwitz implicam em primeiro lugar calcular como mover massas cada vez maiores de pessoas de forma mais eficiente, eficaz e rápida através do local, e revela uma desconfortável perda histórica que todos aqui percebem. Uma explosão do turismo de massa, do turismo sombrio e de programas de educação na Europa e outros lugares, que enviam estudantes para o exterior, triplicaram o número de visitantes a Auschwitz durante a última década. Cerca de 450 mil pessoas visitaram Auschwitz em 2000. No ano passado, esse número já era de 1,38 milhões.

Auschwitz deve encontrar formas de envolver os jovens (cerca de 850 mil alunos visitaram o local no ano passado), para gerar um sentimento que o diretor chamou de "responsabilidade com o presente".

Atualmente isso é desenvolvido com dificuldade nas perguntas e informações históricas apresentadas pela exposição e pelos guias turísticos. A própria noção de que as pessoas veem Auschwitz cada vez mais como uma história antiga e que o local, com suas ruínas assombradas, poderá deixar de falar por si mesmo, mas precisa ser relevante para um novo século reflete uma mudança mais ampla na educação e nos estudos sobre o Holocausto. "Auschwitz é um dos pilares da Europa do pós-guerra", disse Cywinski. "É a chave para o entendimento do hoje".

Gerações

Cada geração tirou as histórias que quis do local. Sob o comunismo, Auschwitz serviu como um monumento nacional aos prisioneiros políticos poloneses, que foram as primeiras vítimas do campo. Birkenau, onde centenas de milhares de judeus da Polônia, França, Alemanha, Hungria, União Soviética e outros lugares foram assassinados, caiu em abandono, porque não se encaixava na narrativa.

Depois que o Muro de Berlim caiu, houve uma dolorosa disputa entre católicos e judeus sobre o que seria uma apropriação simbólica de Auschwitz como um lugar de martírio e de luto, o que levou, entre outras coisas, à criação do Conselho Internacional, um conselho de assessores sob a autoridade do primeiro-ministro da Polônia, que inclui sobreviventes, diretores de museus, clérigos, estudiosos e representantes de grupos de judeus, ciganos e outros.

O Conselho Internacional pode se reunir em junho para analisar as alterações propostas para a exposição. Um concurso internacional seria o próximo passo para escolher um designer, e talvez até 2015, disse Cywinski, uma nova exposição seja inaugurada. O custo de US$ 20 milhões, incluindo o aporte ao necessário trabalho de conservação dos edifícios, seria pago pelo governo polonês.

Cywinski também está buscando arrecadar outros US$160 milhões para um fundo patrimonial para preservar o conjunto de Auschwitz e Birkenau, que precisa de milhões de dólares por ano em conservação. A Alemanha comprometeu US$ 81,5 milhões, a Áustria, US$ 8 milhões e os Estados Unidos prometeram US$ 15 milhões até agora.

"Isso pode soar chato, mas eu acredito que cuidar desse lugar é uma dívida para com as vítimas", disse Zajac. "Às vezes eu revejo alunos com quem me encontrei aqui anos atrás, agora crescidos, que dizem ter mudado depois de sua visita, que se tornaram pessoas mais responsáveis, dedicadas à caridade, levando uma vida mais ética”.

Ele disse que muitos deles se sentem obrigados a voltar: "Eles sentem vergonha de admitir isso, porque soa estranho, mas sentem falta desse lugar. Eles precisam voltar".

Zajac compartilha do mesmo sentimento. "Quando estou em Auschwitz consigo olhar o mundo e minha própria vida. Lembro-me do que é realmente importante, e que é tão fácil de esquecer. No reino da morte, você pode encontrar o sentido da vida. No maior cemitério do mundo eu sinto que estou vivo”.

*Por Michael Kimmelman

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