Aumenta o número de suicídios químicos nos Estados Unidos

Desde 1º de janeiro, ao menos 27 pessoas tiraram suas vidas inalando gases tóxicos em carros, armários e outros espaços fechados

The New York Times |

No Japão ele é conhecido como suicídio detergente, uma morte quase instantânea conseguida através da mistura de produtos químicos domésticos comuns que criam uma nuvem de gás venenoso.

Segundo estatísticas, mais de 2 mil pessoas tiraram suas próprias vidas, inalando o gás - na maioria dos casos sulfeto de hidrogênio - em carros, armários ou outros espaços fechados. A polícia agora diz estar vendo um número crescente de suicídios semelhantes nos Estados Unidos, inspirados por sites que divulgam receitas para a mistura química, assim como instruções detalhadas sobre como usá-la.

E como no Japão, onde os suicídios fizeram com que bairros inteiros fossem esvaziados e dezenas de pessoas foram parar no hospital, os desesperados e desanimados que querem tirar a própria vida não são as únicas vítimas.

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Fotografias de John Kelly, que cometeu suicídio dentro de um jeep, em Irvington, nos EUA
Dos 72 suicídios químicos que os especialistas documentaram nos EUA desde 2008, pelo menos 80% resultaram em ferimentos em policiais, bombeiros, equipes de emergência ou civis expostos ao gás, apesar dos esforços das vítimas de suicídio em proteger os outros, colocando sinais de advertência nas janelas de carros ou nas portas de armários, disse Jacob Oreshan, vice-chefe do Gabinete de Estado de Prevenção e Controle de Incêndio de Nova York, que vem acompanhando os casos.

No ano passado houve 36 suicídios químicos nos EUA. Desde 1º de janeiro, houve pelo menos 27, indicando que a incidência está aumentando, disse Oreshan. Esses números, no entanto, ainda representam uma pequena fração dos 34 mil ou mais suicídios que acontecem por ano no país.

As lesões aos socorristas até agora têm sido pequenas. Mas, em alguns casos em que policiais abriram as portas ou janelas de carro carro quebrado sem equipamento de proteção, o gás "os derruba no chão", disse Oreshan. Para evitar a exposição, equipes de resgate não conseguem chegar à vítima até que o perigo seja eliminado, um processo que pode demorar horas.

E isso, disse Michael Cerone, chefe de polícia de Irvington, Nova York, é "de cortar o coração." "Você quer ajudar. Quer chegar até lá", disse ele.

No dia 28 de março, Cerone investigou um relato de uma pessoa aparentemente desmaiada dentro de um Jeep Liberty estacionado em uma estrada de terra deserta. Uma placa na janela advertia contra quebrar o vidro e pedia que a equipe de resgate chamasse um time especialista em materiais perigosos, disse ele. O esquadrão antibombas foi chamado, e um robô foi enviado para abrir a janela traseira do carro. Todas as casas no bairro foram esvaziadas.

Naquele momento, a poucos quilômetros de distância, Stephen Kelly, um médico de família, estava na delegacia de polícia em Irvington esperando para registrar uma ocorrência sobre uma pessoa desaparecida, seu filho de 24 anos de idade, John. Enquanto ele estava ali, um despachante no rádio da polícia descreveu o carro e o corpo encontrado dentro, e Kelly soube imediatamente o que havia acontecido.

Ele e sua esposa, a enfermeira Janet, haviam passado horas naquela tarde em uma busca cada vez mais frenética por seu filho, que sofria desde a infância de um grave transtorno obsessivo-compulsivo e depressão e havia sido hospitalizado em dezembro, depois que uma tentativa de suicídio. Kelly havia largado sua clínica para ficar em casa e tentar ajudar John a superar sua depressão.

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Janet Kelly, mãe de John, que se matou aos 24 anos
Apesar da doença de John, ele se formou na faculdade com um diploma em psicologia e estava trabalhando em um hospital psiquiatrico da região. "Ele não deixava que as pessoas soubessem", disse sua mãe. "Ele sempre aconselhava os outros”.

Padrão

Outros suicídios têm seguido um padrão similar. Em 23 de maio, uma mulher de 23 anos morreu em seu carro no bairro de Hollywood Hills, em Los Angeles, depois de misturar a receita e colocar placas na janela dizendo "Perigo! Produtos químicos! Ligue para o 911”. Ela havia feito um pacto de suicídio com um homem que mudou de ideia no último minuto e saiu do carro, disse a polícia.

Em um suicídio em Baldwin, Michigan, em 8 de janeiro, a equipe de resgate foi levada para o hospital depois que um bombeiro mexeu em uma caixinha no carro da vítima de suicídio, fazendo com que o gás voltasse a ser liberado. E em Massachusetts, uma mulher idosa ficou doente depois que a fumaça tóxica vazou através de seu teto de um apartamento no andar de cima.

"O suicídio é geralmente destinado a uma vítima", disse Richard Perrin, xerife do Condado de Lake, que estava na cena do suicídio em Michigan. "Mas essa forma de suicídio tem o potencial de afetar muitas pessoas, de maneira intencional ou não, e isso a torna muito perigosa."

Perrin coordena um dos cerca de 50 policiais e bombeiros que fazem parte de um grupo nacional de trabalho organizados por Oreshan para educar equipes de emergência sobre os suicídios.

Internet

No Japão, sites anunciam o método de suicídio químico como uma forma de "morrer de maneira fácil e bela”, de acordo com uma reportagem de 2008. Após o número de pessoas afetadas por suicídios químicos atingir proporções alarmantes - no centro da cidade de Konan, o suicídio de uma menina de 14 anos de idade afetou 90 de seus vizinhos em 2008; em Otaru, 350 pessoas foram retiradas de suas casas após um jovem de 24 anos usar a tática para cometer suicídio - oficiais do governo tentaram persuadir sites da internet a remover as receitas.

Mas a proliferação dos sites tem sido difícil de controlar e instruções permanecem facilmente disponíveis, em alguns casos fornecidas pelos usuários de fóruns de suicídio em resposta aos pedidos de pessoas desesperadas.

"No meu último post, contei minha história", escreveu um participante do fórum que adota o apelido Death (morte, em inglês) sobre o texto com o título "Pesquisando maneiras confiáveis para partir”. "Eu agora estou aqui para perguntar se alguém pode colocar um link para uma receita do método de suicídio detergente japonês”.

Materiais

O sulfeto de hidrogênio é um gás incolor que cheira fortemente a ovos podres e é produzido naturalmente pela decomposição de matéria orgânica. Mortes causadas por esse componente ocorrem mais comumente por causada de exposições acidentais em minas ou esgotos. O gás se dissipa rapidamente, mas se inalado em altas concentrações, pode causar convulsões, coma e morte rápida.

"Você definitivamente não corre nenhum risco de errar, porque a respiração vai te matar", disse Kurt Kleinschmidt, chefe de toxicologia na Universidade de Medicina do Texas, que tem acompanhado os suicídios.

Kleinschmidt disse que a letalidade do método não deixa espaço para a ambivalência ou segundos pensamentos. John Kelly, o jovem que morreu em Irvington, parecia determinado a não ser dissuadido. Nos meses antes de seu suicídio, ele havia dito a seus pais que se sentia cada vez mais aprisionado por suas obsessões. Seu mundo estava diminuindo, ele dizia.

Em seu diário, ele escreveu poucos dias antes de morrer sobre sua luta com a doença: "Preciso acreditar, usar o que sei. Trabalhar nesse ideal. Preciso me esforçar. Não há atalhos.” Ele observou que deveria "procurar a ioga" e lembrou a si mesmo que se sentia suicida e que deveria "tomar um Klonipin, ir à academia, ligar para um telefone de auxílio ao suicídio”.

Na manhã de 28 de março, Kelly disse, ele e sua esposa conversaram com John sobre os planos de levá-lo ao Hospital McLean, em Boston, para tratamento. "Será que isso lhe dá esperança?" seu pai lhe perguntou. Ele acreditava que sim.

*Por Erica Goode

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