Aulas de skate oferecem diversão em meio à guerra no Afeganistão

CABUL - Parecia um parque comum: seis crianças caindo de seus skates e rindo umas das outras. Mas há pouco tempo, o corpo de um homem-bomba estava deitado naquele mesmo local sobre uma poça de sangue.

The New York Times |

A juventude afegã aprendeu a se recuperar quase instantaneamente dessa violência rotineira e Oliver Percovich, 34, de Melbourne, Austrália, está determinado a injetar uma certa normalidade a suas vidas.

Ele planeja abrir a primeira escola de skate do país, a Skateistan, na primavera. O australiano vê o esporte como uma forma de encorajar os estudantes a participarem de atividades pós-escolares como aulas de inglês e computação, que de outra forma seriam reservadas à elite.

"Os adolescentes tentam abandonar a antiga mentalidade e eu sou seu servo", disse Percovich. "Se eles não estivessem interessados, eu teria ido embora há muito tempo".

Atualmente, quando chega em sua moto a um bairro residencial, dezenas de jovens correm para recepcioná-lo, mostrando seus skates desgastados. As crianças, que praticam um esporte pela primeira vez em suas vidas, não querem perder tempo.

Sua pista de skate é um decrépito chamariz da era soviética com profundas rachaduras. As manobras causam colisões que lembram mais uma bate-bate de parque de diversões do que os X Games.

Mas Percovich arrecadou o dinheiro necessário para construir um complexo de 796 km² que sediará a Skateistan e a Autoridade de Parques de Cabul doou o terreno. Ele ainda espera a permissão oficial para dar início ao projeto. Desde uma onda de sequestros e ataques a bomba na região em novembro, ele reduziu suas aulas no chamariz a uma ou duas vezes por semana.

Entre os que esperam sua visita está Maro, uma menina de nove anos que no começo morria de medo dos skates.

"Ele me deu coragem e depois que eu comecei a andar de skate esqueci completamente os meus medos", ela disse

Todas as crianças falaram através da ajuda de uma intérprete.

A camiseta de Maro, com um brilhante desenho do Mickey Mouse, indica sua posição na classe média da sociedade local. Ela se destaca entre as crianças que compartilhavam o tempo no skate da rua em roupas sujas de lama. A novidade da prática pode ajudar a diminuir muitas divisões étnicas e sociais do país, disse Percovich.

Mas para Hadisa, uma menina de 10 anos de uma família conservadora, o skate não foi permitido. Ela disse que seus dois irmãos mais velhos bateram nela com cabos depois que ela experimentou o esporte junto com crianças mais pobres em setembro. Diversos amigos disseram ter visto sangue escorrendo de suas pernas.

Talvez o mais empolgado dos jovens na aula de skate seja Mirwais, um menino de 16 anos que consegue fazer um ollie, uma manobra aérea que é a base para outras mais avançadas. Mirwais, que abandonou a escola depois do segundo ano do ensino fundamental, primeiro acompanhou as aulas à distância, de um estacionamento onde lavava carros por US$4 por dia para ajudar sua família de oito pessoas. Percovich disse que Mirwais muitas vezes era visto cheirando cola.

Agora Mirwais parece mais asseado e ganha US$8 por dia trabalhando para o projeto Skateistan, consertando skates, fazendo tarefas e ajudando em algumas aulas. "Eu quero melhorar o quanto puder e continuar a sustentar minha família com o meu skate", ele disse. "Este é o meu futuro".

Ainda assim, muitos jovens da classe média e alta reclamam que Mirwais zomba deles usando palavras sujas, evidência dos desafios da mistura de classes sociais e grupos étnicos no país.

Mas Percovich está determinado a sobrepujar todos os obstáculos. Ele chegou aqui de maneira impulsiva no começo de 2007 porque sua namorada na época havia aceitado um emprego em Cabul. Ele desistiu de sua padaria, colocou algumas roupas (e skates) em uma mala  e deixou a Austrália.

Sem conseguir achar emprego, Percovich fazia o que gostava desde seus seis anos de idade: andava de skate, inabalado pelos comboios militares, burricos, barracas, poeira e algumas explosões.

"Onde quer que eu fosse, as crianças se reuniam em torno de mim e perguntavam, 'O que é isso?'", ele disse, se referindo ao skate. "Eles pediam para experimentar e eu percebi rapidamente que era uma forma incrível de interação com os jovens".

Por ADAM B. ELLICK

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